Todos/as sabem que final de ano é loucura na vida de professor.
Professor e escritor se transforma então em loucura multiplicada.
Você está sempre cansado de um cansaço de quem se sente realizado. Trabalho e trabalho.
Falar para estudantes, outros professores e professoras, encontrar o público em eventos de educação.
Conversas e pessoas interessantes que sempre lhe ensinam algo sobre o humano.
Alguém diz que é sua fã, outro que lhe viu na TV noutro dia, outra que jura que aquele minilivro que você escreveu na verdade foi obra de algum espírito (que você foi apenas um "veículo"). Papos sobre filosofia, política, adolescência. Fotos e fotos, e eu jamais consigo fazer o tal sorriso tradicional mesmo estando rindo interiormente.
Meu livro sobre o Nietzsche é redescoberto, volta a vender na "cola" do atual.
Muitas professoras alegres com um livro sobre uma experiência de sala de aula. Surpresas e risos das pessoas ao lerem as perguntas no livro.
Todo mundo tem uma impressão para compartilhar, uma dica, um olhar. Muitos/as me dizem que já estão esperando o próximo livro, dão dicas de temas e títulos...sempre imaginando uma sequência para este.
Mas "A Caixa de Perguntas" está apenas no início de seu caminho.
Mais uma vez percebo que meu texto chega aos chamados "neoleitores". Quase todos os dias escuto alguém dizer que foi o primeiro livro que leu até o fim. Ouvir isto é uma alegria particular dos escritores.
(Minha mãe observando com atenção o livro)
(Na TVE, com a tradicional flanela xadrez...hehe!)
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30 novembro 2013
23 agosto 2013
um som para Nietzsche
Certa vez Nietzsche se referiu à música como sendo uma de nossas possíveis redenções.
A vida sem música não faria nenhum sentido para mim. Mais ou menos assim ele disse.
Devia ecoar em sua mente algo belo assim.
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18 outubro 2012
Nietzsche e a solidão (anotações)
O solitário
Zaratustra é um solitário não porque viva como um eremita, mas
porque é um criador. Vale lembrar que há uma espécie de inversão
na ideia da caverna, tão cara para os professores e a educação no
Ocidente. Na alegoria de Platão, a caverna corresponde à ignorância
das trevas e cabe aos filósofos serem como aquele que rompeu os
grilhões e saiu para ver a luz do sol, da razão.
Em Nietzsche a caverna é exatamente para onde vai o criador.
Zaratustra sobe até a caverna, onde ficará por dez anos solitário.
No caminho é visto por um velho que percebe que ele está carregando
cinzas. Provavelmente são as cinzas do Deus morto. Destas cinzas ele
produzirá chamas. Em outras palavras, do niilismo passivo da perda
total do sentido ele criará outros valores e ações que valorizem a
vida através de um niilismo ativo, criador.
A solidão dele não é isolamento, é criação. E sempre se dá no
alto, pois somente o solitário pode suportar as vertigens que a
altitude provoca.
Ser solitário é poder dar a si mesmo o seu bem e o seu mal, criar
seus próprios valores. Em vez de perder-se em meio à homogeneidade
das multidões, do rebanho, ele escolhe a singularidade da solidão
dos cumes. É nela que pode buscar a superação dos valores
demasiado humanos das massas, o caminho para o além-do-homem ou
super-homem.
Por paradoxal que pareça, os discípulos de Zaratustra são
exatamente os solitários, os que se elegeram a si próprios, aqueles
que servirão como pontes para o além do humano:
“Quedai-vos vigilantes e à escuta, ó solitários! Chegam ventos,
do futuro, com misterioso bater de asas; e trazem boa nova aos
ouvidos finos.
Vós, os solitários de hoje, os segregados, sereis, algum dia, um
povo; de vós, que vos elegestes a vós mesmos, deverá nascer um
povo eleito, e dele – o super-homem.” (Da virtude dadivosa, pág.
91).
A pregação de Zaratustra é voltada para o futuro, num tom
esperançoso e visivelmente parodiando trechos dos evangelhos
cristãos. Entretanto, logo após dizer isto ele pede que os chamados
discípulos se afastem dele, pois “retribui-se mal um mestre quando
se permanece sempre e somente discípulo”.
