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09 dezembro 2022

 Ela tem 15 anos e luta contra a depressão. Seus braços marcados revelam sua dor. Rejeitada na escola e invisível nas ruas. Na solidão dos dias ela vai tentando reunir forças para viver e sonhar. Este livro é seu diário. Um caderno que a acompanha e onde registra seu cotidiano na escola, os amigos, a família, em textos e desenhos que rabisca pelas páginas.


Por que ler este livro?
Para entender melhor a depressão, que é real. O sofrimento das pessoas é verdadeiro, e você precisa pensar melhor sobre isto. Pare. Leia. Entenda.
“A Felicidade é um quase nada” é um romance que fala sobre depressão e adolescência, sempre a partir do olhar de uma garota de 15 anos.
É ela que nos conta sua vida, suas paixões e sonhos.
Esta é uma história que joga luz sobre um drama de milhões de pessoas, jovens e adultos de todas as idades.
Abra o livro e embarque no universo particular de uma adolescente, onde o mistério e o poder dos afetos podem transformar a realidade.


Meu novo livro foi lançado na primavera, em várias feiras do livro: Porto Alegre, Osório, São Leopoldo.

Está disponível nas livrarias e lojas virtuais, e também no site da editora Libretos: www.libretos.com.br

@eleneukamp

13 abril 2022

A procura

Eu te procuro nos becos, nas ruas, 
no meio das gentes, entre manequins pálidos, 
vitrines, sonho, sono 
e cheiros de urina e pipoca 

 Eu procuro sedento o teu olhar sob as máscaras,
 as marquises, as cores difusas do dia 

Quero te convidar para que 
venha comigo inventar um amor 

 Pode ser bem pequeno, esse amor 
que caiba na eternidade de uma noite ou
 na beleza despudorada 
da lua cheia nascendo no mar 

 Pode ser bem grande, esse amor 
sem cabimento, nem limite de tempo, 
espaço, de loucura e lucidez 

 Eu te procuro pra dividir 
esse sonho modesto
 de mudar o mundo 
dentro e fora de nós

02 outubro 2021

Fica filosofia, sai retrocesso!

