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29 março 2015

Ela vem

Com que roupa ela virá?
Estão seus cabelos elétricos rebelados pelo vento?
Traz lama em seus sapatos ou virá descalça surfando relâmpagos?
Será breve, calma, intensa?
Me quer dormindo como um bebê ou me fará acordar no meio da madrugada?
Assim pergunto eu, amante da chuva.

12 março 2015

Tanto pouco

Sobram passeatas e contradição.
Há muito ódio pra pouca razão.
Muita criação de inimigos pra pouquíssima compreensão.
Pouca democracia pra tanta tensão.
Muito blá blá blá e nenhum tesão.
Nenhum representante pra tanta representação.

07 fevereiro 2015

Um momento

Uma situação curiosa da manhã.
Eu pintando uma janela, com o aparelho celular que virou radinho.
Tocava uma velha canção de Bob Dylan.
Pois neste momento passou um rapaz na rua. Me olhou surpreso. Havia também alegria em seu olhar, que vislumbrei por alguns segundos.
Fui para ele um personagem, imagino. De luvas, pintando, Dylan no rádio. Como uma cena antiga.
Ou ele apenas virou a cabeça em minha direção. E assim foi para mim o personagem daquele momento.

17 janeiro 2015

Uma lição

Um dia, em minha infância, minha mãe me entregou nas mãos uma de minhas cuecas.
E disse assim: "Nenhuma mulher vai lavar tuas cuecas".
Me ensinou a lavá-las.
Foi um dos maiores ensinamentos que recebi.
Me tornou mais ciente, mais autônomo, cuidadoso.
E abriu meu caminho para uma boa relação com as mulheres.

03 janeiro 2015

Improviso



Hoje estive deliciosamente perdido 
pelo meu bairro.
Numa área que não conheço,
procurando por alguém que nunca vi, 
sem saber se o motor do carro iria fundir de repente.
Não achei a rua, a pessoa, 
a técnica certa.
Mesmo assim 
me encontrou a Lua, 
sem vergonha nenhuma de aparecer.

Sou perito na arte de me perder. 
Feliz no improviso,
desastrado na precisão.

29 novembro 2014

apesar

Apesar da situação
dos loucos do trânsito
do governo e da oposição

apesar do rancor
do bronco na reunião
do cateto da hipotenusa
dos juros e da inflação

apesar de tudos
e de nadas
do roubo e do rombo
da Copa, das cópulas
e da mentira da eleição

apesar do pesar
de quem insistia
a árvore derrubar
duas bergamotas nasceram

de algum lugar surgiu
um vagalume
os tomateiros, a rúcula, os hortelãs
e todas as listras negras
e brancas de um gambá

as cachorras latiram
os homens gritaram
os sapos-boi fizeram samba

e uma goteira insistente
perdida em algum lugar
lembra de tudo sempre assim
inacabado


19 novembro 2014

Relatos selvagens

O cinema argentino é tudo isto mesmo que dizem? É. E muito mais ainda.
Há muito tempo que eu não assistia um filme tão empolgante quanto "Relatos Selvagens", do argentino Damián Szifron.
A história é dividida em vários episódios, que não se conectam entre si senão por tratar do humano, demasiadamente humano. Os relatos são mesmo selvagens porque tratam de pessoas "comuns" colocados em situações de extrema emoção, no limiar da loucura.
Qual é a fronteira entre o pacato cidadão e o lunático? Qual o limite entre o bom senso e a perda total da lucidez? O enredo leva estas questões ao extremo e às vezes ao absurdo.
Está claro que não irei contar o filme, para não estragar a surpresa. Mas posso dizer que a cena inicial é perfeita, assim como o último episódio.
Minha mulher saiu da sala de cinema chorando, e não sabia se chorava de tristeza ou de alegria. Veja bem então que o filme mexe com as emoções. Em alguns momentos pensei se havia feito uma boa escolha em ir assisti-lo.
Eu, que não gosto de hiperrealismo em cinema (ou sei lá que nome se dê para isto), abriria mão de algumas cenas mais cruentas. Mas o filme não é meu, então deixo de ser chato. As histórias nos pegam, nos convencem, por seu humor mórbido ou pela escancaração do que há de mais hipócrita nas relações humanas.
A cena inicial se passa num avião, onde um homem de meia idade resolve iniciar um papo com uma mulher bonita que senta no corredor ao lado. Logo perceberão que têm um conhecido em comum, que ele simplesmente escracha. Uma senhora sentada na poltrona de trás escuta a conversa, e entra nela porque afirma também conhecer aquele a quem eles se referem. De repente, a surpresa: todos passageiros do avião conhecem aquela pessoa. E o que vai acontecer? Ah...só vendo.
O último episódio é um casamento super ultra mega alegre. Uma crítica mordaz à sociedade do espetáculo, ao nosso tempo, às convenções cheias de brilho e barulho mas vazias de laços efetivos. O casamento-show é todo programado para ser um sucesso. Entretanto, a noiva descobre durante a festa que está sendo traída. Se você pensa que já assistiu muitos filmes sobre mulheres traídas, então não viu muito. Sempre há muito mais a ser dito, sobretudo em se tratando do criativo cinema argentino.
Uma aula de atuação também. Todos convencem. A noiva é impagável, assim como a maquiagem perfeita.
Estaríamos todos/as nós a um passo de perder totalmente o controle? Não conseguimos agir com serenidade diante de situações que nos provocam? O que você acha?



Vá assistir o filme e depois me diga.