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15 abril 2014

Cães renitentes

Um cão que fica oito dias na porta do hospital esperando seu amigo, um morador de rua.
Um pai, médico, que arquiteta a morte do próprio filho.
Dois fatos distantes que nos emocionam de jeitos diferentes.
Não é difícil entender porque há tantas pessoas que perdem totalmente a crença nos humanos.
O bicho é esquisito mesmo, o bicho gente. Mas vale insistirmos, sempre. 
Os cães, mesmo com tudo que já fizemos com eles, nunca desistiram de nós.


12 abril 2014

Outra pergunta de professora

"Desafio vivo em sala de aula? Isto é filosofia ou é amor à sala de aula?"

É filosofia e é amor.
Desafio sempre.
Amor quase sempre.
Filosofia muitas vezes.

Pergunta de professora


"Sabe Elenilton, coloquei uma caixinha [de perguntas] na minha casa. Tenho medo de abrir agora! O que faço?"
O passo mais difícil você já deu, que é o primeiro. E que coragem a sua!
Só me vem uma resposta: Abre! Há muitos mundos a descobrir ali dentro...


(A propósito: a caixa de perguntas em casa também é sugestão da Marcia Tiburi na apresentação do livro)

07 abril 2014

Gênesis, Sebastião Salgado

E fomos olhar este outro mundo, este nosso mundo intocado. Este mundo a nos transformar sem querer ser transformado.
Sob o olhar sensível do grande Sebastião Salgado nos deixamos levar.
Eis aí um pouco pouquinho do que vimos.




06 abril 2014

O sono dos justos

P- “Quantas pessoas o senhor matou?” R- “Tantas quantas foram necessárias.” P- “Arrepende-se de alguma morte?” R- “Não.” P -“Quantas pessoas o senhor torturou?” R  - “Difícil dizer, mas foram muitos.”
Então, o coronel reformado do Exército Brasileiro Paulo Malhães, levantou-se e foi embora, livre e em paz. Assim como Ustra, ele dorme com a consciência tranquila. Contou à Comissão da Verdade como os presos da “Casa da Morte” em Petrópolis, no RJ, de onde só Inês Etienne Romeu saiu com vida, foram torturados e mortos. Explicou em detalhes, como os militares se livravam dos corpos. Os dentes dos cadáveres eram quebrados e seus dedos cortados; os corpos tinham os abdomens abertos, eram ensacados e lançados ao rio. Ou ao mar, como fizeram com a ossada do deputado Rubens Paiva, assassinado no Doi-Codi do RJ. Paulo Malhães disse muito mais. Afirmou, por exemplo, que a Casa de Petrópolis era chefiada pelo cel. Cyro Guedes Etchegoyen e que recebeu a ordem de se livrar dos restos mortais de Rubens Paiva do cel. Coelho Neto, subchefe do Centro de Informações do Exército (CIE).

Alguém poderia imaginar que figuras como esse coronel sejam a expressão do mal ou mesmo “monstros”. É uma pena que não seja exatamente isto. Se o mal a ser superado pudesse ser reduzido a bandidos deste naipe, viveríamos em uma sociedade especialmente generosa e decente. Afinal, sujeitos assim, retardados morais, ignorantes e sádicos, fazem parte da agência humana e podem ser encontrados em todas as sociedades, mesmo as mais democráticas e civilizadas. O tema a merecer análise e que deveria mesmo preocupar é que tantos, ainda hoje, justifiquem a tortura, relativizem crimes contra a humanidade e se alinhem ao discurso dos golpistas.


A questão, assim, não diz respeito à psicopatia, mas à normalidade e ao que nela se pode intuir como expressão de abismal incapacidade de pensamento. Até as pedras sabem que os militantes da esquerda que enfrentaram a ditadura foram responsabilizados por seus atos. Sem contar com as execuções e com a tortura – política de Estado na época e não “excesso”, como costuma repetir a novilíngua, os ativistas da esquerda – inclusive muitos que se opunham à luta armada - foram acusados, julgados e mandados à prisão. No mais, a esquerda armada acreditava que a divulgação dos seus feitos – assaltos para o financiamento da guerrilha, sequestros de diplomatas para a soltura de presos e mesmo o assassinato de “inimigos”, como na covarde ação que matou o capitão americano Charles Rodney Chandler – estimulariam a população à luta. 