Segundo o que me disse um livro, as antas são mamíferos enormes e pesados. Criam um caminho no meio da mata que atravesse sua comida e chegue até alguma fonte de água. O caminho das antas é seguro. Todos os dias elas retornam por ele até a comida e a água. As onças vasculham muitos caminhos. E gostam de comer antas. O caminho das antas até pode ser seguro, mas no momento em que uma onça o encontra não há mais nenhuma saída. A onça sabe que basta apenas deitar na moita e ficar esperando. Antas são previsíveis. Onças são implacáveis. Brinco com os alunos desenhando um caminho de anta no quadro. E o riachinho mal rabiscado lá embaixo, onde ele sempre dá. A metáfora pode ser pobre, confesso. Porém, o objetivo é nobre: Ressaltar a importância das aulas de filosofia. Não cabe à Filosofia mostrar caminho nenhum a ninguém (para isto temos os condutores de almas em vários formatos e preços). Ela nos abre a possibilidade de vislumbrar outros caminhos, atalhos cheios de descobertas. Mostra um mundo onde só havia um muro, e aí estou sendo quase literal. Na sala de aula ela trabalha conceitos, que podem vir da tradição do pensamento ocidental ou da linguagem da quebrada. Lembro agora de um aluno, na Restinga, que depois de uma rica discussão durante a aula veio me comunicar uma decisão. “Sôr, sabe eu pensei...não vou mais trazer o ferro pro colégio”. Aí entendi o fato de que ele passava o tempo todo com a mochila nas costas, mesmo durante o intervalo. Andava armado por medo. Um medo que foi desmontado a partir das falas dos próprios colegas, no meio de uma aula de filosofia. Aquela discussão, daquela forma, só aconteceria naquela aula. Porto Alegre foi uma cidade pioneira quando resolveu incluir no currículo das escolas municipais a disciplina de filosofia. Uma bela oportunidade oferecida a jovens de periferia, no ensino fundamental. Afinal, por que a filosofia deveria ser apenas privilégio dos matriculados em escolas de classe média alta e ricos? As aulas de filosofia muitas vezes antecipam questões que depois se tornam assuntos de todos. Nos últimos dez anos um dos grandes temas foi a depressão, em suas mais variadas expressões. A depressão como doença, como perda, ansiedade, e até como a tristeza de não poder sair de casa à tarde porque o traficante da rua proibiu. Quando estudamos, por exemplo, a mediania de Aristóteles, é a vida que surge. Como encontrar o equilíbrio entre dois excessos? Onde está o meio termo entre o medo de sair do próprio quarto (covardia) e a sensação de que posso fazer qualquer coisa na rua (destemor)? Como chegar a uma boa alimentação, que não seja nem exagero no comer, nem passar fome para tentar ter “um corpo perfeito”? A vida acontece e é pensada enquanto se discutem grandes temas e filosofias variadas: Epicuro, Platão, Simone de Beauvoir etc. Outro dia, uma aluna de C10 (corresponde em idade a antiga sexta série), me disse que havia pensado sobre as coisas que ela comprava (e que não precisava) depois de uma aula sobre Diógenes. Durante a aula, em nenhum momento foi utilizada a palavra “comprar”, nem tampouco “consumo”. O pensar acontece como construção a partir da provocação trazida pelo filósofo. Não é um discurso do professor. Há várias formas de trabalhar esta disciplina nas escolas, e a variedade de abordagens deve estar próxima ou igual ao número de professores e professoras. Isto é uma riqueza. O que há em comum é a tradição, a própria história da filosofia e os clássicos. Tudo o mais são experiências de aprendizado. Registrei uma destas experiências de sala de aula no livro “A Caixa de Perguntas” (Libretos), que enviei recentemente para a secretária de Educação de Porto Alegre. Outro dia podemos falar sobre ele. Agora preciso retornar às antas, onças e caminhos mais urgentes. Não sabemos exatamente por que, mas a prefeitura de Porto Alegre, através de sua Secretaria de Educação (SMED), resolveu simplesmente retirar a filosofia do currículo das escolas. E não só. História e Geografia também tem seus horários reduzidos. Não sei, mas corremos aí o risco de construir um caminho de anta perfeito. Para ocupar este vazio curricular criado, ela pretende aumentar a carga horária de Português e Matemática, e inserir como um período fixo o Ensino Religioso (que é facultativo). Em troca, a prefeitura promete criar “possibilidades de um um trabalho interdisciplinar de Filosofia desde os anos iniciais...”, o que significa que não deve acontecer nada. As pessoas gostam de usar certas palavras para disfarçar o que está evidente. A única justificativa usada é “a adequação à legislação vigente”. Mas aí temos um outro problema: a prefeitura usa a legislação estadual e esquece que neste sentido somos regidos pelo Conselho Municipal de Educação. Talvez a atual administração queira deixar suas garras, suas marcas na educação da cidade. Como uma onça? Não creio. Só se for uma onça que queira agradar às antas que acreditam nas tolices dos grupos de terra plana do WhatsApp. Como aquela mãe que retirou seu filho da escola ao descobrir que ele era gay. Segundo ela, o filho teria sido ensinado a ser assim. Economia de recursos? Também não parece, pois precisariam contratar professores. Além disto, acabam de nos roubar vários direitos e anos de aposentadoria, e já haviam destruído nosso plano de carreira. Estamos há vários anos com os salários congelados. Por que então? Como diria um amigo mais velho, “só sei que nada sei”. Outro argumento seria que precisamos de mais Português e Matemática, porque estas disciplinas são cobradas nas provas nacionais de avaliação. Esta é uma visão pobre de educação, por várias razões. E mais horários poderiam ser oferecidos no contraturno como aulas de reforço, laboratórios de aprendizagem etc. De qualquer forma, é preciso dizer: as coisas são mais complexas. Não é apenas uma questão de tempo, mas também de fome, miséria, contexto. Basta observar os mapas de resultados. Quanto mais periférica a escola, piores os resultados. Retirar a filosofia não aumentará índice algum. Só irá empobrecer o repertório oferecido. É como prometer melhorar a alimentação de alguém, retirando um dos ingredientes do prato. Vivemos um momento estranho. Em tempos bem recentes, os políticos enchiam a boca falando em educação. Educação era a solução de tudo, e todos prometiam investir nela. Nas propagandas o fulano “construiu tantas escolas infantis”, “abriu tantas vagas nas escolas”, “melhorou a merenda escolar”. Imagens de crianças brincando felizes e de escolas limpinhas e reformadas ocupavam a propaganda eleitoral. As mães apareciam sorrindo e elogiando. Agora talvez teremos prefeitos babando em frente às câmeras, aos gritos: “Eu acabei com essa farra de filosofia!”, “Eu proibi aula de história..pra que estudar história?”, “Ninguém precisa de geografia”, “Pensar é coisa de fresco!”, e por aí vai. Sempre com uma turba de alucinados para aplaudir. Triste é perceber que pessoas com formação em educação se prestem a fazer o serviço sujo, tentando passar verniz sobre dejetos. Não sei a quem pensam enganar. Quando comecei meu caminho como professor, há 25 anos atrás, havia uma espécie de clichê no ar. A ideia de que ao poder, ou aos “poderosos” não interessava um povo educado. Hoje percebo o quanto fazia e faz sentido. O empobrecimento de educadores e educadoras é um projeto, assim como a tentativa clara de eliminação de tudo o que lembre reflexão. São retrocessos bem planejados. Estamos diante da tentativa de mais um, na cidade que já foi um dia um porto alegre para a cultura e a educação. Fica Filosofia, sai retrocesso! Elenilton Neukamp, professor de Filosofia da rede municipal de Porto Alegre.