“Dizeis que acreditais em Zaratustra? Mas que importa Zaratustra?
Sois os meus crentes; mas que importam todos os crentes!
Ainda não vos havíeis procurado a vós mesmos: então, me achastes.
Assim fazem todos os crentes; por isso, valem tão pouco todas as
crenças.
Agora, eu vos mando perder-vos e achar-vos a vós mesmos; e somente
depois que todos me tiverdes renegado, eu voltarei a vós.” (p. 92)
O discípulo não deve imitar o mestre, ser ou pensar igual a ele. O
discípulo deve superar o mestre no caminho do além-do-homem, do
super-homem. Esta pregação Zaratustra havia feito primeiramente ao
povo, na praça, depois de voltar de sua caverna. Agora ele a faz aos
solitários, ao povo dos solitários.
No prólogo da Gaia Ciência, alguns anos antes, ele há havia
escrito:
“Agrado-te, os meus discursos atraem-te,
queres seguir-me e seguir o trilho dos meus passos?
Segue-te fielmente a ti mesmo.
E assim me seguirás...muito suavemente, muito suavemente.”
O aforismo 443 de Aurora, diz o seguinte:
“Sobre a educação – Paulatinamente esclareceu-se, para mim, a
mais comum deficiência de nosso tipo de formação e educação:
ninguém aprende, ninguém aspira, ninguém ensina – a suportar a
solidão.”
Passados quase um século e meio depois que Nietzsche lecionou, é
evidente que seus piores sonhos se tornaram realidade. A massificação
da cultura, a educação e formação para o mercado...
É possível a solidão (nos termos de Nietzsche) em nosso tempo?
Como podemos viver a solidão quando até estar sozinho precisa ser
“compartilhado”?
Solidão num tempo em que o imaginário é colonizado? Em que somos,
como sociedade, produtos de um aparelho que funciona como prótese de
nosso olho?
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22 março 2010
É verdade que Nietzsche matou Deus?
É verdade que Nietzsche matou Deus?
Deus é o silêncio do universo, e o ser humano,
o grito que dá sentido a esse silêncio.
José Saramago
“Deus está morto”. Esta é uma frase famosa do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (diz-se “Níti”). Lendo-a assim, tirada do contexto em que foi pensada e escrita, ela parece – ao menos para as pessoas que creem – um tanto absurda. Mas esta afirmação vai muito além da simples frase feita. E dá muito o que pensar a crentes e ateus do mundo todo.
Dizer que Deus está morto é o mesmo que dizer que um certo mundo desapareceu. Nietzsche (1844-1900) viveu no século dezenove, que se dizia uma época cheia de descobertas e conhecimentos novos.
Para ele, havia um ar pesado em sua época. Todo aquele discurso que falava em progresso escondia em si algo putrefato e prestes a explodir. A morte de Deus é uma forma simbólica de dizer da morte do Ocidente, dos valores que construíram toda uma civilização. Nietzsche foi fundo nas suas críticas, afirmando que valores como a igualdade não passavam de grandes disfarces que escondiam a consciência de culpa dos mais fortes e o desejo de vingança dos oprimidos.
O cristianismo, para Nietzsche, havia corrompido boa parte da humanidade pregando um mundo ilusório fora daqui. Enquanto esperavam recompensa divina os homens se esqueciam de viver. E o que é ainda pior: maltratavam-se, se automutilavam, esqueciam que tinham um corpo. Tudo em nome de um outro mundo, um além ilusório criado pelas religiões e seus poderosos sacerdotes.
A tradição da filosofia até então sempre colocava Platão como um de seus maiores mestres. Muitos até diziam que depois da grandeza dele tudo parecia pequeno. Nietzsche nunca negou a importância do filósofo grego, mas passou toda a vida a atacar o seu pensamento.
A filosofia de Platão teria nos colocado num falso dilema, ao separar a realidade em dois: o mundo sensível e o mundo das ideias. Depois teria vindo o cristianismo, e se aproveitando disto teria dito que o mundo das ideias era o reino dos céus. Assim, os homens passaram a negar a vida e a maldizer o mundo em que viviam. Sentimentos tão humanos como o ódio, a vingança e o desejo, haviam sido reprimidos em nome de um mundo perfeito que não existia. Esses impulsos contidos voltavam em forma de doenças e ressentimento, envenenando os homens e suas relações.
