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31 dezembro 2013

Haitianos de barro e de fogo

Muitas pessoas têm me falado (com emoção) sobre o texto "Homens de barro e de fogo", que está na página 105 do meu livro. Alguém até me escreveu que ali está o mistério que sempre percebeu em mim. Mas não há mistério algum, como já nos ensinou Fernando Pessoa.
A cidade da qual eu falo no texto se chama Poço das Antas. Onde eu nasci. Coração e raízes lá também.
Pois agora há um frigorífico, que mata mil porcos por dia. Quando os caminhões passam carregados de porcos o ar fica pestilento. Para onde vai o sangue ninguém sabe dizer. Os gritos só os homens que estão lá dentro podem ouvir.
O prédio pago com dinheiro do BNDES, e a prefeitura não cobra impostos. Beleza de negócio.
Mil animais mortos por dia é pouco. O mercado globalizado pede mais e mais. Mas matar é um trabalho que poucos se animam a fazer. E quem faz costuma perder o ânimo. Depressão e suicídio são comuns.
A empresa não encontra trabalhadores para fazer o pior de todos os serviços.
Então o que se faz? Se contrata trabalhadores haitianos. São 44 homens do Haiti, que vieram do Acre para fazer qualquer trabalho a qualquer salário. Ficam no antigo hospital, onde eu nasci, e que agora se transformou em alojamento.
Não podem sair às ruas depois das 22 horas. Toque de recolher, mas somente para eles.
Apenas um consegue entender o português. Todos os outros só falam francês. Isto numa cidadezinha onde a maioria da população se comunica mais fluentemente em alemão.
Bom, nem preciso falar em racismo. Claro que meus leitores e leitoras sabem muito bem que estamos no Brasil. Mas há variações também na crueldade.
Este Brasil grande e rico que atrai os miseráveis do mundo está muito bem colocado dentro da geografia da semiescravidão.
Para o Haiti nosso governo enviou uma missão. Militar. Para garantir a segurança não sei de quem. O povo haitiano passa fome, vive em péssimas condições. Sofre todo tipo de privação, além das tragédias da natureza e da corrupção dos governos.
Volto para os homens haitianos que agora estão no mesmo lugar onde eu nasci. Querem enviar comida pelo correio, para seus familiares distantes. Um até foi visto tentando vender um lagarto que ele trazia amarrado. Ninguém entendeu, pois aqui o lagarto não tem o valor que tem lá. Valor de alimento.
Eles almoçam no próprio frigorífico.
Dia desses, contou emocionada minha tia, um deles começou a chorar durante o almoço. Os outros foram socorrê-lo, pensando que ele passava mal.
Não, estava bem. Não estava bem.
Ele disse que estava chorando porque pensava em sua família, no Haiti, que naquele momento não tinha nada para comer.





28 dezembro 2013

Papa Francisco perdoa Tom Zé

Como dizia o Belchior,
o novo sempre vem.
Com alegria acabei de descobrir aqui "O Terno",
e esta canção divertida e inteligente.
As ironias sempre me caem bem...

25 dezembro 2013

Os incêndios, Mujica presidente do Brasil e um beija-flor

Os incêndios durante o Natal sempre me chamaram a atenção. Que relação maluca é esta entre este período e o fogo? O que falam de nós as queimadas e as casas incendiadas?

Minha mãe hoje falando pouco. Isto é digno de nota. Por quê? Um médico receitou um destes "remedinhos para dormir". Médicos, hoje em dia, adoram receitar estas drogas. Muitas vezes por quase nenhum motivo. A indústria farmacêutica agradece, minha família lamenta. E um monte de gente preocupada com a maconha no Uruguai. Se vissem minha mãe hoje, teriam ainda mais um motivo para aderir à minha campanha: "Mujica presidente do Brasil!".

Um amigo da família, um homem do povo. Destes que perdem tudo e recomeçam de novo. Pois soube do meu livro pelo jornal, foi até a casa de minha mãe e comprou o exemplar dela. Hoje nos encontramos, ele  leu o livro, adorou e já emprestou para uma pessoa que acredita precisa lê-lo. Falamos sobre o Brasil e a democracia que se diz que há por aqui, desses governantes que durante a tarde falam em ouvir e à noite mandam a polícia bater. Nas despedidas, lhe disse que a experiência da caixa de perguntas é verdadeiramente democrática e funciona, mesmo com esta escola que ele vê muito violenta.
Ele, já saindo de bicicleta e desiludido com o país, me disse: "Mas tu é aquele beija-flor que vai jogando água pra apagar o incêndio".
Nem concordo com esta sua conclusão, mas adorei a imagem do pássaro.
Penso que somos muitos a jogar as gotas sobre o incêndio, que no fundo talvez seja bem menor do que queremos crer. E para usar uma metáfora (do Bebeto Alves) que há muito tempo viaja comigo:

                                          "SOMOS UM BANDO E MUITOS OUTROS".






21 dezembro 2013

Um sapo na direção

Há umas três semanas participei do bazar de natal da Casa Ametista e do Recanto Esmeralda (onde meu filho brinca e aprende durante as manhãs). São jardins de infância que seguem a pedagogia Waldorf. Também vendi meus livros por lá, porque todo artista tem de ir aonde o povo está.
No final da tarde revelei para um grupo de crianças meus poderes mágicos, e de posse de uma varinha de condão caída de uma árvore transformei várias meninas em borboletas. Várias vezes e de vários tipos, inclusive borboletas princesas.
Depois em serpentes que rastejavam pelo pátio.
Ontem, na festa de natal da Esmeralda, uma destas crianças queridas também trouxe sua varinha mágica e me transformou primeiramente em macaco, depois em sapo.
Quando entrei no carro, aos pulos, o irmão dela veio me lançando um olhar penetrante, e incrédulo me falou pela janela: "Mas sapo não dirige!".
Então me descobri o primeiro sapo a dirigir um carro.

14 dezembro 2013

Marcia Tiburi escreve sobre "A caixa de perguntas"