26 fevereiro 2021

Sidekum

 Antônio Sidekum nos deixou ontem. Como tudo nesta pandemia, até a terrível notícia da morte de um amigo chega de um modo estranho. 

Muito falamos sobre a morte, eu e o Antônio. Tema dos existencialistas. Apesar de ter sido seminarista e de ter por toda a vida contato com religiosos, ele era ateu. Radicalmente ateu, eu diria. Porém, colocava em prática o que defendia em sua produção intelectual: o diálogo, a abertura para o outro (este estranho).

Conheci o filósofo Antônio Sidekum pelo caminho da política. Acho que é a primeira vez que falo sobre isto, assim publicamente. E não lembro se voltamos a este tema. Ele me procurou, isto lá pelos anos noventa, para fazer parte do Partido Verde. Eu era presidente do partido na cidade, e ele pretendia entrar na discussão pública. Maluca a vida. Lembro que fiquei umas duas horas esperando por ele, durante uma aula incompreensível para mim. Conversamos sobre os problemas do mundo, a natureza... Por ser um cara introvertido, esse projeto não andou. Assim como o PV. 

Depois fui seu aluno de Filosofia, e foi onde nossa amizade iniciou. 

Antônio Sidekum foi um dos meus grandes professores, um de meus mestres na filosofia. Professor incrível. Sempre ligava o assunto, ou o filósofo abordado, com a história e a cultura da época. Sempre havia a dica de um filme para entender melhor o ambiente daquele autor. Um livro, vários livros. E música. "Para entrarem no clima do pensador, escutem o movimento tal do autor tal...". Uma pessoa de uma cultura vasta. E de uma generosidade vasta também.

Suas aulas não tinham intervalo, e ninguém sentia falta. Íamos direto, do início até o último minuto. Quando a disciplina era na sexta, muitas vezes a aula seguia fim de semana adentro. A turma era convidada a fazer um banquete filosófico. No outro dia estávamos lá em sua casa, cada um levava algo para comer, uma garrafa de vinho, algo para alegrar o coração. Tudo se discutia ali. E ele trazia livros, textos originais. Até quando falava em comida tinha o que ensinar. Ninguém saía de mãos ou mente vazia. Com o tempo, nós mesmos passamos a organizar estes banquetes, onde escolhíamos um autor para ler e discutir.

Na sua casa de São Leopoldo havia uma torre de observação, onde ele ia nas noites de tempestade. Era uma espécie de refúgio. 

Criou uma editora, a Nova Harmonia, por amor à cultura e ao conhecimento. Investia seu dinheiro no que acreditava. Por ela, publiquei meu primeiro livro, sobre Nietzsche. O segundo, foi uma história que ele me encomendou, sobre um monge e uma freira. Um amor proibido. O livrinho era vendido juntamente com o licor de nozes, delicioso, que ele produzia. A história do amor proibido talvez tivesse relação com sua dificuldade em lidar socialmente com seus amores. 