A tradição filosófica sempre foi a da busca da verdade. Daí vem o próprio nome “filosofia” (philos+sophia), que no grego seria algo como amante ou amigo da sabedoria. O filósofo é aquele que sempre está em busca da verdade, da sabedoria, mesmo sabendo que nunca a possuirá plenamente. A verdade é a sua busca. Nietzsche foi ao fundo disto, radicalizou esta busca e colocou em dúvida a própria noção de verdade.
Ao investigar a origem do conceito do que chamamos verdade, encontrou a mentira. A verdade seria apenas uma criação humana como qualquer outra.
Vejam que não estamos falando de qualquer pensamento. Não é ao acaso que ele repetia que não queria seguidores ou discípulos. Ele dizia que filosofava a marteladas. Sua filosofia é extremamente provocativa, gerando reações que vão da adesão apaixonada ao desprezo. Há alguns estudiosos da filosofia que sequer admitem a ideia de que ele foi um filósofo, classificando-o como um escritor desvairado e inconsequente. Penso que são duas maneiras equivocadas de ler um pensador, ou negando totalmente o que ele pensou ou repetindo seu pensamento como se fosse algo divino.
Mesmo aqueles que nós costumamos chamar de “gênios” foram pessoas como nós, e foram educados e formados dentro de um determinado tempo. Ainda que tenham descoberto ou dito coisas extremamente avançadas para sua época, nunca podemos esquecer que eles são filhos dela. Nietzsche não foi diferente, e apesar de ser considerado por muita gente como uma espécie de “profeta” escreveu e pensou a partir do século dezenove (XIX) e contra ele.
Nietzsche estudou muito, e ainda jovem escreveu textos e livros que continuam impressionantes pela sua atualidade. Sua obra é grande, tanto pela quantidade quanto pela variedade e profundidade com que abordou os mais variados temas. Nos primeiros escritos ele segue uma certa organização acadêmica, que podemos encontrar até hoje na maior parte das produções em filosofia. Porém, posteriormente ele passou a escrever através de aforismos, fragmentos. Então, às vezes em um pequeno parágrafo encontramos uma condensação de informações e conceitos impressionante. Ele brincava com isto, dizendo que o efeito pretendido era parecido com um banho de água gelada: você entra rapidamente, toma uma ducha e sai renovado. É um susto que faz acordar!
Também por isto seus escritos são perigosos. Para usar uma imagem tirada dele, poderia dizer que quem sofre de vertigens não pode subir rapidamente até o pico de uma montanha. É necessário subir com cuidado, e lembrar que o ar gelado que faz lá no alto pede uma boa saúde. É preciso lê-lo sem pressa, digerindo cada palavra. Isto seria um bom conselho para qualquer leitura. Ler devagar. Mas em filosofia e ainda mais se tratando dele, nunca é demais lembrar.
A quem nunca leu nada de Nietzsche e quer conhecê-lo, eu sugiro um primeiro contato por via indireta. Há um pequeno livro, escrito pelo professor Oswaldo Giacoia Júnior, que é muito bom e extremamente elucidativo. O professor Giacoia é um dos maiores conhecedores de Nietzsche no Brasil. O livro chama-se Nietzsche, e eu o coloco ao final do texto.
Eu próprio estudei algumas coisas de sua obra, especialmente a sua relação com a educação, e publiquei o resultado em um livro chamado Nietzsche, o professor. Ele foi professor durante dez anos, escreveu sobre educação, e o tempo todo pensava em ser compreendido. Chegou a tirar do próprio bolso para publicar seus livros.
Nietzsche é famoso por suas frases de efeito, e muitas pessoas ficam paralisadas nelas. Mas é preciso ir muito além, se realmente queremos entender o pensamento de um filósofo. Mesmo assim, vou deixá-los aqui com uma citação famosíssima dele, que trata de um de seus conceitos mais importantes que é o do eterno retorno. Esta passagem se encontra no livro Gaia ciência, e me parece uma das mais belas exaltações à vida que aparecem na filosofia.