A CAIXA DE PERGUNTAS

O abandono da educação brasileira é uma das questões sociais mais graves que experimentamos hoje em dia. Pouco podemos fazer enquanto governos projetam seu ódio contra o povo também por meio da educação: contra os jovens, as crianças e o futuro. Os resultados históricos são previsíveis num país que já vive em seu tempo presente os efeitos do desprezo pela educação que nasceu no passado ditatorial brasileiro. Que a ditadura tenha sido introjetada por tanta gente e seja hoje uma constante cultural exige nossa atenção mais delicada.
No meio desse quadro triste, em que a profissão de ensinar, em que a experiência da aprendizagem e da formação são mortas diariamente às pauladas, surgem no entanto, luminosidades que nos alegram. A alegria é um ápice de esperança, aquela que a gente sente quando alguma coisa faz sentido e melhora o mundo onde vivemos.
Uma dessas alegrias é o livro “A Caixa de Perguntas, desafio vivo em sala de aula” (Ed. Libretos, 2013, 148 p.) de Elenilton Neukamp, professor da rede pública de ensino de Porto Alegre, mestre em educação pela UFRGS e autor de outros dois livros. A única coisa de que me orgulho na vida é dos meus alunos e fico muito feliz em dizer que Elenilton passou pela minha sala de aula sempre trazendo lindas questões, lindos textos. Dessas pessoas inesquecíveis que a gente agradece a sorte de ter encontrado.
O livro é um relato de experiência pedagógica com filosofia. Como a disciplina de filosofia é ainda muito recente no ensino fundamental e médio dificuldades fazem parte da coisa mesma: Como ensinar filosofia? O quê ensinar? Como chamar a atenção dos alunos para a experiência do pensamento? Como ajudar os garotos a se interessarem pelos conteúdos do conhecimento, de ética, de estética? Não há professor de filosofia que não se coloque estas questões quando tem diante de si crianças e jovens num contexto de crise geral – política e cultural – da educação. O professor de filosofia sabe que sua aula precisa da alegria do pensamento, a força revolucionária que faz pensar, logo, a aula tem que ser uma “boa” aula. A aula de filosofia é sempre um momento muito especial porque é sempre uma aula sobre o cerne da experiência da vida que mora nos atos de pensar, sentir, discernir e compreender. Toda aula de filosofia transita nesse quadrado mágico feito da básica matéria do ato esclarecido a que damos o nome de filosofia.
Elenilton inventou um método para trabalhar com esse universo. Só que ele pretendia uma aula muito democrática na qual todos tivessem, de algum modo, voz. Uma aula em que o comprometimento e o engajamento eram a aposta a pagar. Assim, ele inventou a caixa para que todos pudessem perguntar o que quisessem, do modo como quisessem. A caixinha, em princípio usada em uma turma, ficou famosa na escola e Elenilton foi convocado a usá-la até com as turmas de adultos nas quais também leciona.
Sem identificação, sem nomes de pessoas e sem ofensas pessoais, as perguntas criaram vida própria: a vida das ideias das quais vive uma aula de filosofia.
A partir daí o livro “A caixa de perguntas” conta sua própria história. Um capítulo impressionante traz uma lista das próprias perguntas que vão desde questões sobre sexualidade até perguntas sobre Deus. O modo como os estudantes as redigem, são um caso a parte que, sinceramente, só lendo pra ver. Mas dou aqui 3 exemplos da diversidade que pode surgir no uso de um método como este:
- Por que Deus quis “inventar”o mundo?
- Por que a maioria dos profes são chatos?
- Ter os dentes tortos influencia na hora do beijo?
Recomendo o livro a todos os professores de filosofia de todas as etapas escolares. Mas também sugiro a leitura às pessoas em geral, independentemente de suas idades e profissões. A carência de pensamento entre nós está fundada em um vasto complexo social e cultural, mas tem ligação direta com o medo de pensar, devido à sua proibição (muitas vezes surgida nas próprias faculdades de filosofia em que professores são controladores do que se pode ou não dizer). É este medo/proibição que produz a vergonha de pensar e de falar. Esta vergonha que a aula de filosofia pode ajudar a mudar, porque a aula de filosofia é o lugar onde se aprende a falar e, sobretudo, a ouvir.
A Caixa de Perguntas é um presente nesta época em que a sala de aula é um verdadeiro tédio para a maioria dos alunos. Mas também para muitos professores que se sentem perdidos diante do que fazer com crianças e jovens que trazem da cultura e da família aquele desprezo pela educação que, infelizmente, em nosso precário cenário, ainda precisamos como professores e cidadãos combater todos os dias.
No quadro da miséria material e espiritual oferecida pelos governos e pelo capitalismo que transformam a educação em problema bancário, a “Caixa de Perguntas” é a generosidade que combate a avareza, a alegria de pensar que combate a ignorância.
Só posso desejar boa leitura.
*Para quem quiser acompanhar o Elenilton: http://eleniltonneukamp.blogspot.com.br

Publicado em 14/12/2013, no blog da Marcia Tiburi no site da Revista CULT






11 dezembro 2013

Dois Albertos


Meu pai me apresentou os pássaros.
Meu tio me ensinou a ler os seus vôos.
Alberto é um nome que faz parte da minha carne.
Sete letrinhas.
O dionisíaco de um com seu violão, a cachaça e as canções
inventadas para fazer sorrir.
O apolíneo do outro, iluminando com a lanterna pinheiros misteriosos e saciando minha curiosidade com suas palavras e livros.
Um é loucura, delírio, desejo escorpiano de vida e paixão.
Outro é sensatez, tranquilidade, celibato e meditação sobre a técnica.
Entre um e outro, eu.
Em minha sensatez toda insensata desaprendi a tocar o violão.
Em minha insensatez quase sensata ainda nem escrevi o livro, não inscrevi parte de mim nas veias da terra.
Místico sem fé.
Vagando entre momentos solitários e lençóis coloridos.
Comigo a língua portuguesa quer ir pro brejo.
Os dois Albertos. Alentos.
Entre um e outro

Eu.




(Uma singela homenagem ao meu tio Alberto A. Flach, Irmão Albano, que faleceu ontem)





06 dezembro 2013

Entrevista na TVCOM

Entrevista ao programa TVCOM Tudo Mais, em 8/11/2013,
falando sobre a caixa de perguntas e o livro...









Mandela

A grande mídia adora domesticar e "pasteurizar" os grandes personagens, as grandes pessoas.
Este textinho da Zero Hora chamando o Mandela de "herói da tolerância" é um exemplo.
Tolerância?
Ele foi guerrilheiro, lutou contra um regime autoritário e racista. Ficou 27 anos preso. Era acusado de terrorismo pelos Estados Unidos, assim como por seu próprio país.
Não foi tolerante com coisa alguma. Não cruzou os braços. Lutou.
Suas ações como governante foram políticas, inteligentes. Não respondeu com violência contra a elite branca, mesmo tendo todos os motivos para fazê-lo.
Tolerância é outra coisa, e é bem pouco. Precisamos muito mais que isto!



01 dezembro 2013

Olhos negros

Há 50 anos nascia meu irmão mais velho, Deoclécio.
Era também um domingo. O sexo do bebê só era conhecido no momento do nascimento.
Não havia exames, nem vídeos disto e daquilo. Tampouco existia por lá o SUS. Quem não tivesse como pagar um médico (raro) não era atendido. Quem fazia o trabalho eram as parteiras, mulheres especiais e fortes que se faziam respeitar.
Diz a minha mãe que meu avô estava em outra cidade. Voltou rápido, à cavalo, quando chegou a notícia do nascimento do neto.
Quando entrou no quarto e viu a criança não conseguiu conter um grito de alegria: "É um gurizinho, e tem o olho bem preto!". Tudo isto ele falou em alemão, pois lá quase nada se sabia em português.
Numa região onde o lugar comum eram os olhos azuis, uma criança de olhos negros era sempre festejada.
Creio que também por isto estranho tanto o encanto das pessoas com a cor dos olhos do meu filho. 
E sigo nesta loucura de navegar em qualquer cor e procurar nos olhos apenas o olhar. 






(Na foto, é ele o fotógrafo improvisado que tenta registrar a fila da sessão de autógrafos.)