Tínhamos um projeto de livro para registrar a sua história. Antônio foi torturado durante a ditadura, quando era estudante de filosofia em Viamão (RS). Depois da prisão e da tortura, acordou em plena Praça da Alfândega (Porto Alegre), nu e todo machucado. Demorou para lembrar quem era. Esta experiência terrível era um trauma. Um dia me mostrou os documentos, que ele conseguiu através da OAB de São Paulo, que os serviços da repressão fizeram sobre ele. Eram fotos, relatos de gravações, fichas policiais. Tudo em detalhes. Até festas em que esteve, conversas em acampamentos de juventude. Sempre havia um espião, um verme à espreita. O fato dos torturadores não terem sido condenados lhe causava repugnância. 

Lutava pelos direitos humanos e sempre a favor dos "condenados da terra". Isto já basta para engrandecer um homem.

Estou aqui escrevendo várias coisas. Mas o que quero dizer mesmo é que dói perder um amigo. Sua obra, seu trabalho intelectual segue vivo em sua produção, nos livros que escreveu, editou e ajudou a divulgar. As longas tardes de conversas, as piadas, a amizade, ficam na memória. No coração.

Triste. Porém, "é preciso arrancar alegria ao futuro". 

Antônio Sidekum, presente!


30 maio 2020

Carta a um amigo escritor


Carta a um amigo escritor
Recebi “As Cartas Místicas” no início da Semana Santa e dediquei-me com entusiasmo a leitura. Tocou-me, como era o desejo do autor. Tocou-me por dentro, alma, cérebro, vísceras. Tem muita vida e muito sangue nessas cartas. Muita alegria e muita poesia, também.
As emoções mais conflituosas eu vivi, enquanto lia As Cartas Místicas e outras alegrias crônicas. Senti que as outras alegrias crônicas estabeleceram em minha mente a suavidade de um barco, deslizando em uma calmaria oceânica.
Caro amigo Elenilton, seu texto efusivo encanta. Sua sutileza inteligente em narrar fatos, apontando as agruras do cotidiano, movimenta a carne do humano, que há em nós, e que muitas vezes está dormente ou ausente, envolvida, na brutalidade de tudo.
Destaco algumas pela preciosidade do que ali está contido e pela intensidade do que produziu em mim. Da percepção atenta de “Pájaros” à serenidade delicada de “Sob o sol de Sagitário”, há uma comovente fala, que circunda os dias e as horas. Não posso deixar de apontar para a eloquência de “A saudade de uma cadeira vazia”, bem como a solenidade de “Quando encontrei o nome dela”. Os ritos quase litúrgicos de “A sopa” e o “Teatro do Teleco”, tem lágrimas e sorrisos. E a alquimia orgiástica e estética atingem o âmago do ser gente, na leitura de “Raul Seixas entre o Rock e a Filosofia e Belchior. Ao ler, imaginando, “Aquela Mulher”, reuni em mim a síntese da mística do que você quis mostrar.
Suas Cartas têm o manancial lírico, severo, crítico, amargo, lúcido, doce, próprio dos que sabem escutar os sons do mundo e entrar na dança das palavras, compartilhando saberes.
Obrigada pela alegria que suas cartas me fizeram viver.
Cecilia Pires

(Cecilia Pires é Doutora em Filosofia, escritora e poeta. Esta carta foi publicada no Facebook, como comentário ao livro "As Cartas Místicas").

26 maio 2020

Uma bela homenagem

O presidente reuniu um grupo de pessoas para homenageá-las.
Havia ali uma enfermeira, um policial, um gari, médico, socorrista, uma bombeira etc.
Cada pessoa representando um grupo destes seres que nos protegem, curam, organizam, higienizam.
Era um ato, um ritual, uma forma solene de dizer que todos respeitamos estas categorias, e que elas são essenciais nesse momento complicado da vida.
Um agradecimento coletivo, em nome de toda nação.
O presidente ali representava a nação.
Três artistas cantaram uma linda canção, emocionante. As pessoas choraram, porque a arte tem esse poder de dizer as coisas de um jeito que todo mundo entende, ou que todo mundo gostaria de dizer.
Foi lindo. Foi importante. Foi respeitoso demais para que não se fale algo sobre aquele momento.
E foi na Casa Rosada, a sede do governo da Argentina.
Deve ser muito bom ter um presidente.
Deve ser muito bom viver em um país minimamente civilizado.

