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21 abril 2014

A pedidos

Me pedem para escrever sobre Gabriel García Marquez.
Um homem velho que morre de sua velhice não deveria ser chorado.
E se ele criou, inventou, viajou, fez loucuras e até apoiou revolução,
o que se haveria de esperar mais? Que ele apontasse com toda vontade seu dedo médio em direção às câmeras? Pois sim, ele também fez isto.
Sobre García Marquez, vou repetir o que todo mundo já disse.
"Cem anos de solidão" foi uma descoberta, uma viagem, um mergulho nas lágrimas de uma personagem que fizeram inundar toda uma cidade. E aquelas borboletas amarelas, um trem lotado de cadáveres, uma chuva que nunca acabava...
Outro livro que li duas vezes foi "Do amor e outros demônios", que começa com a abertura de um caixão e a surpreendente descoberta de um cabelo que não parou de crescer. Uma paixão proibida.
Um grande que morre abre uma clareira na mata, um espaço para novas criações da natureza.
Se ele é um velho senhor, por que haveríamos de chorá-lo?
Guardemos nossas lágrimas para as crianças que desaparecem na loucura das cidades, na guerra diária de todos contra todos onde o vencedor é ninguém.
E aí de quem me vier de novo com isto de "escreve alguma coisa sobre isso.". Vou mandar tomar...tomar um ar, um livro. Que nada, não "mando" coisa alguma.
Mas posso sugerir a releitura de "Cem anos de solidão". Ah,ainda não leu? Então o que tá esperando?

15 abril 2014

Cães renitentes

Um cão que fica oito dias na porta do hospital esperando seu amigo, um morador de rua.
Um pai, médico, que arquiteta a morte do próprio filho.
Dois fatos distantes que nos emocionam de jeitos diferentes.
Não é difícil entender porque há tantas pessoas que perdem totalmente a crença nos humanos.
O bicho é esquisito mesmo, o bicho gente. Mas vale insistirmos, sempre. 
Os cães, mesmo com tudo que já fizemos com eles, nunca desistiram de nós.


12 abril 2014

Outra pergunta de professora

"Desafio vivo em sala de aula? Isto é filosofia ou é amor à sala de aula?"

É filosofia e é amor.
Desafio sempre.
Amor quase sempre.
Filosofia muitas vezes.

Pergunta de professora


"Sabe Elenilton, coloquei uma caixinha [de perguntas] na minha casa. Tenho medo de abrir agora! O que faço?"
O passo mais difícil você já deu, que é o primeiro. E que coragem a sua!
Só me vem uma resposta: Abre! Há muitos mundos a descobrir ali dentro...


(A propósito: a caixa de perguntas em casa também é sugestão da Marcia Tiburi na apresentação do livro)

07 abril 2014

Gênesis, Sebastião Salgado

E fomos olhar este outro mundo, este nosso mundo intocado. Este mundo a nos transformar sem querer ser transformado.
Sob o olhar sensível do grande Sebastião Salgado nos deixamos levar.
Eis aí um pouco pouquinho do que vimos.




06 abril 2014

O sono dos justos

P- “Quantas pessoas o senhor matou?” R- “Tantas quantas foram necessárias.” P- “Arrepende-se de alguma morte?” R- “Não.” P -“Quantas pessoas o senhor torturou?” R  - “Difícil dizer, mas foram muitos.”
Então, o coronel reformado do Exército Brasileiro Paulo Malhães, levantou-se e foi embora, livre e em paz. Assim como Ustra, ele dorme com a consciência tranquila. Contou à Comissão da Verdade como os presos da “Casa da Morte” em Petrópolis, no RJ, de onde só Inês Etienne Romeu saiu com vida, foram torturados e mortos. Explicou em detalhes, como os militares se livravam dos corpos. Os dentes dos cadáveres eram quebrados e seus dedos cortados; os corpos tinham os abdomens abertos, eram ensacados e lançados ao rio. Ou ao mar, como fizeram com a ossada do deputado Rubens Paiva, assassinado no Doi-Codi do RJ. Paulo Malhães disse muito mais. Afirmou, por exemplo, que a Casa de Petrópolis era chefiada pelo cel. Cyro Guedes Etchegoyen e que recebeu a ordem de se livrar dos restos mortais de Rubens Paiva do cel. Coelho Neto, subchefe do Centro de Informações do Exército (CIE).

Alguém poderia imaginar que figuras como esse coronel sejam a expressão do mal ou mesmo “monstros”. É uma pena que não seja exatamente isto. Se o mal a ser superado pudesse ser reduzido a bandidos deste naipe, viveríamos em uma sociedade especialmente generosa e decente. Afinal, sujeitos assim, retardados morais, ignorantes e sádicos, fazem parte da agência humana e podem ser encontrados em todas as sociedades, mesmo as mais democráticas e civilizadas. O tema a merecer análise e que deveria mesmo preocupar é que tantos, ainda hoje, justifiquem a tortura, relativizem crimes contra a humanidade e se alinhem ao discurso dos golpistas.


A questão, assim, não diz respeito à psicopatia, mas à normalidade e ao que nela se pode intuir como expressão de abismal incapacidade de pensamento. Até as pedras sabem que os militantes da esquerda que enfrentaram a ditadura foram responsabilizados por seus atos. Sem contar com as execuções e com a tortura – política de Estado na época e não “excesso”, como costuma repetir a novilíngua, os ativistas da esquerda – inclusive muitos que se opunham à luta armada - foram acusados, julgados e mandados à prisão. No mais, a esquerda armada acreditava que a divulgação dos seus feitos – assaltos para o financiamento da guerrilha, sequestros de diplomatas para a soltura de presos e mesmo o assassinato de “inimigos”, como na covarde ação que matou o capitão americano Charles Rodney Chandler – estimulariam a população à luta. 

 O negacionismo, entretanto, sempre foi a política oficial da ditadura, para quem não houve torturas, nem estupros de presas, nem desaparecimento de cadáveres. A reação seria simplesmente ridícula não estivessem os torturadores zombando de suas vítimas. No que são amparados pelos colaboracionistas. Pessoas de bem, como sabemos. “Terrivelmente normais”, como diria Hannah Arendt. Graças a elas, à jurisprudência da Casa Grande e ao oportunismo político, pessoas da estatura de Malhães e Ustra seguirão dormindo o sono dos justos.

Texto de Marcos Rolim,
publicado no jornal Zero Hora em 6 de abril de 2014.

31 março 2014

A coragem de Pepe


Nesta noite em que descomemoramos o golpe militar no Brasil,
paro para ouvir um homem sábio.
Ele lutou contra a ditadura uruguaia, foi preso.
Hoje é o presidente mais ousado que há. Do Uruguai e de qualquer parte.
Ousadia que faz falta. Inteligência, eu diria.
Sempre é bom ouvir pessoas inteligentes, para além de qualquer classificação.
E ainda há os seus cães simpáticos que vêm cumprimentar graciosamente os jornalistas...

"E eu morreria de vergonha se não tivesse a coragem de enfrentar o mundo..."