30 novembro 2013

No fluxo

Todos/as sabem que final de ano é loucura na vida de professor.
Professor e escritor se transforma então em loucura multiplicada.
Você está sempre cansado de um cansaço de quem se sente realizado. Trabalho e trabalho.
Falar para estudantes, outros professores e professoras, encontrar o público em eventos de educação.
Conversas e pessoas interessantes que sempre lhe ensinam algo sobre o humano.
Alguém diz que é sua fã, outro que lhe viu na TV noutro dia, outra que jura que aquele minilivro que você escreveu na verdade foi obra de algum espírito (que você foi apenas um "veículo"). Papos sobre filosofia, política, adolescência. Fotos e fotos, e eu jamais consigo fazer o tal sorriso tradicional mesmo estando rindo interiormente.
Meu livro sobre o Nietzsche é redescoberto, volta a vender na "cola" do atual.
Muitas professoras alegres com um livro sobre uma experiência de sala de aula. Surpresas e risos das pessoas ao lerem as perguntas no livro.
Todo mundo tem uma impressão para compartilhar, uma dica, um olhar. Muitos/as me dizem que já estão esperando o próximo livro, dão dicas de temas e títulos...sempre imaginando uma sequência para este.
Mas "A Caixa de Perguntas" está apenas no início de seu caminho.
Mais uma vez percebo que meu texto chega aos chamados "neoleitores". Quase todos os dias escuto alguém dizer que foi o primeiro livro que leu até o fim. Ouvir isto é uma alegria particular dos escritores.


(Minha mãe observando com atenção o livro)


(Na TVE, com a tradicional flanela xadrez...hehe!)

27 novembro 2013

Ele disse muito bem

"Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira".

Quem disse isto?
Quem cometeu esta heresia contra os bons homens do livre mercado?
Olivio Dutra, o último petista de esquerda? Pepe Mujica, o grande presidente uruguaio? Fidel Castro, com seu abrigo da Adidas? Slavoj Zizek, o filósofo revoltado?

Não...nada disto.
Quem se manifestou assim foi o Papa Francisco.

Os discordantes que atirem a primeira pedra.



25 novembro 2013

Um peixe metálico

Há fábricas de dias que virão.
Neruda

Em Isla Negra estão os restos do grande poeta. De frente para o Pacífico encontrou ele sua melhor morada. Ali mesmo, onde vivo abraçou-se com o mar revolto e conversou com as gaivotas.
O quarto de Pablo e Matilde era uma extensão do mar. Não se sabe bem se os estrondos ouvidos naqueles tempos eram os ecos daquele grande amor ou os rugidos do monstro marinho. 
A única demarcação de espaços entre a poesia e o mar é dada pelos sinos. Eles continuam lá, mas já não badalam. Sem o toque do poeta parece que morreram de tristeza. No entanto, correm boatos de que crianças que visitaram a casa viram um velhinho de boina tocando um sino quando o sol foi dormir.
Quando fui na casa de Neruda ouvi Gracias a la vida tocada ao piano. Sentado na areia grossa e multiforme - que foi tapete para seus passos - desejei o mate da mulher ao lado. E disse “gracias” ao meu próprio desejo. E por estar vivo joguei uma moeda e um pedido na fonte.

A casa do poeta é um lugar de peregrinação do sonho. Tudo nela é mar. Pedras, plantas, miniaturas de barcos engolidas por garrafas, belas carrancas de navios fantasmas, instrumentos de marinheiros devorados pelas sereias. 
Naquela casa senti-me como um peixe metálico flutuando em um de seus poemas.

21 novembro 2013

Mais uma canção


Esta noite fui ao pré-lançamento do documentário "Mais uma canção", sobre o grande Bebeto Alves.
Muito bom! Sexta, 22/11, ele começa a ser exibido em um dos cinemas da Casa de Cultura Mario Quintana.
Não deixem de assistir! Música de primeira, a história do cara, encontros e depoimentos, Porto Alegre de outros tempos, belas imagens de uma volta às raízes (dele como artista e da música brasileira): Marrocos, Lisboa, Espanha, Uruguaiana... Fotografia de primeira e qualidade de som do filme impecável.
Bem montado, o documentário não te deixa cansar. E consegue em certo momento ensinar o espectador sem cair em didatismos sem interesse. Mas ao mesmo tempo há um refinamento, análises de quem entende e fez/faz parte do universo da música e da indústria da música.
Sobre os bons tempos em que o Araújo Viana era aberto a todos e a cidade pulsava cultura, Nelson Coelho de Castro sentencia: "Nós não queríamos ser felizes sozinhos". Beleza pura!
Bebeto Alves é o nome de uma geração, da qual eu sou um irmão mais novo.
Daqueles artistas que você ficava admirando e pensando em ser assim quando crescesse. Crescemos e continuamos admirando.
Para falar dele, podemos utilizar sem medo a fórmula raulseixista da "metamorfose ambulante". Se alguém que nunca ouviu o Bebeto me pedir para indicar uma música, eu ficaria com muitas dúvidas. Você pode encontrá-lo no mais puro rock and roll, no pop, na música eletrônica, nas milongas.
Bebeto Alves nasceu na fronteira e sua arte insiste em provar que as fronteiras não existem. Tanto que fico no Facebook "curtindo" suas fotos e pensando com os meus botões: "Que viagem! O cara que faz essas fotos maravilhosas é o mesmo que faz a minha cabeça há tanto tempo com sua música".
Acompanho o trabalho dele desde que eu era um garoto de 14 anos. Trabalhava de domingo a domingo e me sentia animado com a vida escutando "Depois da chuva". Sim, não vamos morrer depois da chuva...em pleno domingo. Sou um sobrevivente, como diz a música que tantas vezes me fez chorar.
É sempre tempo de começar tudo de novo, caminhar, tatuar o mundo com novas pegadas. E pelas esquinas desta vida nos encontrar, porque como bem sabe o Bebeto "somos um bando e muitos outros".


Espero que no DVD haja uma edição com todas as músicas completas. Puro deleite.

14 novembro 2013

A menina dos autógrafos

Uma menina chegou na sessão de autógrafos e me observou em silêncio. Olhou-me com um ar de reconhecimento. 
Perguntei como havia conhecido meu livro. Isadora é seu nome. A avó, que estava com uma criança pequena no colo, relatou (cansada pelo calor) que a neta havia insistido muito para ir na Feira do Livro.
"Ela é muito curiosa, e adorou a caixa...insistiu pra vir conhecer o senhor!".
Mas de onde ela me conhece? Pergunto. "Do jornal".
Explico que as perguntas que aparecem no livro, boa parte delas, não são para crianças de 9 anos. A avó diz que tudo bem, que a família tem muito bom diálogo.
A menina sorri feliz. É o melhor presente que um escritor pode receber, o melhor reconhecimento.
Então pedi para o fotógrafo registrar este momento. 
Que a pequena Isadora tenha um caminho lindo, repleto de livros e perguntas!




Foto: Miguel Costa



11 novembro 2013

Chove fora do aquário

     Jamais dei um passo em público que não comprometesse: é esse o meu critério de ação correta".
                                                                                                                                                                                           Nietzsche


Quando uma grande empresa comprou o Correio do Povo, pensei que o primeiro a sair seria o Juremir Machado da Silva.
Mas eles foram bem mais inteligentes do que eu imaginei. Não só o mantiveram, como ele passou a escrever diariamente no jornal.
Juremir é um dos jornalistas que goza de maior liberdade para se expressar, o que seria tolo desdenhar neste mundo vigiado.
Inventou para si uma metáfora e o poder de fogo de um "franco-atirador".
Ele está sempre envolvido em livros, produzindo, criando. É um cronista que pode argumentar com tranquilidade analisando a história, juntando os cacos do dia a dia e fazendo como que uma genealogia.