15 maio 2019

As cartas místicas

"As cartas místicas" é o nome de meu novo livro.
Nestes tempos de notícias ruins, é sempre uma alegria noticiar algo bom. Oxigênio em meio à loucura. Um livro sempre é uma boa notícia.
Minhas "cartas místicas" são uma coletânea de crônicas, pequenos textos, impressões sobre a vida.
Algumas coisas estão aqui neste blog, que eu alimento bem pouco (mas tem um número impressionante de acessos).
O conteúdo do livro é uma resposta a estes tempos de ignorância e obscurantismo. Uma tentativa de responder com leveza e sensibilidade a uma época de brutalidade.
Em tempos de crise das editoras, resolvi fazer um teste com a publicação e comercialização via Internet. Está dando certo, embora muitas pessoas ainda não tenham acesso ou mantém o receio de comprar em um site. Entendo bem.
O livro está sendo comercializado na Amazon. Há duas versões: o e-book e o livro tradicional em papel. As capas são diferentes, o conteúdo é o mesmo.

O e-book é comprado e automaticamente visualizado, via aplicativo Kindle, em qualquer celular, tablet ou computador. Bem barato (7,99) e bonito de visualizar.
Já o livro em papel é encomendado e chega em torno de um mês depois na casa do leitor, da leitora. Com frete e tudo mais (ele vem dos EUA), fica em torno de 31,00. Razoável, me parece.
Há pessoas que querem comprar um exemplar do autor, sem possibilidades de negociação. À medida dos encontros que a vida proporciona, vou repassando exemplares que encomendei pensando nelas.
Bom, como as cartas são místicas, ele foi lançado em uma lua nova. E na próxima lua nova farei uma promoção de três dias, quando o e-book poderá ser baixado gratuitamente. Mais não digo. Vejam lá em www.amazon.com.br

P.S. Como vocês sabem, há uma outra obra pronta. É urgente e fala de nosso tempo. Uma adolescente que conta sua história. Uma editora avalia. Mandem boas energias para que tudo dê certo. O misticismo é real.


08 maio 2018

Teatro do Teléco



A lona toda furada, como se fosse vítima de uma chuva de estrelas quentes, denuncia a idade e os lamentos do tempo. Mas são sorridentes os seres que habitam o espaço mágico do picadeiro. Sem palco, sem jogos hipnóticos de luzes, sem propaganda, os artistas ainda iluminam o sonho de pequenos olhos. Na saída olhei o horizonte que se via dali. E eram nuvens carnosas que animavam o frio da noite.
Das sombras e das sobras do que foi um dia um bom alojamento surge o homem. Seu rosto trilhado de caminhos e habitado de olhares revela toda a grandeza de sua idade. Suas mãos são geladas e seu espírito alegre agradece-me a ajuda, o acaso formoso que nos pôs ali, frente a frente, dois homens assim tão distintos e tão próximos. Seus cabelos são levemente compridos, como se quisessem denunciar uma rebeldia que já não se necessita estravagante. Ele é um palhaço. Normal assim, como um ser humano que perdeu suas tintas deslumbrantes, poderia até fazer chorar. Conta-me das últimas desgraças, essas pequenas bravas que preferem pôr-se em nosso caminho provocando-o como adolescentes cruéis. No estado de Santa Catarina o furacão triste jogou-os para longe, sem dó algum dos cãezinhos, pombas, nem do palco carcomido de passos e passos e saltos. Fugindo dele acabaram boiando nas enchentes mais ao sul. E agora o começo de novo. E eu uma mão, mais uma.
“A grandeza está exatamente em não saber o que vem amanhã, é disso que vivemos”. As palavras do homem jogaram minha cabeça para girar no carrossel. Os pedaços sonolentos dela foram até o carro e seguiram caminho até o trem, até as ruas vazias de gente, até a casa. Crianças alegres comem agora suas maçãs açucaradas e no seu lambuzo infantil nem percebem que ainda me quedo ao lado, como um fantasma de tudo que eu não fui. Uma parte do que sou e outra do que poderia ter sido navegam nos aplausos do circo.
Teatro do Teléco. A criança que eu fui reclama seu lugar no futuro e aos prantos rasga o meu peito e pede passagem. Eu estou aqui.



