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02 outubro 2021

Fica filosofia, sai retrocesso!

Segundo o que me disse um livro, as antas são mamíferos enormes e pesados. Criam um caminho no meio da mata que atravesse sua comida e chegue até alguma fonte de água. O caminho das antas é seguro. Todos os dias elas retornam por ele até a comida e a água. As onças vasculham muitos caminhos. E gostam de comer antas. O caminho das antas até pode ser seguro, mas no momento em que uma onça o encontra não há mais nenhuma saída. A onça sabe que basta apenas deitar na moita e ficar esperando. Antas são previsíveis. Onças são implacáveis. Brinco com os alunos desenhando um caminho de anta no quadro. E o riachinho mal rabiscado lá embaixo, onde ele sempre dá. A metáfora pode ser pobre, confesso. Porém, o objetivo é nobre: Ressaltar a importância das aulas de filosofia. Não cabe à Filosofia mostrar caminho nenhum a ninguém (para isto temos os condutores de almas em vários formatos e preços). Ela nos abre a possibilidade de vislumbrar outros caminhos, atalhos cheios de descobertas. Mostra um mundo onde só havia um muro, e aí estou sendo quase literal. Na sala de aula ela trabalha conceitos, que podem vir da tradição do pensamento ocidental ou da linguagem da quebrada. Lembro agora de um aluno, na Restinga, que depois de uma rica discussão durante a aula veio me comunicar uma decisão. “Sôr, sabe eu pensei...não vou mais trazer o ferro pro colégio”. Aí entendi o fato de que ele passava o tempo todo com a mochila nas costas, mesmo durante o intervalo. Andava armado por medo. Um medo que foi desmontado a partir das falas dos próprios colegas, no meio de uma aula de filosofia. Aquela discussão, daquela forma, só aconteceria naquela aula. Porto Alegre foi uma cidade pioneira quando resolveu incluir no currículo das escolas municipais a disciplina de filosofia. Uma bela oportunidade oferecida a jovens de periferia, no ensino fundamental. Afinal, por que a filosofia deveria ser apenas privilégio dos matriculados em escolas de classe média alta e ricos? As aulas de filosofia muitas vezes antecipam questões que depois se tornam assuntos de todos. Nos últimos dez anos um dos grandes temas foi a depressão, em suas mais variadas expressões. A depressão como doença, como perda, ansiedade, e até como a tristeza de não poder sair de casa à tarde porque o traficante da rua proibiu. Quando estudamos, por exemplo, a mediania de Aristóteles, é a vida que surge. Como encontrar o equilíbrio entre dois excessos? Onde está o meio termo entre o medo de sair do próprio quarto (covardia) e a sensação de que posso fazer qualquer coisa na rua (destemor)? Como chegar a uma boa alimentação, que não seja nem exagero no comer, nem passar fome para tentar ter “um corpo perfeito”? A vida acontece e é pensada enquanto se discutem grandes temas e filosofias variadas: Epicuro, Platão, Simone de Beauvoir etc. Outro dia, uma aluna de C10 (corresponde em idade a antiga sexta série), me disse que havia pensado sobre as coisas que ela comprava (e que não precisava) depois de uma aula sobre Diógenes. Durante a aula, em nenhum momento foi utilizada a palavra “comprar”, nem tampouco “consumo”. O pensar acontece como construção a partir da provocação trazida pelo filósofo. Não é um discurso do professor. Há várias formas de trabalhar esta disciplina nas escolas, e a variedade de abordagens deve estar próxima ou igual ao número de professores e professoras. Isto é uma riqueza. O que há em comum é a tradição, a própria história da filosofia e os clássicos. Tudo o mais são experiências de aprendizado. Registrei uma destas experiências de sala de aula no livro “A Caixa de Perguntas” (Libretos), que enviei recentemente para a secretária de Educação de Porto Alegre. Outro dia podemos falar sobre ele. Agora preciso retornar às antas, onças e caminhos mais urgentes. Não