Hoje tive a alegria de participar do programa Esfera Pública, que é comandado por ele e pela competentíssima Taline Oppitz. Queridas pessoas. Ela tem a melhor voz do rádio (e provavelmente a melhor fora dele também).
Fiquei escutando o Marcelo Branco falando sobre marco civil da Internet. Aprendendo. Estava em luta pela liberdade de expressão, então já de cara estamos de acordo.
Dentro do aquário chamado Estúdio Cristal podíamos ver a rua lá fora, a chuva que engolia a cidade. Os guarda-chuvas anunciavam os anos cinquenta (embora estivéssemos em 2013) e as pessoas caminhavam apressadas rumo à  Rua da Praia do século passado.
O cinza da rua pintava um tom intimista no estúdio. Me senti em casa, num café.
Enfim, um belo momento.



Reinventar

Hoje faltei ao trabalho, por não conseguir chegar nem perto da Restinga.
Ficamos 1 hora e meia rodando pela cidade, passando por MUITOS alagamentos e tentando um caminho de volta.
É claro que chuva forte é problema. Mas excesso de asfalto também é. De lixo que não é recolhido ou é mal recolhido.
Enquanto sobra água e sujeira, falta prefeitura.
Ao contrário de muitas pessoas amigas, não acredito que o povo da cidade mereça estes que nos governam.
As pessoas não votam mal porque são "burras" ou sei lá o quê. Elas são pressionadas pelo poder econômico, pelo excesso de propaganda.
E, no vazio da política, acabam votando "neste que tá aí mesmo"...
Acho que isto também ajuda a explicar porque experiências como a Caixa de Perguntas chamam tanto a atenção. Estamos numa carência extrema de democracia, de participação de verdade.
Este teatro dos políticos é um engodo, um faz-de-conta que já não convence nem seduz a ninguém.
Precisamos reinventar a política.

09 novembro 2013

Entrevista ao programa Cidadania

Entrevista ao programa Cidadania da TVE no dia 5 de novembro, sobre meu livro "A Caixa de Perguntas: Desafio vivo em sala de aula" (Editora Libretos).
















07 novembro 2013

Boa onda

Estes dias têm sido de muitas alegrias, pelo livro e pela forma como ele tem sido recebido.
Eu poderia escrever um livrinho apenas com impressões de encontros, entrevistas, e-mails e as centenas de mensagem que tenho recebido.
Hoje, em uma das entrevistas, pude ter um retorno da boa vendagem do livro.
A entrevistadora me disse que escolheu alguém, ao acaso, que estava circulando pela Feira do Livro. Ela perguntou quais livros a pessoa estava comprando. E a entrevistada tirou da sacola o livro "A Caixa de Perguntas". Era uma professora e foi logo falando o título.
Um bom termômetro de que o caminho do livro está sendo muito bonito.
Há um ditado popular que diz que "uma desgraça nunca vem sozinha".
Pois o mesmo é verdade quando as coisas estão dando certo.
Então vamos pegar essa onda boa e surfar nas alegrias (que todos nós merecemos).

06 novembro 2013

Primaveras

Construímos sonhos. Levamos nossos mais nobres sentimentos para passear nas praças. Ar livre. Sol para as generosas idéias. Bandeiras e música. Muita música, porque um outro mundo não pode se fazer ao som das engrenagens. 
Nos diálogos diários e no balançar do ônibus uma nova conquista. Mais companheiros na nau colorida das transformações. O país dos jovens. Adolescência crivada de flores, adornada com estrelas. Tudo que foi quimera agora se torna imediato. O dia será hoje. Não há mais séculos a esperar. Somos mais fortes que essa história bruta. Vem, pega minha mão. Se me deres um beijo haverá mais um motivo para minhas lágrimas.
Quando despertamos, algo estranho embaçava nosso olhar. A História era mais forte do que imaginávamos. Os que antes podíamos mirar fundo nos olhos agora já estavam bem longe, pequeninos em frente a tolos aglomerados. E o que se disse não era bem assim. Quem é o inimigo? “O inimigo sou eu? O inimigo é você?”As palavras são trancafiadas em palácios. E sufocam. 

Hora então de reinventar as palavras, reacender as primaveras.



01 novembro 2013

Livros, feiras e camelôs

O novo livro está à venda nas livrarias, na Feira do Livro de Porto Alegre, na Internet (Livraria Cultura, Estante Virtual).
O preço é acessível (20,00) e o tema é interessante. Além disto, ficou bonito pra caramba! Claro que sou totalmente isento para opinar...hehe!
E a partir do dia 4 de novembro, na cidade de São Leopoldo (RS), também poderá ser encontrado nos camelôs!
Os livros precisam estar em todos os lugares.


28 outubro 2013

Ao meu herói japonês

O japonês Sadao Tabira tinha 12 anos de idade quando a bomba atômica explodiu sobre a cidade de Nagasaki.
A maioria de seus parentes e amigos morreu naquele fatídico 9 de agosto de 1945. Foi o maior de todos os crimes.
Pois o garoto não desistiu.
Insistiu, apesar da fome e das privações.
Se tornou bombeiro para salvar vidas, e depois da aposentadoria começou a participar de maratonas. Parar nunca esteve em seus planos.
 Hoje, em Porto Alegre, ganhou várias medalhas no Campeonato Master de Atletismo. Ele está com 80 anos de idade!
Ele diz que tomou para si a responsabilidade de viver tudo aquilo que seus amigos não puderam viver. Não esqueceu das vítimas, nunca deveríamos esquecê-las.
Para ele eu dedico (singelamente) as alegrias deste dia.
E a borboleta amarela que voava pela sala dos professores.
Se um garoto faminto e triste pode sobreviver a uma bomba nuclear,
por que não haveríamos nós de sobreviver aos pequenos e grandes absurdos deste nosso tempo e lugar?


23 outubro 2013

Vôo 41

Na fila de embarque rumo ao vôo 41.
Em desacordo com algumas normas ortográficas, eu as desacato.
Tão distraído com algo que estou produzindo, que até chego a pensar que amanhã é feriado. Doce ilusão. E por ser doce eu a abraço com toda a vontade!
Venha a mim ela e seus véus.
Acabo de ler um texto que fala da alegria de existir como
resposta à tristeza imposta pelo poder.
E pensando em alegria e resistência, me deparo com um vídeo de uma criança (filhinha de um casal de ex-alunos) contando a história da independência do Brasil, ao seu jeito.
As crianças nos ensinam muitas coisas. Também a alegria.

18 outubro 2013

Chico Buarque

E como não admirar um cara como o Chico Buarque?
Quantos sujeitos famosos no Brasil estão dispostos a dizer "eu posso estar errado", ou (como ontem) pedir desculpas publicamente a alguém?
Há uma nobreza neste cara que não tem nada a ver com o fato de ter grana, fama ou vir de uma família de classe média alta.
Se tivéssemos uma elite deste porte seríamos outro país.