Um dia de chuva



Ela pousou o olhar sobre a foto do avô e da avó, como os conheceu: velhinhos, meigos.
Olhando os olhos da avó não pôde conter o choro.
- Que saudade vó! – disse de si para si.
E, de repente, a saudade triste e melancólica deu lugar à alegria. Um som suave vindo da rua fez-lhe virar a cabeça.

A calçada estava transformada em um tapete de mil cores e do céu caía uma chuva colorida de pétalas.

05 novembro 2017

Cães e homens



Pesquisas recentes têm demonstrado a crescente disposição de boa parcela da população em preferir a companhia dos cães, em detrimento aos de sua própria espécie: os humanos.
Mas não se animem os leitores da filosofia pessimista de Schopenhauer, imaginando que sua fórmula ranzinza popularmente conhecida como “quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães” tenha, enfim, triunfado. Que nada!
As pessoas cada vez mais gostam dos cães simplesmente porque cada vez menos conhecem seus semelhantes (o Outro, este estranho). Os humanos, bípedes, racionais, passageiros do século XXI, são a antítese de homens profundos como Schopenhauer. Não se sabem nem querem saber, e ainda por cima têm raiva de quem sabe.
Com os avanços da biotecnologia e o empobrecimento da linguagem, em breve poderemos ver cachorros de óculos perguntando “por quê?” e humanos, pela rua, latindo e carimbando os postes.
Por algum tempo, talvez, o mundo torne-se mais engraçado.


“...pois, francamente, como se restabelecer da infinita dissimulação, falsidade e malícia dos homens, se não houvesse os cães, em cuja face honesta podemos mirar sem desconfiança? Nosso mundo civilizado não passa de uma imensa mascarada. Ali encontramos cavaleiros, padres, soldados, doutores, advogados, sacerdotes, filósofos, e o que não mais! Porém estes não são o que representam: são simples máscaras, sob as quais, via de regra, se situam especuladores financeiros.”

Arthur Schopenhauer (1788/1860)

27 maio 2016

Bergamotas

Há mais de trinta anos atrás, um senhor, no fim da vida, plantou esta bergamoteira.
As filhas lhe perguntaram por que ele, tão velhinho, estava fazendo isto se não teria mais tempo para colher os frutos. Ele somente disse: "Estou plantando para as pessoas que vão vir depois de mim".
Pois hoje eu venho aqui agradecer este homem, que eu não conheci, por estas frutas gostosas que a gente come à vontade todos os dias.
Vamos plantar mais árvores, preservar as que existem, porque o mundo não acaba em nós. E que no futuro outras pessoas possam sentir o gosto doce da nossa ação hoje.






P.S. A foto não é boa, mas as frutas são.

19 maio 2016

Carpinejar, o falso feio

     Foi num encontro frustrado com uma garota, numa praça remota de Paris, que o filósofo Jean-Paul Sartre descobriu que era feio. E por isto, teria que mostrar algo mais do que a mera aparência. E este "algo mais" era sua própria inteligência. Baixinho e estrábico, o jovem Sartre logo percebeu o poder sedutor das palavras.
     Hoje o escritor Fabricio Carpinejar veio fazer uma visita em nossa escola. Fabricio se diz feio, e insiste tanto nesta ideia que quase convence. Na infância sofreu com os apelidos maldosos que lhe eram dados. Mas não se calou. Desde cedo ele também soube o poder liberador que as palavras têm. Quem é excluído, quem sofre bullyng, quem apanha com palavras rudes precisa aprender a se defender. A sua defesa, a sua arma foi a inteligência. As palavras certas ditas na face suja do agressor.
     Fabricio falou com os estudantes. Nos contou suas histórias. Fez rir e talvez chorar. Entre uma graça e outra, quando sua platéia se abria em risos, ele vinha com uma fala certeira e forte. Falou sobre liberdade, sobre o medo que todos nós temos da tal responsabilidade. Não somos tímidos por medo de que algo dê errado. Não temos medo do fracasso. O nosso grande medo é que as coisas dêem certo, que aquela pessoa interessante nos diga sim. Pois o "sim" nos obrigará a agir, a sair de nossa zona de conforto.
     Eu conheci (como leitor) o Carpinejar quando ele assinava Fabricio Carpi, e trabalhava no jornal VS em São Leopoldo. Na mesma época eu escrevia crônicas para o jornal. As matérias jornalísticas dele eram impressionantes, porque iam muito além do fato. Eram textos carregados de sensibilidade poética e lirismo. Ele foi demitido porque era muito inteligente, e dizia a verdade em seus textos: algo imperdoável na imprensa brasileira. Fui seu leitor atento, e é incrível que só viemos nos conhecer pessoalmente vinte anos depois, embora tenhamos uma grande amiga em comum. O tempo tem seus caprichos.
     Fabricio hoje é mais conhecido por seu personagem midiático que, segundo ele, pretende usar o riso para confundir, mexer com as pessoas. Este personagem, esta persona risonha, divulga o poeta, o menino de olhar meigo que ele permanece sendo.
     Aos sete anos de idade, quando sua avó faleceu, ele fez seu primeiro poema. Morria a avó e nascia o poeta. Hoje tivemos um belo momento com este moleque poeta escritor, que de tão esperto quase consegue enganar dizendo-se feio.