sabemos exatamente por que, mas a prefeitura de Porto Alegre, através de sua Secretaria de Educação (SMED), resolveu simplesmente retirar a filosofia do currículo das escolas. E não só. História e Geografia também tem seus horários reduzidos. Não sei, mas corremos aí o risco de construir um caminho de anta perfeito. Para ocupar este vazio curricular criado, ela pretende aumentar a carga horária de Português e Matemática, e inserir como um período fixo o Ensino Religioso (que é facultativo). Em troca, a prefeitura promete criar “possibilidades de um um trabalho interdisciplinar de Filosofia desde os anos iniciais...”, o que significa que não deve acontecer nada. As pessoas gostam de usar certas palavras para disfarçar o que está evidente. A única justificativa usada é “a adequação à legislação vigente”. Mas aí temos um outro problema: a prefeitura usa a legislação estadual e esquece que neste sentido somos regidos pelo Conselho Municipal de Educação. Talvez a atual administração queira deixar suas garras, suas marcas na educação da cidade. Como uma onça? Não creio. Só se for uma onça que queira agradar às antas que acreditam nas tolices dos grupos de terra plana do WhatsApp. Como aquela mãe que retirou seu filho da escola ao descobrir que ele era gay. Segundo ela, o filho teria sido ensinado a ser assim. Economia de recursos? Também não parece, pois precisariam contratar professores. Além disto, acabam de nos roubar vários direitos e anos de aposentadoria, e já haviam destruído nosso plano de carreira. Estamos há vários anos com os salários congelados. Por que então? Como diria um amigo mais velho, “só sei que nada sei”. Outro argumento seria que precisamos de mais Português e Matemática, porque estas disciplinas são cobradas nas provas nacionais de avaliação. Esta é uma visão pobre de educação, por várias razões. E mais horários poderiam ser oferecidos no contraturno como aulas de reforço, laboratórios de aprendizagem etc. De qualquer forma, é preciso dizer: as coisas são mais complexas. Não é apenas uma questão de tempo, mas também de fome, miséria, contexto. Basta observar os mapas de resultados. Quanto mais periférica a escola, piores os resultados. Retirar a filosofia não aumentará índice algum. Só irá empobrecer o repertório oferecido. É como prometer melhorar a alimentação de alguém, retirando um dos ingredientes do prato. Vivemos um momento estranho. Em tempos bem recentes, os políticos enchiam a boca falando em educação. Educação era a solução de tudo, e todos prometiam investir nela. Nas propagandas o fulano “construiu tantas escolas infantis”, “abriu tantas vagas nas escolas”, “melhorou a merenda escolar”. Imagens de crianças brincando felizes e de escolas limpinhas e reformadas ocupavam a propaganda eleitoral. As mães apareciam sorrindo e elogiando. Agora talvez teremos prefeitos babando em frente às câmeras, aos gritos: “Eu acabei com essa farra de filosofia!”, “Eu proibi aula de história..pra que estudar história?”, “Ninguém precisa de geografia”, “Pensar é coisa de fresco!”, e por aí vai. Sempre com uma turba de alucinados para aplaudir. Triste é perceber que pessoas com formação em educação se prestem a fazer o serviço sujo, tentando passar verniz sobre dejetos. Não sei a quem pensam enganar. Quando comecei meu caminho como professor, há 25 anos atrás, havia uma espécie de clichê no ar. A ideia de que ao poder, ou aos “poderosos” não interessava um povo educado. Hoje percebo o quanto fazia e faz sentido. O empobrecimento de educadores e educadoras é um projeto, assim como a tentativa clara de eliminação de tudo o que lembre reflexão. São retrocessos bem planejados. Estamos diante da tentativa de mais um, na cidade que já foi um dia um porto alegre para a cultura e a educação. Fica Filosofia, sai retrocesso! Elenilton Neukamp, professor de Filosofia da rede municipal de Porto Alegre.