Ao invés disto temos uma "elite" tosca, bunda-mole, cheia de dinheiro e vazia de tudo mais. Uns boçais como o governador do Rio, que vai a Paris com o dinheiro dos outros tomar champagne de 2 mil dólares e tirar fotinho com guardanapo de restaurante na cabeça...e junto dele uma catrefa de empresários tão sujos quanto ele.

11 outubro 2013

E a caixa virou livro

Para que vocês agendem desde já, faço aqui o convite para a sessão de autógrafos do meu livro "A Caixa de Perguntas", no dia 10 de novembro (domingo), 15h, na Feira do Livro de Porto Alegre.
O livro ficou muito bonito, bom de se ler, atrativo. Só as perguntas dos alunos/as já valem a leitura, difícil parar de lê-las...
Espero vocês lá!


07 outubro 2013

Somos todos Amarildo

O desaparecimento do pedreiro Amarildo, no Rio de Janeiro, levado de sua casa e torturado por policiais militares, escancara um Brasil quase invisível para quem não é da periferia.
O Brasil dos desaparecimentos, da prisão ilegal, da tortura. 
As vítimas são geralmente pessoas pobres e negras, porque no Brasil a condição social e a cor da pele influenciam nas possibilidades de você ser vítima de uma polícia treinada para proteger alguns e reprimir muitos.
"Somos todos Amarildo" é o grito de todos e todas que não estão de acordo.
Quem luta por um pais mais justo e menos desigual não pode silenciar.





03 outubro 2013

Marina leva rasteira


Não sou de nenhum partido, nem votei na Marina Silva.
Mas é evidente que há um jogo pesado para tirá-la da disputa.
Um monte de partidos de fachada sendo aprovados, e exatamente o partido dela é o único que não recebe registro.
Enquanto isto, a senadora líder dos fazendeiros se filia no PMDB e vai enfim assumir o casamento entre os destruidores da Amazônia e o PT. Só faltava mesmo o beijo e as fotos, porque o negócio já estava fechado há tempos.
Sem Marina, voltamos ao mesmo esquema: Dilma para ganhar e o PSDB pra perder...Puro teatro para nos dar a impressão de que decidimos alguma coisa.

02 outubro 2013

Professores perigosos




O que aconteceu? Será um sequestro? Prenderam um traficante perigoso? Acertaram alguém no tiroteio? Um foragido da Justiça foi encontrado? Alguém morreu? Quantas vítimas? Os moradores do centro de Porto Alegre apavoraram-se com o que viram passar à sua frente.
O nervoso Grupamento de Operações Especiais andava na contramão com seus homens fortemente armados, sob uma chuva que começava a cair. Foram encontrar-se com o Batalhão de Choque e mais 210 policiais militares, além de seus cães adestrados e carros de combate. O clima tenso parecia preparar-se para um derramamento de sangue.
Os uniformes novos do Batalhão de Choque e seus escudos reluzentes poderiam impressionar até o mais insensível dos assassinos, assim como suas botas enormes prontas para esmagar o inimigo. Sorte dos bandidos que toda essa força e esse aparato policial não é colocado contra eles. Senão eles veriam que o mundo do crime não compensa.
Todos esses homens e essas armas foram colocados em frente ao palácio do governo para protegê-lo desse grupo perigoso dos professores, quer dizer, professoras (a maioria são mulheres). Sim, nunca se sabe o que professoras em greve estão tramando. Essas senhoras com cara de anjo podem estar carregando bombas. Vejam essas sinetas estridentes, o que garante que não sejam no fundo armas?
Mas o maior perigo desta gente vem de suas bocas. Em outros países resolveram unir-se com jovens visionários e todos sabemos no que deu. Por isto é melhor que o governo mantenha a sociedade livre desta ameaça, pagando-lhes vencimentos miseráveis e evitando que nossa mocidade receba suas más influências. Para tanto, o patrocínio de programas televisivos e o uso da força policial se tornam medidas necessárias.
Professores são extremamente perigosos porque podem perturbar a paz social. Por vezes insistem para que nossos filhos leiam livros, escrevam, pensem por conta própria. Que absurdo! Não há necessidade de ler. Não há necessidade de pensar. Só necessitamos de gente que trabalhe em silêncio para o crescimento do país. E assim poderemos servir de modelo à toda terra.

Elenilton Neukamp, professor de Filosofia


[Este texto foi publicado há alguns anos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e infelizmente volta a ser atual..de uma maneira ainda mais bruta]


01 outubro 2013

Os velhinhos

Estava na fila do caixa de uma farmácia quando senti que alguém se apoiava em meu braço. Minha sobrinha Mariana me olhou assustada, acompanhando lentamente o desequilíbrio de um velhinho. Por sorte, meus reflexos foram rápidos e impediram que ele se chocasse contra o chão. No dia seguinte, diante de meus olhos, outro senhor tropeça em um pedaço de calçada mal cuidado e acaba também tendo sua queda evitada por mim. Não tive dúvidas, os velhinhos pediam para entrar no meu texto.
Vivemos em um país contraditório, que envelhece na mesma intensidade que cultua uma suposta superioridade da juventude. Segundo dados do IBGE em menos de 30 anos o Brasil, paraíso das cirurgias plásticas, terá a maioria da população de pessoas maduras, que chamamos idosas. O raciocínio é simples: diminuem os nascimentos e a população envelhece. Alie-se a isto os avanços consideráveis da medicina que tendem à aumentar cada vez mais a expectativa de vida, e a popularização crescente de informações acerca dos cuidados com a saúde.
Aliado a um culto tolo à estética superficial vem o preconceito, sobretudo nos grandes centros. No interior do Brasil são os aposentados que mantém com suas aposentadorias a economia de famílias e cidades inteiras, o que lhes confere maior respeitabilidade. Nas grandes cidades, reféns da cultura do imediatismo e do consumismo, os velhinhos são vistos como estorvo, possivelmente porque não conseguem acompanhar a velocidade de uma sociedade neurótica que não consegue parar.
Outro dia vi um motorista de ônibus reclamando de um senhor que, segundo seu limitado raciocínio, deveria escolher outro horário para pegar o coletivo. Em outras palavras o que ele dizia é que há um horário para quem faz parte do jogo e outro para quem está fora. Enquanto se consome assim em sua própria estupidez, não percebe que a geração que hoje exclui os mais velhos é exatamente aquela que amanhã será vítima da exclusão que ajudou a produzir.

Mas há um movimento que o próprio passar do tempo ajuda a construir. Uma outra cultura, ainda incipiente, começa a tomar vulto e se delineia nos “bailes da terceira idade” dos círculos populares e na afirmação e robustez da produção intelectual realizada na academia por pensadores por vezes já na casa dos noventa. Enquanto a cultura da velocidade e das emoções baratas mata nossos jovens, os velhinhos nos chamam à reflexão e nos ensinam a sagrada arte de ouvir. Ouçamos então.