E se, um dia ou uma noite, um demônio viesse se introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, muito pelo contrário! A menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande e de indizivelmente pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão... esta aranha também voltará a aparecer, este luar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!” Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldiçoando este demônio? A menos que já tenhas vivido um instante prodigioso em que lhe responderias: “Tu és um deus, nunca ouvi palavras tão divinas!”
Se este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse, havias de te perguntar a propósito de tudo: “Quero isto? E quero outra vez? Uma vez? Sempre? Até o infinito?” E esta questão pesaria sobre ti como peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além dessa suprema confirmação!
A resposta de Nietzsche para a pergunta do “demônio” é um grande sim! Um grande sim à vida, com tudo que nela há de trágico e maravilhoso, belo e cruel...
Para pensar mais:
GIACOIA JR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
NEUKAMP, Elenilton. Nietzsche, o professor. São Leopoldo: Nova Harmonia/Oikos: 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
Deus é o silêncio do universo, e o ser humano,
o grito que dá sentido a esse silêncio.
José Saramago
“Deus está morto”. Esta é uma frase famosa do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (diz-se “Níti”). Lendo-a assim, tirada do contexto em que foi pensada e escrita, ela parece – ao menos para as pessoas que creem – um tanto absurda. Mas esta afirmação vai muito além da simples frase feita. E dá muito o que pensar a crentes e ateus do mundo todo.
Dizer que Deus está morto é o mesmo que dizer que um certo mundo desapareceu. Nietzsche (1844-1900) viveu no século dezenove, que se dizia uma época cheia de descobertas e conhecimentos novos.
Para ele, havia um ar pesado em sua época. Todo aquele discurso que falava em progresso escondia em si algo putrefato e prestes a explodir. A morte de Deus é uma forma simbólica de dizer da morte do Ocidente, dos valores que construíram toda uma civilização. Nietzsche foi fundo nas suas críticas, afirmando que valores como a igualdade não passavam de grandes disfarces que escondiam a consciência de culpa dos mais fortes e o desejo de vingança dos oprimidos.
O cristianismo, para Nietzsche, havia corrompido boa parte da humanidade pregando um mundo ilusório fora daqui. Enquanto esperavam recompensa divina os homens se esqueciam de viver. E o que é ainda pior: maltratavam-se, se automutilavam, esqueciam que tinham um corpo. Tudo em nome de um outro mundo, um além ilusório criado pelas religiões e seus poderosos sacerdotes.
A tradição da filosofia até então sempre colocava Platão como um de seus maiores mestres. Muitos até diziam que depois da grandeza dele tudo parecia pequeno. Nietzsche nunca negou a importância do filósofo grego, mas passou toda a vida a atacar o seu pensamento.
A filosofia de Platão teria nos colocado num falso dilema, ao separar a realidade em dois: o mundo sensível e o mundo das ideias. Depois teria vindo o cristianismo, e se aproveitando disto teria dito que o mundo das ideias era o reino dos céus. Assim, os homens passaram a negar a vida e a maldizer o mundo em que viviam. Sentimentos tão humanos como o ódio, a vingança e o desejo, haviam sido reprimidos em nome de um mundo perfeito que não existia. Esses impulsos contidos voltavam em forma de doenças e ressentimento, envenenando os homens e suas relações.
A tradição filosófica sempre foi a da busca da verdade. Daí vem o próprio nome “filosofia” (philos+sophia), que no grego seria algo como amante ou amigo da sabedoria. O filósofo é aquele que sempre está em busca da verdade, da sabedoria, mesmo sabendo que nunca a possuirá plenamente. A verdade é a sua busca. Nietzsche foi ao fundo disto, radicalizou esta busca e colocou em dúvida a própria noção de verdade.
Ao investigar a origem do conceito do que chamamos verdade, encontrou a mentira. A verdade seria apenas uma criação humana como qualquer outra.