11 novembro 2013

Reinventar

Hoje faltei ao trabalho, por não conseguir chegar nem perto da Restinga.
Ficamos 1 hora e meia rodando pela cidade, passando por MUITOS alagamentos e tentando um caminho de volta.
É claro que chuva forte é problema. Mas excesso de asfalto também é. De lixo que não é recolhido ou é mal recolhido.
Enquanto sobra água e sujeira, falta prefeitura.
Ao contrário de muitas pessoas amigas, não acredito que o povo da cidade mereça estes que nos governam.
As pessoas não votam mal porque são "burras" ou sei lá o quê. Elas são pressionadas pelo poder econômico, pelo excesso de propaganda.
E, no vazio da política, acabam votando "neste que tá aí mesmo"...
Acho que isto também ajuda a explicar porque experiências como a Caixa de Perguntas chamam tanto a atenção. Estamos numa carência extrema de democracia, de participação de verdade.
Este teatro dos políticos é um engodo, um faz-de-conta que já não convence nem seduz a ninguém.
Precisamos reinventar a política.

30 setembro 2013

Notícias da província de Porto Alegre

Porto Alegre cada vez mais provinciana e atrasada.
Enquanto o mundo todo pergunta "Onde está Amarildo?" 
e a polícia do Rio joga spray de pimenta em professores...
a Câmara de Vereadores dá título de cidadão emérito para quem?
Para o secretário de segurança do Rio de Janeiro!

21 agosto 2013

Não há por que se preocupar

Um idoso morre sem atendimento, 
mas só vira notícia porque a televisão estava lá.
No HPS técnico de enfermagem denuncia (desde 2008) absurdos do tipo:
médico que sai no meio do plantão,
 ou vai para a Serra e deixa o filho (sem formação) atendendo por ele.
E na Procempa 50 milhões roubados, 
e pacotes de dinheiro voando nos pátios das casas dos denunciados.Mas não há motivos para preocupação. 

O prefeito de Porto Alegre garante que as obras da Copa estão todas em dia 
e serão entregues nas datas previstas...



25 junho 2013

Bombas e governos vencidos




Observem com atenção a foto.
As bombas que estão sendo atiradas sobre os manifestantes em Porto Alegre
são vencidas. Provavelmente porque há muito que este tipo de recurso não é utilizado. Mas agora a nova direita (PT) resolveu voltar a estes métodos, já que a chantagem do "golpe" e do "fascismo" não deu certo...

Hoje ouvi um relato sobre um rapaz que foi ao Hospital de Pronto Socorro e foi diagnosticada uma moléstia pulmonar por conta das bombas de gás vencidas.
Parece piada. Mas não é.

A foto é do jornal www.sul21
.com.br



O vídeo abaixo é uma das pequenas gravações que fiz ontem à noite, na passeata. A câmera é bem simples, por isto a qualidade da imagem é baixa.
As explosões ao fundo são obra dos policiais militares, que encontraram a melhor maneira de acabar com manifestações: jogando bomba sobre as pessoas.
Parabéns senhor Tarso Genro. Sua polícia é muito eficiente. Só falta explicar porque não tem a mesma eficiência contra bandidos, saqueadores etc.E ainda vejo petistas compartilhando no Facebook o "mi mi mi" de golpe e fascismo... É pra rir?




E o golpe aconteceu mesmo

Tudo o que vocês vão ver hoje na TV sobre vandalismo e quebra-quebra
não faz parte da manifestação de ontem. E é resultado do plano do governo. Eles estimulam a violência, provocam, jogam bombas. Enquanto isto, param a circulação dos ônibus sem necessidade, condenando as pessoas que estão voltando do trabalho (com a intenção de jogá-las contra os movimentos).
O vídeo é bem claro, e inicia exatamente no momento em que a passeata gigantesca não teve mais para onde ir porque foi cercada por homens fortemente armados. Helicópteros sobrevoavam e jogavam luzes, para criar um clima maior de tensão. E explosões por todo lado. Resultado: pânico.
As pessoas diziam "não corram", mas é impossível não correr porque o efeito das bombas de gás é horrível.
Fomos cercados pela polícia de choque na esquina democrática. Não havia vandalismo nenhum. Centenas de bombas da polícia por todos os lados.
Agora também é proibido se manifestar na frente do Palácio Piratini.
Os governos anteriores de direita não chegaram a tanto.
Agora a nova direita, o PT, pega pesado.
O golpe aconteceu mesmo, como previam os petistas.
Mas não tem nada de "comunista", como apregoam uns vídeos ridículos no You Tube. É um golpe do qual eles mesmos fazem parte, bem capitalista e bem orquestrado. Patrocinado por bancos e empreiteiras, e apoiado pela grande mídia.
E hoje, mais uma vez, veremos o Tarso e a RBS fazendo o mesmo discurso.
Não se enganem. Na mídia eles falam em democracia e vão enrolando. Nas ruas é repressão pura, bem parecida com a ditadura militar...inclusive usando a própria polícia militar.



