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16 abril 2011

Todo mundo explica

Todo mundo explica

(Raul Seixas)

Não me pergunte por que
Quem? Como? Onde? Qual? Quando? O Que?
Deus, Buda, O tudo, O nada, O ocaso, O cosmo
Como o cosmonauta busca o nada
Seja lá o que for, já é


Não me obrigue a comer
O seu escreveu não leu
O pau comeu na cabeça do cantor José Raimundo
Porque sem querer cantou no rádio que
Cada cabeça é um mundo
Raimundo
Antes de ler o livro que o guru lhe deu
Você tem que escrever o seu


Chega um ponto que eu sinto que eu pressinto
Lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora
No coração e no sol, no meu peito eu sinto
Na estrela, na testa, eu farejo
em todo o universo
Que eu estou vivo
Que eu estou vivo, vivo, vivo, vivo como uma rocha!

E eu não pergunto
Hoje sei que a vida não é uma resposta
E se eu aconteço aqui
se deve ao fato de eu simplesmente ser
Se deve ao fato de eu simplesmente ser


Mas todo mundo explica
Explica, Freud, o padre explica, Krishnamurti tá
vendendo
A explicação na livraria, que lhe faz a prestação
Que tem Platão que explica tudo tão bem vai lá que
Todo mundo explica
protestante, o auto-falante, o zen-budismo,
Brahma, Skol
Capitalismo oculta um cofre de fá, fé, fi, finalismo
Hare Krishna, e dando a dica enquanto aquele
papagaio
Curupaca e implica
Com o carimbo positivo da ciência que aprova
e classifica


O que é que a ciência tem?
Tem lápis de calcular
Que é mais que a ciência tem?
Borracha prá depois apagar
Você já foi ao espelho, nego?
Não?
Então vá!

09 abril 2011

Tolstói, atualíssimo

"Pensei que, se eu servir as pessoas pela escrita, então a única coisa a que tenho direito, o que devo fazer, é desmascarar a mentira dos ricos e revelar aos pobres o engano em que eles os mantêm".

"As pessoas vivem num luxo absurdo, enriquecendo-se com o trabalho de pobres humilhados e protegendo a própria riqueza com guardas, juízes, sentenças -e o clero, em nome de Cristo, aprova, consagra e abençoa essa vida, apenas aconselhando os ricos a conceder uma pequena parte do que foi roubado àquele de quem continuam roubando".

"Deveria estar claro para qualquer homem culto de nossa época que o direito exclusivo à terra para pessoas que não trabalham nela e que privam o acesso a ela a centenas de milhares de famílias miseráveis é algo tão perverso e infame como a posse de escravos".

Liev Tolstói (1828-1910), escritor russo.

07 abril 2011

Os armados cidadãos de bem

Escrevi o texto abaixo no dia 9 de outubro de 2005, quando o país discutia a proibição ou não do comércio de armas.

Penso que continua atual, sobretudo depois do massacre de hoje na escola do Rio.


OS ARMADOS CIDADÃOS DE BEM

*Elenilton Neukamp

Estou cansado de ouvir falar no "cidadão de bem",
ou que tais pessoas são "do bem". Se compreender a
vida fosse tão fácil assim, já teríamos acabado com o
"mal" e viveríamos no paraíso terrestre.
Este mês teremos o referendo sobre a proibição da
venda de armas no Brasil. É engraçado o argumento dos
que são contrários: "estão desarmando os cidadãos de
bem". Se respeitar as leis de um país é um critério
para ser "cidadão de bem", então já temos um sério
problema.
A grande maioria das "boas pessoas" que têm armas
não possui o porte, que é o documento que garante
tanto a procedência da arma quanto o direito de
possuí-la. As armas que elas possuem vieram do
comércio legal, passaram pelas mãos de bandidos e
foram para a rede clandestina de comercialização. Em
outras palavras, o que estou dizendo é que a maioria
dos ditos "cidadãos de bem" que possuem armas são, no
mínimo, cúmplices do crime. Estão na ilegalidade,
esperando o assaltante com um revólver raspado na mão.
Bandidos adoram armas, isto não é nenhuma
novidade. No comércio de drogas uma arma funciona como
uma poderosa moeda de troca. Na hora de um
arrombamento de casa, por exemplo, aquela que
sabidamente tem em seu interior alguma arma é
certamente a escolhida. Armas atraem bandidos, porque
fazem parte de seu mundo. São instrumentos para o
crime e fáceis de vender ou trocar.
É claro que proibir as armas não vai acabar com a
violência. Mas é ainda mais claro que, quanto menos
armas circulando, menor é a possibilidade dos bandidos
chegarem a elas e de levarmos um tiro no meio da rua.
Se possuir armas garantisse segurança a alguém, os
Estados Unidos seriam o país mais seguro do mundo. Mas
o que acontece lá? Crianças armadas invadem escolas e
provocam chacinas.
Quando não há mais argumentos, fala-se no
contrabando. O contrabando que existe é de armas
pesadas, e se concentra basicamente no eixo Rio-São
Paulo. As granadas e minas terrestres apreendidas são
todas provenientes do Exército brasileiro, roubadas de
seus arsenais. Cabe ao governo brasileiro investir
mais na segurança das armas do próprio Exército, que
também deve fechar as fronteiras à entrada das
contrabandeadas.
Proibir as armas não é retirar direitos dos
cidadãos. Viver em sociedade é ter limites, e são os
próprios cidadãos e cidadãs que irão decidir se querem
ou não que existam limites para as armas. Quem deseja
que as coisas permaneçam como estão vota contra. Quem
deseja que aumentem os limites vota a favor.
Permitir a venda de armas para o "cidadão de bem"
não melhora em nada o problema da segurança. Só pode
piorar, porque aumenta a oferta de armas e o acesso
dos criminosos a elas. Além disso, aquilo que todo
mundo já sabe: os bons cidadãos armados também bebem,
brigam, perdem o controle, e suas maiores vítimas são
normalmente as mulheres.