Elenilton Neukamp

30 setembro 2013

Notícias da província de Porto Alegre

Porto Alegre cada vez mais provinciana e atrasada.
Enquanto o mundo todo pergunta "Onde está Amarildo?" 
e a polícia do Rio joga spray de pimenta em professores...
a Câmara de Vereadores dá título de cidadão emérito para quem?
Para o secretário de segurança do Rio de Janeiro!

26 setembro 2013

Um par de sapatos

 
Já falei aqui que passeio todos os dias com a Míti.
Falo com toda pessoa que dirige a mim a palavra ou o gesto, sem preferências. Aprendo mais nestes encontros casuais do que aprenderia se assistisse televisão.
Hoje se aproximou um rapaz desde logo pedindo desculpas por existir.
Disse que não iria pedir dinheiro, nem estava ali pra "chinelear" ninguém. Porque chinelear não adianta de nada. O cara se queima, se suja, vai parar na cadeia e coisas assim.
Só queria um par de sapatos.
"Sim, porque este aqui já tá todo aberto". Ele tirou o tênis e mostrou a meia que acabara de ganhar de um vizinho da redondeza. Os pés deformados por alguma enfermidade. E um casaco, "que é pequeno, pro meu filho...mas tá legal assim mesmo".
É portador do vírus HIV, que por vezes ele chama de AIDS (o nome que imitamos dos americanos).
Falou em posto de saúde, no cantinho onde dormiu nos últimos dias com o filho. Disse de uma procura por emprego, da identidade perdida que não deixa entrar no albergue. Porém nesta parte da conversa seus olhos fugiram de mim.
Mas gostei sobretudo da sua sinceridade.
Sou este que está na tua frente, sou assim mesmo e não faço de conta. Quero apenas um sapato. Assim me pareceu a sua apresentação.
Pois subi até os confortos do meu sétimo andar.
E até eu, a pessoa mais simples que você conhece, tem um par de sapatos que nunca usa e que está ali ocupando espaço e deixando de aquecer os pés de alguém.
Então vou ao guarda-roupas. Dois minutos rápidos enchem uma sacola com blusão, moletom, calça etc.
Surgem até roupas para sua mulher, que já estavam separadas ali ao lado.
No caminho de volta um par de tênis doado pela zeladora.
Ele diz seu nome e pergunta o meu. Aperta minha mão com vontade e agradece. Tratamo-nos como iguais que sabemos que não somos, e nos despedimos com um "até logo" que nenhum dos dois proferiu.

Nas minhas pequenas utopias não há pessoas morando nas ruas.

25 setembro 2013

Batman foi preso!



Enquanto o mundo inteiro pergunta "Onde está Amarildo?",
a polícia do Rio prende manifestantes que usam máscaras.
E eles foram presos pelo simples fato de usarem máscara.
Podem prender Batman, o Super Homem, a Mulher Maravilha e até cometerem
o sacrilégio de colocarem a mão no Chapolin Colorado.

Mesmo assim, seguimos perguntando onde está o pedreiro Amarildo.
E há rumores de que a máscara do governador Cabral não sai mais,
já se tornou seu próprio rosto...

24 setembro 2013

Pink Floyd (capas)

Genial.






[Não tenho os créditos da foto]

A bunda exposta na janela

Quando eu era pequeno, a gente ria dizendo "não confunda funda com bunda".
Leio algumas pessoas criticando a Dilma pelo discurso na ONU.
Não confundam oposição ao PT com oposição ao Brasil.
Também sou crítico do pt, mas ela está certíssima em "bater" nos Estados Unidos. É o que deve fazer, senão não poderia ser minimamente respeitada como autoridade que é.
Penso até que poderia ser mais ousada, e oferecer asilo político ao ex-agente que denunciou este esquema (bandido) de espionagem. Mas entre minha vontade e as condições reais de ação são outros quinhentos.
O Brasil não é o mesmo de trinta anos atrás. Não podemos analisá-lo como se estivéssemos nos anos setenta ou oitenta. E isto vale "para o bem e para o mal".
Quem gosta de ser espionado pelos americanos é que critica o Brasil, neste caso.
De minha parte, estou com o Gonzaguinha: a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela!



[Foto: Stan Honda/AFP]

21 setembro 2013

Sociedade Alternativa


     Este arranjo para a clássica música do Raul é de se respeitar.
E a sociedade alternativa está dentro de cada um e de cada uma de nós,
nas possibilidades que inventamos a cada dia.
Longe da petrificação dos mitos e da camisa-de-força do conservadorismo.





20 setembro 2013

20 de setembro

Sete horas da manhã. Saio com a Míti pra rua.
Meu vizinho sai de casa, com seu amigo tão bêbado quanto ele.
Me cumprimenta à distância e logo sai cantando:
"a aurora precursora do farol da liberdade...".
E os dois bêbados saem pela rua aos berros:
"serviremos de modelo a toda terra!"... Tropeçam um no outro.
Eu voltando com minha cachorrinha (assustada com a gritaria), e ouvindo ao longe
os gritos que seguiam "de modeeelooo...de modeeelooo..".
Para mim, este é o melhor resumo do significado desta data.
Dois bêbados cantando suas façanhas imaginárias.

18 setembro 2013

Justiça com classe

Não deveria nos impressionar tanto uma Justiça lentíssima para julgar quem tem poder.
É a mesma Justiça de sempre, julgando com classe.
A classe alta.
Para quem pode pagar bons advogados sempre haverá argumentos, embargos, desvios, interpretações e belos discursos.
Isto independe se o sujeito tem uma estrela no peito, um tucano, uma pomba da paz ou se acabou de matar a própria mãe.

09 setembro 2013

Lorottachenko premiado



Nosso filme "Lorottachenko" recebeu os prêmios de melhor montagem e originalidade no Festival Primeiro Filme, organizado pela Prana Filmes e Santander Cultural. A noite de premiação foi em 06 de setembro.

Na foto (da esquerda para a direita): Elenilton, Thayná, Juliano, Mateus, Leandro (sentado), Eric, Tiago.




Abaixo, com o cineasta Carlos Gerbase (idealizador do projeto):


08 setembro 2013

Esquerdas direitas

Tudo bem que a esquerda brasileira tenha "entrado numas" de criticar os Black Bloc e tantos outros movimentos que estão surgindo.
Mas este papo (de novo!) de golpe, sugerindo que estes jovens sejam "agentes infiltrados" e "bonecos da direita"...já está cheirando a paranoia. Torra a paciência de quem tem mais de dois neurônios (devidamente funcionando).
Quando os que se reivindicam de esquerda e os reacionários de plantão começam a repetir o mesmo discurso, eu é que já não consigo mais distinguir quem é quem. Quero dizer, quem é mais reacionário.
Desfile de 7 de setembro já cheirava a mofo quando eu era criança. E poucos além das crianças ainda lhe dão algum sentido maior que o divertimento de assistir algo.
Tosco demais ver os antigos rebeldes "revolucionários" tentando reanimar esta prática pra lá de ultrapassada.
E ainda pior: tentando desacreditar quem sai às ruas para questionar o estado das coisas.
Sófocles estava certo. Para conhecer realmente uma pessoa, basta lhe dar o poder.