06 junho 2013

Polícia para quem precisa

Hoje ouvi na FM Cultura que há no RS 9 mil mulheres (!) dentro das chamadas medidas protetivas. Ameaçadas pelos ex-maridos, namorados etc. Hoje mais uma delas morreu. Foram várias nos últimos dias, neste estado provinciano e atrasado em que vivemos (onde o machismo é tratado como "virtude").
Estas pessoas, vítimas, vivem sob o signo do medo.
Elas precisam de proteção legal, amparo, segurança para suas vidas e a vida de seus filhos. Faltam políticas e ações efetivas que as protejam.
Enquanto elas com medo esperam proteção, o governo do estado envia a polícia para "dar segurança" às manifestações sociais.
Ontem havia uns 20 brigadianos, com seus respectivos cavalos, postados ao lado da manifestação dos funcionários municipais de Porto Alegre. E até um helicóptero apareceu para infernizar a vida das pessoas. Que perigo representamos nós para a sociedade? O prefeito de Porto Alegre precisa temer o Ministério Público, a Polícia Federal, e não professores e demais funcionários.
Gostaria de ver helicóptero atrás de bandidos, não de manifestantes.
Gostaria de ver polícia protegendo mulheres ameaçadas, e não bancos ameaçados nem grandes clubes de futebol que poderiam muito bem pagar sua segurança.
Todo este dinheiro gasto para reprimir os movimentos sociais poderia estar sendo usado para proteger a vida das pessoas. O caso das mulheres vítimas de agressão é, para mim, um exemplo gritante.
Se o Tarso Genro (leia-se PT) ainda pretende ser levado a sério como um governante de "esquerda", deveria vir à público esclarecer o que está acontecendo.
De que lado vocês estão afinal?
Desconfio da resposta, mas gostaria de ouvi-la da boca dos nossos governantes. Já está ficando nojento isto de colocar bonezinho vermelho de dia, e mandar a polícia agir na calada da noite contra as pessoas.

27 abril 2013

Adeus Araújo Vianna, eu te mando um abraçaço!