17 maio 2016

No meio das gentes


No meio das gentes ela surge
com um sorriso que abre o caminho
por entre manequins, bandeiras e
cheiros de pipocas

ela vem sem medo, sem receio
de abrir com seus dedos dourados
a palidez cinza da tarde

ela tem um dom de surgir
aparecer de repente
e voltar a sumir
surgir, sumir, surgir..
como a natureza em ciclos

agora está diante dele
e o olhar de poeta
percebe a mulher em que
ela se tornou

os olhos negros descobrindo
o mundo
os cabelos lisos derramando-se
sobre a argola brilhante

um pouco de tudo nas mãos
nos bolsos, nas bolsas
garrafas de vinho doce
e na boca palavras meigas
que fazem valer a vida

telefones que tocam em silêncio
anunciando trabalhos
trens lotados que levam a
uma irmã com saudade

cada vez que abre o sorriso
cobre-o de pétalas
enquanto as gentes correm
em círculos, como formigas tontas
que fogem de chinelos imaginários

o poeta - que tanto maldizia a solidão -
naquele momento desejou voltar a ser só
para poder abrir uma porta no tempo
onde os dois pudessem entrar

no meio das gentes ela vai
com um passo leve que inaugura a noite
e abre atalhos por entre rostos
e pães de queijo

No outro dia
entre papéis, computadores e burburinhos
ela com “voz de criança”
pede textos, textos, textos
uma mensagem para relaxar
pede atenção

e o poeta tenta
com os braços abertos e
a música calma que ressoa em seu peito
retribuir as pétalas com
que ela o tatuou


elenilton neukamp




15 maio 2016

Noite estrelada

     Esta noite tive uma experiência incrível. Aproveitando a escuridão e a ausência de luzes artificiais, escalei dunas gigantescas para ver a imensidão do cosmos no céu estrelado.
     A pessoa que estava comigo jamais havia visto aquilo, pensou que as estrelas haviam mudado de lugar ou coisa assim. Era lindo demais o que se podia ver. As constelações tão próximas que quase se podia tocar com os dedos. Lhe disse que elas sempre estão lá, nós é que temos o olhar ofuscado pela energia elétrica.
     Passei todo o dia com as imagens deslumbrantes deste acontecimento onírico na mente.
     Talvez tenha sido influência da "Noite estrelada" de Van Gogh.
     Na última semana, passei trechos do clássico "Sonhos", de Akira Kurosawa, para duas turmas. Num dos episódios, o personagem está em uma exposição de obras de Van Gogh. Ao observar um dos quadros, ele literalmente entra na pintura e acaba por encontrar o próprio pintor dentro de suas obras. Um sonho dentro do sonho. Isto tudo embalado com a música de Chopin.
     Os sonhos me tem feito pensar.
     Outra noite tive um pesadelo. Uma conspiração havia colocado uma máfia no poder. Mas disto se fala outro dia, pois hoje sigo iluminado pelas estrelas.