02 setembro 2013

Entre estrelas e reacionários

A julgar pelo tipo de crítica preconceituosa e conservadora que sofre, o PT vai ficar mais uns 20 anos no poder. O que não é um bom cenário para quem aposta em transformações mais profundas.
Imagino como deve ser fácil estar no poder com uma "oposição" como essa, que envolve
médicos de elite, uma classe média nostálgica de um passado que nunca existiu, a imprensa sensacionalista, os partidos sem força nenhuma etc.
Ainda por cima tendo um Fernando Henrique como antecessor, fácil de bater.
Espero que surjam outros atores até o próximo ano, e que aconteça um debate de verdade sobre o Brasil.
Isto seria bom para todos/as.
Se o cenário se mantiver, Dilma se reelege facilmente. E os "anti-pt" se tornarão ainda mais raivosos e chatos.
E quem não está nem num extremo nem noutro, continuará neste tédio.
Às ruas, então.

01 setembro 2013

Guerra não!

Não existe guerra boa.
Há 10 anos atrás, com a desculpa de que existiam armas de destruição em massa, os EUA invadiram o Iraque. Destruíram boa parte do país, mataram centenas de milhares de pessoas.
O Iraque melhorou? Não! Ao contrário, o país está deteriorado e em constante guerra civil. Isto apenas para citar o exemplo de um país.
Eu não ficaria surpreso se descobrissem, agora, a mão do governo americano neste caso das armas químicas na Síria.
E nem interessa de que lado elas vêm - não há anjos em nenhum deles. Ditador sujo de um lado, e outros sujos querendo ocupar o lugar e ditar.
Me espanta ler estas "pesquisas" ou "enquetes" de jornais brasileiros, onde a maioria de seus leitores se diz a favor de que os EUA ataquem a Síria.
Imagine-se um morador de Damasco, uma pessoa comum.
Na cabeça de quem você acha que vão estourar as bombas americanas?
Quando Obama foi eleito, lembro de comentar a importância simbólica de um negro presidente do país mais poderoso. Mas ao mesmo tempo ressaltando que pouco ou nada iria mudar. A indústria bélica é quem manda.
Então Obama é mais um boneco fazendo o jogo. Inventando outra guerra suja para ganhar mais dinheiro. Simples assim e, infelizmente, verdadeiro.
NÃO à guerra, sempre!


31 agosto 2013

A Globo pediu desculpas

A Globo está arrependida.
A sua resposta para as manifestações de junho é admitir que seu apoio ao golpe militar foi um erro.
Entretanto o erro da Globo é retórico.
A carta de arrependimento mais tenta justificar do que esclarecer o erro.
Que erro foi esse? A responsabilidade da rede Globo é imensa sobre o que aconteceu naquele período, e de resto sobre quase tudo que virou verdade até hoje.

O que você vai ler aí abaixo é um documento histórico. Do dia de hoje.
A partir de agora vamos ver até onde vai esta história. A história.


Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro:




29 agosto 2013

Águas trágicas

Fico vendo aqui as imagens que meus ex-alunos/as postam no Facebook
e volto trinta anos na história, me vejo andando de "caíco" (barco) nas ruas
da vila Campina, em São Leopoldo (RS).
Só quem já viveu o drama das enchentes tem noção do tamanho da tragédia.
De sair de manhã cedo, no inverno, com a água gelada chegando na cintura,
carregando uma caixa de papelão com seus animaizinhos dentro...arranhando seus braços porque estão apavorados.
O desespero das famílias, a água chegando na altura da sua cama, o cheiro terrível da lama quando a água enfim baixa. E cobras, sapos e aranhas aterrorizando o seu despertar.
Não é moleza ser pobre, meu velho.
Mas hoje contente em perceber a solidariedade, as pessoas juntando suas roupas pra doar e ajudando quem precisa. Ajudantes anônimos ou não que surgem para carregar o que dá tempo.
Penso que sempre foi assim, ao menos na periferia, onde nunca falta uma mão amiga.
E vamos seguindo.
O cheiro da umidade e os dias de chuva forte me jogam automaticamente àqueles dias, em qualquer lugar, e acho que será assim até o fim.

No atraso

Que a "moral" dos políticos está abaixo da sola do sapato, todo mundo sabe.
Mas sobre a não cassação do deputado preso, há que lembrar algumas coisas.
A maioria dos que estavam lá votou pela cassação. Quem faltou à votação colaborou para que ele não fosse cassado, e aí falamos de 14 deputados do Rio Grande do Sul.
Este deputado Donadon é da chamada "bancada evangélica", que tem mais de 70 deputados. Eles votaram em peso a seu favor, e conseguiram mais alguns votos.
O que será que fariam os eleitores (imagino eu, evangélicos) se soubessem que seus deputados ficam lá em Brasília defendendo gente condenada por corrupção e outros crimes, como estupro?
Esta mistura entre poder religioso e poder político sempre foi bem complicada.
Espero que no próximo ano não tenhamos que assistir a outro fiasco, como aquele estrelado por Dilma e Serra na última eleição. Cada qual tentando ser mais mentiroso que o outro, abandonando seus passados e ações em nome de uma pauta "religiosa" e conservadora que nos mantém no atraso...


27 agosto 2013

Professor é preso por atentado ao pudor

Professor foi preso por atentado violento ao pudor.
As cenas são fortes, por isso pense bem antes de clicar no play.
Ele era muito querido por alunos, colegas e famílias.
Até que um dia um menino chegou em casa em estado de choque, revelando o que o professor havia lhe mostrado...





23 agosto 2013

quarto período

A mãe, estudando, tira os olhos da tela do computador e se volta para o filho:
- Por que período "helenístico"?
Ele assume um tom formal, e responde sério:
- Quando eu tinha aula com o professor Elenilton eu tinha período elenístico, sempre no quarto período...
Depois disto não conseguiram mais parar de rir. Ela não seguiu estudando.

E eu estou aqui imaginando a cena (que aconteceu mesmo) e rindo também.


um som para Nietzsche


Certa vez Nietzsche se referiu à música como sendo uma de nossas possíveis redenções.
A vida sem música não faria nenhum sentido para mim. Mais ou menos assim ele disse.
Devia ecoar em sua mente algo belo assim.

22 agosto 2013

Médicos

Venho da periferia, senti literalmente na carne o que é não ter atendimento médico.
Então, se são cubanos ou americanos que virão, pouco importa. As cidades de "fim de mundo" deste Brasil gigante (que nunca viram um médico) certamente os receberão com festa.
Talvez falte a muitos médicos brasileiros a noção do país que vivem, do abismo social que nos separa.
 As discussões ideológicas não resolvem a necessidade urgente de milhares de pessoas. Quem precisa de atenção e de cuidado espera encontrar diante de si um profissional atento, humano.
Penso que estas polêmicas todas estão ajudando, ao menos, para chamar a atenção sobre vários absurdos. A precária situação do atendimento de urgência nos hospitais públicos é um problema dos governos, com certeza.
Mas médicos que não cumprem horário ou tratam o serviço público como "bico", são problema também das entidades médicas. Há uma certa hipocrisia em discursos que tenho escutado.
Um exemplo do que me refiro é um determinado líder de associação médica. O sujeito aparece na tevê criticando "os médicos cubanos", a precarização etc. Questiona a falta de preparo e a formação destes médicos que virão ao Brasil. Até aí tudo bem. O detalhe é que seus dois filhos são formados em medicina. Em Cuba.