Era uma vez um auditório chamado Araújo Vianna. Eu o conheci em outros tempos, onde não era a oitava maravilha do mundo mas nele se podia entrar num domingo à tarde com sol.
Semana passada fomos lá ver o Caetano e seu show “Abraçaço”. O povão ficou pela rua vendendo churrasquinho e pipoca. Lá dentro senhoras respeitáveis tomavam espumante em pequenas taças de plástico e comentavam os cinquenta tons de livros da moda que haviam acabado de ler. Meninas tensas esperavam na fila para comprar a sua. O ar condicionado impressionava um senhor que ia entrando, enquanto seu amigo procurava ávido pelo banheiro. Cadeiras numeradas e pessoas gentis mostrando a cada um o seu devido assento.
Se eu fosse ingênuo diria que o Araújo Vianna ficou bonito e organizado. E ficou mesmo. Porém esta é uma constatação superficial. Com 40 anos e muitos pés de galinha na face já é tempo de deixar de ser ingênuo. Os 18 milhões que foram colocados na reforma me fazem pensar para muito além dos números nas poltronas, do brinco de ouro da mulher ao lado ou dos doze reais que cobram por uma tacinha ridícula de espumante. Nenhum problema com o dinheiro dos empresários do entretenimento e seus investimentos nem com a grana que se gasta fácil. Mas com o dinheiro público todos os problemas. Minha própria grana eu gostaria que fosse utilizada para o desfrute da maioria. A reforma era para custar 6 milhões, e estes 6 viraram 18! Quanto disso foi dinheiro da prefeitura?
Me perdoem a má vontade, não é nada pessoal. Mas não confio em vocês. Não boto fé nestes senhores prefeito, amigos, secretários e etc e tal. E ainda menos no cordão de puxa-sacos que cada vez aumenta mais. Não jogo bolinha de gude com vocês nem “às brinca”. E tenho a curiosa percepção que a grande maioria das pessoas pensa o mesmo.
Os novos donos do Araújo Vianna cobram preços de Primeiro Mundo, mas os assentos são de madeira e o som continua com problemas. Lembro de um show público, neste mesmo lugar em 1992. Moleque de Rua era o nome do grupo. Uma das melhores apresentações que já assisti e dancei. Sim, Porto Alegre era outra, eu sei. Eu dançava bem mais e nem éramos tão bundões como hoje. Talvez por isso o Caetano não nos disse nem boa noite. Quem disse “oi” foi o patrocinador, que agora dá um novo nome para o auditório: “Oi apresenta Auditório Araújo Vianna”. O publicitário que inventou isto merece um prêmio. Pior que ele, só aquele outro que criou a propaganda do curso Unificado, que diz assim: “Detone os concorrentes e passe para a nova fase da sua vida.” Este merece ser detonado com um prêmio especial e uma viagem para as Ilhas Fake só de ida. Onde ficam estas ilhas? Também não sei, e é melhor que ninguém saiba para não haver o risco de quererem resgatá-lo.
Para não soar tão feio sugiro um novo nome: “Espaço Oi”, “Auditório Oi” ou “Opus Auditório” (que é o nome da empresa que ganhou a concorrência). Mudem o nome, em nome da sinceridade nos negócios e de meus ouvidos sensíveis.
Araújo Vianna lembra um outro lugar, outro tempo, onde o acesso não era restrito à fatia da população que tem 150 ou 200 pratas para desembolsar assim no mais no meio de uma semana de outono. Mais 20 ou 30 de estacionamento ou táxi, ou mil horas de espera pelo ônibus que nunca chega. Nada contra as pessoas com condições para isto, e eu mesmo posso eventualmente ser uma delas (bem eventualmente, que fique claro). O detalhe é que estas mesmas pessoas podem pagar isto em locais privados. Há vários deles, para todos os gostos e bolsos. Por que um lugar assim no meio de um parque municipal?
Seguindo a sessão nostalgia, também dá uma certa saudade dos tempos em que existia a EPTC. Alguém lembra? Se esta empresa não fosse fictícia nos dias de hoje (servindo apenas para defender aumento de passagem de ônibus), quem sabe até poderia enviar UM de seus agentes. Ao menos para parar o fluxo em alguns momentos em frente ao Auditório Oi, para que as velhinhas e velhinhos possam também ter o direito de ir e vir sem virar alvo fácil correndo em meio a automóveis furiosos. Também não seria demais se alguém lembrasse aos taxistas o significado da cor vermelha nas sinaleiras. Mas tá, tudo bem, sei que já estou pedindo demais e nos dias de hoje é moda baixar a cabeça e deixar como está.
Nem achei maiores problemas naquela grade colocada em volta do antigo Araújo Viana. Não ficou esteticamente agressiva. Apenas gostaria de saber quanto será pago por aquela área toda, e se é mesmo legal vender uma área no meio da Redenção. Claro, irão me dizer que não há venda alguma, e que se trata apenas de um contratinho de 10 ou 20 anos. Tudo bem. 20 anos não é quase nada mesmo. Nem sei por que afinal fico insistindo nisto. Minha mente anda confusa pelo medo, e a culpa é destes estudantes que aterrorizam a cidade com seus cantos e seus cartazes agressivos.
Me disseram que ali, bem ali no Oi Apresenta Auditório... também houve um ataque de uma horda de anarquistas mascarados, que teriam atacado o símbolo sagrado da Cloaca Cola e ateado fogo a uma pobre lata plástica de refrigerante, que até então não havia feito nada senão decorar a nova cara do lugar. Os mesmos meliantes teriam também esvaziado o mascote da Copa do Mundo, maculando assim a imagem de Porto Alegre perante os bons homens da Fifa. Caetano cantou que “a bossa nova é foda”. Que nada. Foda é a Fifa, mas num sentido inverso ao da música.
Mas voltemos ao show de Caetano. 70 anos de idade e o cara vem fazendo rock and roll. Gostei. Não sei se o público que estava lá aprovou muito os solos de guitarra e a batida crua de certas composições. Mesmo assim quem não aplaudia chacoalhava as joias. Percebi que na fila em frente houve cochicho e desconforto quando ele cantou a bela canção sobre Carlos Marighella (“Um comunista”), sob uma luz vermelha e repetindo que os comunistas guardavam sonhos.

“O baiano morreu, eu estava no exílio.
E mandei um recado
que eu é que tinha morrido e ele que estava vivo...”


No banheiro, alguém ouviu duas frequentadoras do novo auditório, meio bêbadas, que se perguntavam se “os comunistas” eram um jogo ou um novo aplicativo. Sinal dos tempos.
Por estas e por muitas outras é que digo:
Adeus Araújo Vianna. Eu te mando um abraçaço!



19 março 2013

Uma singela sugestão


Minha singela sugestão:
Já que a única preocupação é com esta maldita Copa do Mundo, sugiro que os atuais governantes de Porto Alegre derrubem tudo que for necessário para fazê-la: árvores, vergonhas, avenidas, escrúpulos e tudo mais. Saqueiem à vontade.
Mas assim que acabar a Copa, no minuto seguinte, abandonem seus cargos e a cidade.
Levem junto esta multidão de "cargos de confiança", este bando de medíocres e cúmplices que não fazem muito mais do que engordar com os gordos salários.
Sobre o lixo que vocês deixarem poderemos então reconstruir outra cidade.