 O negacionismo, entretanto, sempre foi a política oficial da ditadura, para quem não houve torturas, nem estupros de presas, nem desaparecimento de cadáveres. A reação seria simplesmente ridícula não estivessem os torturadores zombando de suas vítimas. No que são amparados pelos colaboracionistas. Pessoas de bem, como sabemos. “Terrivelmente normais”, como diria Hannah Arendt. Graças a elas, à jurisprudência da Casa Grande e ao oportunismo político, pessoas da estatura de Malhães e Ustra seguirão dormindo o sono dos justos.

Texto de Marcos Rolim,
publicado no jornal Zero Hora em 6 de abril de 2014.

31 março 2014

A coragem de Pepe


Nesta noite em que descomemoramos o golpe militar no Brasil,
paro para ouvir um homem sábio.
Ele lutou contra a ditadura uruguaia, foi preso.
Hoje é o presidente mais ousado que há. Do Uruguai e de qualquer parte.
Ousadia que faz falta. Inteligência, eu diria.
Sempre é bom ouvir pessoas inteligentes, para além de qualquer classificação.
E ainda há os seus cães simpáticos que vêm cumprimentar graciosamente os jornalistas...

"E eu morreria de vergonha se não tivesse a coragem de enfrentar o mundo..."

25 março 2014

Uma caixinha democrática

 Desde junho de 2013 a democracia no Brasil tem sido colocada em discussão. Milhares de pessoas em todo país saíram às ruas com suas reivindicações. Há uma percepção geral de que as pessoas não se sentem mais representadas por aqueles que estão nos cargos de decisão. Todos querem dizer sua palavra.
A escola não poderia estar alheia a tudo isto. Há muito tempo que esta crise, esta desconfiança, se lança sobre as instituições de ensino. Se tornaram comuns as notícias tratando de agressões, violências e intolerância dentro de escolas. É comum se ouvir que os professores “perderam a autoridade”.
O livro “A Caixa de Perguntas: Desafio vivo em sala de aula” (Ed. Libretos) não tem a pretensão de analisar este contexto, mas surge num momento privilegiado e acaba por pensá-lo na prática. Trata-se de uma experiência de sala de aula que mexe diretamente com a questão democrática, com o direito à palavra e com a importância do diálogo para a sociedade.
A sala de aula é um microcosmo que espelha muito do que acontece no país. Nela desaguam as tensões sociais todas. E por que não nascer nela a bela subversão das palavras? Com a prática da “caixinha” todas as vozes têm espaço, mesmo aquelas proferidas por quem não se sente à vontade para dizer-se em público. O anonimato das perguntas traz muitos temas de ordem pessoal, que na leitura para o grande grupo se descobrem de interesse de todos e todas.
Uma das grandes conquistas do livro foi ele ter chego até os chamados “neoleitores”. Todos os dias ouço relatos de pessoas que me dizem “é a primeira vez que leio um livro até o fim”, ou “foi a primeira vez que li um livro”. Este, para mim, é o maior sucesso do livro. Por outro lado, não deixa de causar uma certa estranheza o espanto com a caixa de perguntas, tratada como criação do autor. O diálogo é tão antigo quanto a humanidade, e a abertura para ele nas salas de aula deveria ser lugar-comum e não algo inusitado e “original”.
A emoção dos/as estudantes ao ler o livro também é algo tocante. Há uma grande identificação com as temáticas trazidas, sobretudo porque é a própria voz deles e delas que está posta. Esta provavelmente deva ser uma das poucas obras que traz a fala de adolescentes da periferia de forma explícita. Embora existam muitos estudos sobre temas relacionados a este grupo, não é comum que sua realidade e pontos de vista apareçam de forma tão crua.
Famílias inteiras leem o livro, o que não deixa de ser espantoso. Os filhos se reconhecem nas perguntas, às vezes até nas suas próprias (no caso de meus alunos/as). E pais e mães têm na leitura um acesso privilegiado à mentalidade dos adolescentes, suas ansiedades, apelos e linguagens. O diálogo, que começa na sala de aula, chega até em casa. Nada mais democrático.


Elenilton Neukamp



Foto: Clô Barcellos