04 maio 2016

O café

     O café é mais presente em minha vida pelo seu cheiro maravilhoso. A pessoa que está passando o café sempre me parece simpática, mesmo que ela nem seja de verdade. Naquele momento ela é, como alguém que estende a mão com uma flor.
     Quase nunca bebo café, mas tenho um grande prazer em saboreá-lo quando visito alguém que eu gosto. Acho que quem me ensinou isto foi a Janete, que é mãe do meu amigão Júnior.
     Ela sempre me ofereceu seu café sem comparação. Mas é claro que não era só a bebida, era um ritual. Um ritual de carinho, afeto, e um olhar generoso que sempre se abriu para mim, para as outras crianças, para os animais abandonados que ela retirava da rua (e ainda deve retirar).
     Nem sei se a Janete vai ler isto. De qualquer jeito, uma hora destas vou bater na porta dela e ficar esperando aquela hora mágica em que me oferecerá um café. Já estou até sentindo o cheiro.

30 abril 2015

Professores perigosos



O que aconteceu? Será um sequestro? Prenderam um traficante perigoso? Acertaram alguém no tiroteio? Um foragido da Justiça foi encontrado? Alguém morreu? Quantas vítimas? Os moradores do centro de Porto Alegre apavoraram-se com o que viram passar à sua frente.
O nervoso Grupamento de Operações Especiais andava na contramão com seus homens fortemente armados, sob uma chuva que começava a cair. Foram encontrar-se com o Batalhão de Choque e mais 210 policiais militares, além de seus cães adestrados e carros de combate. O clima tenso parecia preparar-se para um derramamento de sangue.
Os uniformes novos do Batalhão de Choque e seus escudos reluzentes poderiam impressionar até o mais insensível dos assassinos, assim como suas botas enormes prontas para esmagar o inimigo. Sorte dos bandidos que toda essa força e esse aparato policial não é colocado contra eles. Senão eles veriam que o mundo do crime não compensa.
Todos esses homens e essas armas foram colocados em frente ao palácio do governo para protegê-lo desse grupo perigoso dos professores, quer dizer, professoras (a maioria são mulheres). Sim, nunca se sabe o que professoras em greve estão tramando. Essas senhoras com cara de anjo podem estar carregando bombas. Vejam essas sinetas estridentes, o que garante que não sejam no fundo armas?
Mas o maior perigo desta gente vem de suas bocas. Em outros países resolveram unir-se com jovens visionários e todos sabemos no que deu. Por isto é melhor que o governo mantenha a sociedade livre desta ameaça, pagando-lhes vencimentos miseráveis e evitando que nossa mocidade receba suas más influências. Para tanto, o patrocínio de programas televisivos e o uso da força policial se tornam medidas necessárias.
Professores são extremamente perigosos porque podem perturbar a paz social. Por vezes insistem para que nossos filhos leiam livros, escrevam, pensem por conta própria. Que absurdo! Não há necessidade de ler. Não há necessidade de pensar. Só necessitamos de gente que trabalhe em silêncio para o crescimento do país. E assim poderemos servir de modelo à toda terra.

Elenilton Neukamp

Este texto foi publicado originalmente em 2005, no jornal Zero Hora (do Rio Grande do Sul), e se refere à repressão policial sobre os professores/as na época.
Retorna 10 anos depois, após a violência brutal sofrida por professores/as no Paraná.

29 março 2015

Ela vem

Com que roupa ela virá?
Estão seus cabelos elétricos rebelados pelo vento?
Traz lama em seus sapatos ou virá descalça surfando relâmpagos?
Será breve, calma, intensa?
Me quer dormindo como um bebê ou me fará acordar no meio da madrugada?
Assim pergunto eu, amante da chuva.

12 março 2015

Tanto pouco

Sobram passeatas e contradição.
Há muito ódio pra pouca razão.
Muita criação de inimigos pra pouquíssima compreensão.
Pouca democracia pra tanta tensão.
Muito blá blá blá e nenhum tesão.
Nenhum representante pra tanta representação.

07 fevereiro 2015

Um momento

Uma situação curiosa da manhã.
Eu pintando uma janela, com o aparelho celular que virou radinho.
Tocava uma velha canção de Bob Dylan.
Pois neste momento passou um rapaz na rua. Me olhou surpreso. Havia também alegria em seu olhar, que vislumbrei por alguns segundos.
Fui para ele um personagem, imagino. De luvas, pintando, Dylan no rádio. Como uma cena antiga.
Ou ele apenas virou a cabeça em minha direção. E assim foi para mim o personagem daquele momento.