Não sentiremos saudade.






(Imagem: http://www.whoisnemos.com)

06 outubro 2012

Defesa pública da alegria

Vídeo sobre o movimento que aconteceu em Porto Alegre no dia 04 de outubro.

"A cidade precisa de espaços de afeto". Esta é a síntese mais precisa para nossas necessidades para lá de importantes. "A gente não quer só comida", lembram da letra dos Titãs?
Quando os espaços públicos começam a se tornar espaços de propaganda para grandes corporações, alguma coisa está errada...algumas coisas estão muito erradas.

04 agosto 2012

Eu tenho um vizinho chamado Jesus


Eu tenho um vizinho chamado Jesus.
Todo dia Jesus sai a passear com seus dois cães, um deles velho e trôpego como ele.
Na verdade, Jesus nem é tão velho. A aparência de velhinho ele adquiriu com as agruras da vida e do abandono.
Somos amigos, eu e Jesus. Ele me chama de professor.
Jesus mora na vila aqui ao lado. Nos encontramos sempre na rua, com nossos cachorros e nossas conversas. Numa delas ele me pediu um livro de geografia, para decorar de novo o nome das capitais.
Mas Jesus tem sofrido muito com as dores.
Esperou uns 8 meses por uma consulta. Uma hérnia maldita que queria rebentar.
Depois mais dois anos pela cirurgia. A hérnia estourou na virilha, horrível.
Passaram-se dois anos e meio e Jesus passou pela cirurgia. Voltou tão “esgualepado” quanto seu cão mais velho. Por algum motivo que não lhe foi revelado houve um problema durante o procedimento cirúrgico e lhe retiraram um dos testículos. E é isso o que tem mais lhe incomodado.
Outro dia Jesus leu na capa de um jornal popular que “a saúde está bem obrigado”.
Depois de mais de dois anos e meio para conseguir consultar e fazer uma cirurgia (que era urgente), Jesus achou estranho. Veio falar comigo, já que eu sou “o professor”.
E ficamos eu e Jesus tentando entender onde é que está essa saúde boa.
Em Porto Alegre é que não é...

24 maio 2012

Beijos e bicicletas

É um proteijo ou um beijotesto? Uma mistura de beijos com reivindicação. Um protesto poético, como há muito os protestos esqueceram de ser... Hoje, em frente à prefeitura de Porto Alegre, os casais se beijaram para pedir mais ciclovias. E recriaram aquela foto famosa do fotógrafo francês. Pelo jeito que as coisas andam e pela mediocridade destes que governam a cidade, teremos que fazer ainda muitos e muitos outros destes atos inspirados. Beijemos então. E que os nossos beijos parem as cidades e escandalizem aqueles que pensam as ruas apenas para os carros.
(Foto: Fernando Gomes/Agência RBS)

27 maio 2011

Com os filhos na greve


Dizem que foi no Egito, por volta de 2100 a.C.. A primeira vez que os trabalhadores se organizaram e resolveram parar de trabalhar. Eles queriam receber mais comida pelo seu trabalho. Estavam construindo um templo, e a quantidade de pães que ganhavam era insuficiente para alimentar a eles e suas famílias. Teriam sido as mulheres que os convenceram a parar. Sempre elas.

O lugar onde as pessoas iam procurar trabalho, na França do século dezenove, era chamado de Place de Grève. Então o termo "greve" já na origem lembra pessoas reunidas nas praças.

Pessoas reunidas sempre são uma possibilidade. Possibilidade de quê? Ah, isso é o que precisamos inventar sempre.
De qualquer forma, quem está nos palácios sempre teme as pessoas reunidas nas praças. Pensando nisto inventaram a polícia.

No caso da greve que estamos fazendo há muito o que dizer.
Me tocou o minuto de silêncio da última assembléia, em homenagem ao líder negro que morreu e aos dois líderes assassinados esta semana no Pará (no mesmo dia da votação do novo e famigerado Código Florestal).
O silêncio daquele minuto foi mais impactante que os discursos inflamados.
E a frase de Marcelo Pires na parede da Câmara de Vereadores (onde fomos entrando): "Sempre que alguém lê um poema é domingo".