Vejam que não estamos falando de qualquer pensamento. Não é ao acaso que ele repetia que não queria seguidores ou discípulos. Ele dizia que filosofava a marteladas. Sua filosofia é extremamente provocativa, gerando reações que vão da adesão apaixonada ao desprezo. Há alguns estudiosos da filosofia que sequer admitem a ideia de que ele foi um filósofo, classificando-o como um escritor desvairado e inconsequente. Penso que são duas maneiras equivocadas de ler um pensador, ou negando totalmente o que ele pensou ou repetindo seu pensamento como se fosse algo divino.
Mesmo aqueles que nós costumamos chamar de “gênios” foram pessoas como nós, e foram educados e formados dentro de um determinado tempo. Ainda que tenham descoberto ou dito coisas extremamente avançadas para sua época, nunca podemos esquecer que eles são filhos dela. Nietzsche não foi diferente, e apesar de ser considerado por muita gente como uma espécie de “profeta” escreveu e pensou a partir do século dezenove (XIX) e contra ele.
Nietzsche estudou muito, e ainda jovem escreveu textos e livros que continuam impressionantes pela sua atualidade. Sua obra é grande, tanto pela quantidade quanto pela variedade e profundidade com que abordou os mais variados temas. Nos primeiros escritos ele segue uma certa organização acadêmica, que podemos encontrar até hoje na maior parte das produções em filosofia. Porém, posteriormente ele passou a escrever através de aforismos, fragmentos. Então, às vezes em um pequeno parágrafo encontramos uma condensação de informações e conceitos impressionante. Ele brincava com isto, dizendo que o efeito pretendido era parecido com um banho de água gelada: você entra rapidamente, toma uma ducha e sai renovado. É um susto que faz acordar!
Também por isto seus escritos são perigosos. Para usar uma imagem tirada dele, poderia dizer que quem sofre de vertigens não pode subir rapidamente até o pico de uma montanha. É necessário subir com cuidado, e lembrar que o ar gelado que faz lá no alto pede uma boa saúde. É preciso lê-lo sem pressa, digerindo cada palavra. Isto seria um bom conselho para qualquer leitura. Ler devagar. Mas em filosofia e ainda mais se tratando dele, nunca é demais lembrar.
A quem nunca leu nada de Nietzsche e quer conhecê-lo, eu sugiro um primeiro contato por via indireta. Há um pequeno livro, escrito pelo professor Oswaldo Giacoia Júnior, que é muito bom e extremamente elucidativo. O professor Giacoia é um dos maiores conhecedores de Nietzsche no Brasil. O livro chama-se Nietzsche, e eu o coloco ao final do texto.
Eu próprio estudei algumas coisas de sua obra, especialmente a sua relação com a educação, e publiquei o resultado em um livro chamado Nietzsche, o professor. Ele foi professor durante dez anos, escreveu sobre educação, e o tempo todo pensava em ser compreendido. Chegou a tirar do próprio bolso para publicar seus livros.
Nietzsche é famoso por suas frases de efeito, e muitas pessoas ficam paralisadas nelas. Mas é preciso ir muito além, se realmente queremos entender o pensamento de um filósofo. Mesmo assim, vou deixá-los aqui com uma citação famosíssima dele, que trata de um de seus conceitos mais importantes que é o do eterno retorno. Esta passagem se encontra no livro Gaia ciência, e me parece uma das mais belas exaltações à vida que aparecem na filosofia.
E se, um dia ou uma noite, um demônio viesse se introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, muito pelo contrário! A menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande e de indizivelmente pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão... esta aranha também voltará a aparecer, este luar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!” Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldiçoando este demônio? A menos que já tenhas vivido um instante prodigioso em que lhe responderias: “Tu és um deus, nunca ouvi palavras tão divinas!”
Se este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse, havias de te perguntar a propósito de tudo: “Quero isto? E quero outra vez? Uma vez? Sempre? Até o infinito?” E esta questão pesaria sobre ti como peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além dessa suprema confirmação!
A resposta de Nietzsche para a pergunta do “demônio” é um grande sim! Um grande sim à vida, com tudo que nela há de trágico e maravilhoso, belo e cruel...
Para pensar mais:
GIACOIA JR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
NEUKAMP, Elenilton. Nietzsche, o professor. São Leopoldo: Nova Harmonia/Oikos: 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
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