*professor de Filosofia

23 março 2011

STF e Ficha Limpa

O Supremo Tribunal Federal, ao julgar contra a aplicação imediata da lei da Ficha Limpa, cumpre muito bem seu papel de manter a Lei e a Ordem.
A lei e a ordem deles.

28 fevereiro 2011

O diabo usa gravata


Esta é a cara do senhor Ricardo Neis. O sujeito que atropelou covardemente dezenas de ciclistas
na cidade de Porto Alegre, no dia 25 de fevereiro de 2011.

Olhe bem para o olhar dele. Os olhos dizem muitas coisas.

Ele jogou o carro em alta velocidade sobre as pessoas e depois fugiu. Abandonou o carro logo em seguida. Três dias depois apareceu pra dar depoimento na polícia.
Ele usa gravata, o que comprova a hipótese de que até mesmo os monstros podem usar gravata.
Este é o tipo de pessoa que deve estar atrás das grades. Uma ameaça à sociedade.

Esperamos que ele não acabe solto, como o empresário Roberto da Silva Corlleto - que atropelou e matou um professor da Ufrgs em 2005. Seu carro estava a mais de 100km/h numa via onde a velocidade máxima é 60 km/h.

Cumpra-se a lei.

Se você ver um destes sujeitos por aí desvie, corra, procure abrigo. Eles são uma ameaça.




(Foto de Paulo Nunes, Correio do Povo)

31 dezembro 2010

Amizade

Abrindo o novo ano com um textinho do meu livro "A Caixa de perguntas e outras histórias de aprendiz" (ainda não publicado)...


O amor do amigo


Em volta do fogo de chão e junto dos velhos homens que bebiam mate e contavam casos, o jovem Atahualpa Yupanqui ouviu da boca de um deles uma das mais belas definições do que seja a amizade. “Um amigo é a gente mesmo com outra pele”, disse um dos velhos. O menino, que seria depois um criador de preciosidades poéticas, carregaria para sempre essa frase consigo. E junto dela a imagem dos velhos trabalhadores em círculo.

O amigo, esse ser que multiplica o espelho da minha alma, como disse Vinícius de Moraes que, décadas depois (e sem fogo algum que o calor do Rio de Janeiro) reunia os amigos. Dizem que sua casa vivia repleta e que sem eles o grande poeta não podia suportar a vida. Vinícius abria suas portas a artistas da palavra e da música, e dessa generosidade e das amizades criadas surgiram muitos dos melhores momentos de nossa cultura. A amizade como poderoso motor de criação.

Nossos amigos às vezes desconhecem o quanto os amamos. Mas sentem de alguma maneira nosso carinho e afeto, porque têm aquela sensibilidade, aquela coisa a mais que diferencia o verdadeiro amigo dos demais.

Há amigos com os quais nunca conversamos, nem um “oi”, mas sentimos uma cumplicidade no olhar que não há ciência que consiga explicar. Fica algo no ar e a certeza escondida de que daqui a um tempo (um mês, dois anos...), uma coincidência qualquer nos coloque uma situação comum. Então paramos e nos conhecemos, em palavras.

Algumas pessoas encontramos apenas de tempos em tempos. E vem então aquela impressão de que não estavam longe, de que a saudade foi apenas um engano. Por vezes acreditamos percebê-las à distância e enviamos mensagens imaginárias, para uma dimensão incerta, na esperança que do outro lado da cidade ou do mundo estejam nos ouvindo.

Quando visitamos um amigo que há muito não vimos, ele logo reclama nosso sumiço. Mas sabe que em todo lugar nos dizem isso e que compreendemos pouco, muito pouco, das distâncias e dos dias que vão e vêm assim tão rápido.

Tem a amiga que sonha poder voar como os pássaros, ouvindo lá do alto o eco das vozes vindas com o vento vagabundo e indiferente. Tem o amigo que, brincando com a água viva encontrou-se com a morte. E aqueles outros, invisíveis, que se foram há séculos mas deixaram seus livros (que ainda iluminam). Lembro bem daquele perturbado amigo, que abaixou-se na chuva e fez uso de uma poça d'água para diluir a química ardente que lhe invadiria as veias.

Entro na casa do velho amigo. Ou do novo amigo velho. Sala perfumada de livros, odor inigualável. Onde habitam os grandes iniciados e seus pensamentos vivos. Alguns amigos, como ele, moram onde a arte caminha como trepadeira pelas paredes. E outras, como a velha amiga, vêem em mim realizados os sonhos que sonharam para si. (...)

Todo dia é dia do amigo. Então, já que hoje é dia dele, não será demais deixá-lo com estas palavras, e terminar com a loucura poética e amiga de Nietzsche: “Existe realmente, aqui e além na terra, uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo que dois seres experimentam um pelo outro dá lugar a um novo desejo, a uma nova cobiça, a uma sede superior comum, a de um ideal que os ultrapassa a ambos: mas quem é que conhece esse amor? Quem o viveu? O seu verdadeiro nome é amizade.”


Elenilton Neukamp