Mas a cena mais bela foi registrada pelo fotógrafo Jackson Zanin, para o Correio do Povo.
Mostra a professora de espanhol Maria Luíza e seus dois filhos, Gabriela e Guilherme. Ela pegou a lotação com eles e foi para a frente da prefeitura pressionar o prefeito.
Ela mais eu mais um monte de gente.
E quem não estava lá, perdeu de vê-los.

26 maio 2011

Os buracos de Porto Alegre

Hoje, às oito e meia da manhã, uma professora tentou desviar de um buraco gigantesco e seu carro capotou. É mais um buraco das ruas de Porto Alegre. Rua Fernandes Vieira.
Os moradores da redondeza já haviam pedido o conserto. Em vão.

A secretaria de obras disse que a responsabilidade era do departamento de águas. O departamento de águas afirmou que, não havendo água no buraco, o negócio não era com eles. As empresas terceirizadas nada disseram, porque terceirizaram a assessoria de comunicação.
Na disputa entre os que não queriam fazer o serviço, saiu ganhando o buraco - que aumentava a cada dia.
Depois da capotagem o buraco foi rapidamente fechado, o que gerou protestos das centenas de pequenos buracos em volta (que agora começam a trancar o trânsito).

Os buracos em Porto Alegre estão se organizando em um grande movimento. A idéia é engolir a cidade antes que as licitações das obras da Copa o faça. Inclusive há alguns comentaristas afirmando na imprensa que o movimento dos buracos já ameaça até a greve dos municipários. Os jornalistas são unânimes contra a greve, e é claro que isto não tem relação alguma com o fato de a prefeitura estar financiando uma campanha milionária de propaganda nos veículos onde eles trabalham.

Alguns engraçadinhos se apressaram em dizer que, se também caírem no buraco o secretário César Busatto e o prefeito Fortunatti, estão de acordo com o movimento dos buracos. Mas isto só pode ser coisa de extremistas de esquerda, sempre dispostos a manchar a honra ilibada destes ilustríssimos senhores.

Nas universidades surgiu a Teoria Geral dos Buracos. Depois de análises profundas sobre a história recente de Porto Alegre, passou-se a falar em "buraco do mundo". Estes estudos apontam para uma capital cada vez mais provinciana, repleta de buracos éticos e estéticos.

Há buracos enormes no pátio das escolas. Buracos extravagantes no teto do HPS. E nos alojamentos precários dos funcionários da limpeza urbana. Nos bolsos rotos dos servidores que ganham salário mínimo. Buracos obscuros na folha de pagamento da prefeitura, que fazem escorrer valores e prêmios para os mais bem pagos.

Um outro movimento já começa a se organizar, tentando questionar a hegemonia dos buracos em Porto Alegre.
Seu slogan é o seguinte:
"Ou você protesta contra os buracos, ou um dia será engolido por um deles".



Elenilton Neukamp

26 agosto 2010

Adeus Porto Alegre

Porto Alegre agora é Porto Cinza. Porto fumaça. Porto alergias, rinites, tonturas. Adeus qualidade de vida, árvores. Adeus, adeus...





O temível futuro chegou. Queimadas na Amazônia cobrem o céu de Porto Alegre de fumaça. Dia 9 de agosto caiu chuva ácida na cidade.





Situação é crítica. Precisamos, acima de tudo ,consumir menos. Produzir menos lixo. Diminuir este ritmo tolo de "crescimento" para a morte.

14 maio 2010

Santa ingenuidade

A Celulose Riograndense doou hoje milhares de cadernos para as escolas de Porto Alegre. Teve até o prefeito lá. E danças em uma escola. Aparentemente isto é algo muito bom.

O que parece boa ação, no fundo é somente propaganda. Esta empresa é uma das maiores poluidoras do rio Guaíba. O nome do lixo tóxico (resultado da produção de papel): dioxinas.
Então os maiores poluidores entram nas escolas, com o apoio dos governos, fazendo ares de bons moços. E falam em preservação ambiental!
Triste ver como os professores ingenuamente entram nessas. E armam até palquinhos nas escolas para empresários e políticos "espertos". E ficam os alunos fazendo papel de figurantes, dançando em frente a tipos como o Fortunati.
Minha escola (a maior de Porto Alegre) está um abandono só. A prefeitura só investe em duas ou três, que irão aparecer nos comerciais de TV. Nas demais, faltam professores, estrutura, atendimentos na rede de saúde.