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30 abril 2015

Professores perigosos



O que aconteceu? Será um sequestro? Prenderam um traficante perigoso? Acertaram alguém no tiroteio? Um foragido da Justiça foi encontrado? Alguém morreu? Quantas vítimas? Os moradores do centro de Porto Alegre apavoraram-se com o que viram passar à sua frente.
O nervoso Grupamento de Operações Especiais andava na contramão com seus homens fortemente armados, sob uma chuva que começava a cair. Foram encontrar-se com o Batalhão de Choque e mais 210 policiais militares, além de seus cães adestrados e carros de combate. O clima tenso parecia preparar-se para um derramamento de sangue.
Os uniformes novos do Batalhão de Choque e seus escudos reluzentes poderiam impressionar até o mais insensível dos assassinos, assim como suas botas enormes prontas para esmagar o inimigo. Sorte dos bandidos que toda essa força e esse aparato policial não é colocado contra eles. Senão eles veriam que o mundo do crime não compensa.
Todos esses homens e essas armas foram colocados em frente ao palácio do governo para protegê-lo desse grupo perigoso dos professores, quer dizer, professoras (a maioria são mulheres). Sim, nunca se sabe o que professoras em greve estão tramando. Essas senhoras com cara de anjo podem estar carregando bombas. Vejam essas sinetas estridentes, o que garante que não sejam no fundo armas?
Mas o maior perigo desta gente vem de suas bocas. Em outros países resolveram unir-se com jovens visionários e todos sabemos no que deu. Por isto é melhor que o governo mantenha a sociedade livre desta ameaça, pagando-lhes vencimentos miseráveis e evitando que nossa mocidade receba suas más influências. Para tanto, o patrocínio de programas televisivos e o uso da força policial se tornam medidas necessárias.
Professores são extremamente perigosos porque podem perturbar a paz social. Por vezes insistem para que nossos filhos leiam livros, escrevam, pensem por conta própria. Que absurdo! Não há necessidade de ler. Não há necessidade de pensar. Só necessitamos de gente que trabalhe em silêncio para o crescimento do país. E assim poderemos servir de modelo à toda terra.

Elenilton Neukamp

Este texto foi publicado originalmente em 2005, no jornal Zero Hora (do Rio Grande do Sul), e se refere à repressão policial sobre os professores/as na época.
Retorna 10 anos depois, após a violência brutal sofrida por professores/as no Paraná.

29 março 2015

Ela vem

Com que roupa ela virá?
Estão seus cabelos elétricos rebelados pelo vento?
Traz lama em seus sapatos ou virá descalça surfando relâmpagos?
Será breve, calma, intensa?
Me quer dormindo como um bebê ou me fará acordar no meio da madrugada?
Assim pergunto eu, amante da chuva.

12 março 2015

Tanto pouco

Sobram passeatas e contradição.
Há muito ódio pra pouca razão.
Muita criação de inimigos pra pouquíssima compreensão.
Pouca democracia pra tanta tensão.
Muito blá blá blá e nenhum tesão.
Nenhum representante pra tanta representação.

07 fevereiro 2015

Um momento

Uma situação curiosa da manhã.
Eu pintando uma janela, com o aparelho celular que virou radinho.
Tocava uma velha canção de Bob Dylan.
Pois neste momento passou um rapaz na rua. Me olhou surpreso. Havia também alegria em seu olhar, que vislumbrei por alguns segundos.
Fui para ele um personagem, imagino. De luvas, pintando, Dylan no rádio. Como uma cena antiga.
Ou ele apenas virou a cabeça em minha direção. E assim foi para mim o personagem daquele momento.

17 janeiro 2015

Uma lição

Um dia, em minha infância, minha mãe me entregou nas mãos uma de minhas cuecas.
E disse assim: "Nenhuma mulher vai lavar tuas cuecas".
Me ensinou a lavá-las.
Foi um dos maiores ensinamentos que recebi.
Me tornou mais ciente, mais autônomo, cuidadoso.
E abriu meu caminho para uma boa relação com as mulheres.

03 janeiro 2015

Improviso



Hoje estive deliciosamente perdido 
pelo meu bairro.
Numa área que não conheço,
procurando por alguém que nunca vi, 
sem saber se o motor do carro iria fundir de repente.
Não achei a rua, a pessoa, 
a técnica certa.
Mesmo assim 
me encontrou a Lua, 
sem vergonha nenhuma de aparecer.

Sou perito na arte de me perder. 
Feliz no improviso,
desastrado na precisão.