21 agosto 2013

Não há por que se preocupar

Um idoso morre sem atendimento, 
mas só vira notícia porque a televisão estava lá.
No HPS técnico de enfermagem denuncia (desde 2008) absurdos do tipo:
médico que sai no meio do plantão,
 ou vai para a Serra e deixa o filho (sem formação) atendendo por ele.
E na Procempa 50 milhões roubados, 
e pacotes de dinheiro voando nos pátios das casas dos denunciados.Mas não há motivos para preocupação. 

O prefeito de Porto Alegre garante que as obras da Copa estão todas em dia 
e serão entregues nas datas previstas...



18 agosto 2013

A louca noite de Van Gogh

Um detalhe de "A noite estrelada", de Van Gogh (1899).
Uma das pinturas que mais me toca, provavelmente porque adoro noites estreladas. No detalhe o movimento, a intensidade genial de quem se apega com tudo à vida mesmo estando internado em um manicômio (segundo o que sei, é onde ele estava quanto pintou este quadro).





Outras obras e detalhes delas podem ser encontrados em
http://twistedsifter.com/2013/07/detailed-close-ups-of-van-gogh-artworks/


15 agosto 2013

Cuidado com o Eixo

Não acredito num mundo dividido em bons e maus, verdadeiros e falsos.
Nenhuma informação posso dividir sobre estes rapazes do Fora do Eixo.
Mas pela violência com que são atacados por setores reacionários como a revista Veja, começo a desconfiar que estão fazendo algo interessante.
Quando alguém ou alguns começam a fazer a diferença e ameaçar as posições que certas figuras ocupam, rapidamente se tenta desconstruir sua imagem pública.
Foi assim com o Julian Assenge do Wikileaks (escrevi corretamente?) e tantos outros.
Devagar, então, e cuidado com a fonte da informação.
Revista Veja é fonte apenas para quem acredita num mundo onde a diferença deve ser exterminada.
Não se enganem, se estivéssemos na Alemanha nazista a Veja seria a revista oficial do regime.

A Veja é o Eixo.

13 agosto 2013

Túnel do amor

"Túnel do amor", na Ucrânia.

Um sonho tornado realidade ou 


o real disfarçado de sonho?





08 agosto 2013

Triste São Paulo

São Paulo, pelo seu tamanho e importância, é nosso centro nervoso.
Esta família assassinada é uma tragédia pra lá de simbólica. Demonstra o que há de mais sinistro na nossa construção como sociedade.
Enquanto o governo paulista mergulha nos escândalos de corrupção, um menino de 13 anos é acusado de assassinar os próprios pais.
Corrupção e violência são irmãs.

No mesmo batalhão onde trabalhavam pai e mãe (policiais), há quatro anos o então comandante foi morto em uma emboscada . O tenente-coronel investigava um grupo de extermínio composto por policiais que ele comandava.

Em meio às investigações do crime dos últimos dias, o atual comandante afirmou que a mãe do garoto havia denunciado colegas seus (policiais) por roubos de caixas eletrônicos - insinuando que este poderia ser o motivador da chacina.
Hoje ele misteriosamente mudou a versão, mas se recusou a falar com a imprensa novamente.

Seja qual for a verdade deste caso, é evidente que a polícia que temos hoje no Brasil não serve mais. Precisamos de inteligência para combater o crime e não de uma força armada treinada para combater inimigos potenciais.
Quando bons policiais (sim, eles existem) começam a sentir vergonha de falar em suas corporações, então algo muito sério está acontecendo.
Quem acha bonita a ideia de que "bandido bom é bandido morto", deve se dar conta que está apoiando chacinas como esta.
Os mesmos policiais que se sentem autorizados a sair matando em nome "dos cidadãos de bem", irão se sentir protegidos para fazer qualquer coisa (inclusive matar seus próprios colegas, se necessário).

Fui um dos primeiros no país a divulgar no Facebook aquela famosa foto da Folha de São Paulo, onde aparece um policial jogando spray de pimenta em um cinegrafista durante uma manifestação em junho. No dia seguinte, uma enxurrada de comentários de policiais paulistas exalava ódio. Muitos eu excluí, para preservar meus alunos que poderiam ter acesso àquilo.
O mais tranquilo dizia que ao invés de spray o policial deveria ter uma espingarda calibre 12 carregada...
Eu vou pelo caminho contrário: precisamos de muitos outros cinegrafistas, e não nos servem mais as espingardas carregadas nem o spray de pimenta.

Aqui da província observo com preocupação a pauliceia desvairada.

31 julho 2013

Futebol


Você percebe o quanto uma sociedade está atrasada
quando a discussão mais "polêmica" e "séria" (com direito a manchetes de capa de jornal) é o jogo de futebol de domingo...se deve haver uma ou duas torcidas e blá-blá-blá.
Penso que já gastam demais nosso dinheiro (público) com tudo isso.
Os clubes riquíssimos e a população pagando policiamento, estrutura, terrenos, isenções fiscais.
O futebol é popular, tudo bem. Mas isto não justifica tanto estardalhaço.
Aliás, como entretenimento para ser assistido no próprio local, até "popular" ele deixou de ser. Os ingressos agora são apenas acessíveis à classe média.
Um bom início seria utilizar estas centenas de policiais que ficam nos estádios
para outros fins. As vilas, por exemplo, são há muito tempo território dominado pelas quadrilhas e a população vive sob o medo constante.
Por que Inter e Grêmio, clubes riquíssimos, não pagam sua própria segurança? Por que eles mesmos não financiam obras no entorno de seus estádios?


29 julho 2013

Lorottachenko - A entrevista

Eis aí o nosso filme.
Produção coletiva dos alunos e alunas da escola Dolores, coordenados por mim.
Espero que vocês gostem.
Rimos muito.




Coisas da vida e outras alegrias

Essas coisas da vida.
Escolhi o feijão e fiquei impressionado com a beleza das cores. Tudo misturado. Pretos, cariocas, rajados, vermelhos etc. 
Domingo, em Santa Catarina, um encontro inusitado com o Paulo Paim (que segue o mesmo cara acessível e simpático). Ele se revelando também insatisfeito me surpreende. O senado é um clube luxuoso, onde a insatisfação é extremamente rara e muitas vezes paga com o ostracismo.

Ontem um maluco aqui da rua me interpelou. Há alguns, de várias intensidades e loucuras. Quando passo com meu filho ele grita num tom sincero: "Como é lindo o amor entre pai e filho!". Fico pensando que há algo de confessional nesta sua fala, como um pai ausente ou um filho que não pode ser visitado. 
Ontem ele veio caminhando rapidamente ao meu encontro: "Hei...o senhor que é educador". Olha o jeito bonito que ele me saudou.
Converso com os malucos, as freiras e o morador de rua aqui da esquina. Não tenho defesas anti-gentes e nem quero tê-las. Possuo esta cara de professor de filosofia, então as pessoas imaginam que há algo mais do que um cara magrinho passeando com sua cachorrinha, ou com a cachorrinha e o filho. Nas suas fantasias acabam criando boas questões e surgem mesmo belas conversas. Vocês acreditam que há pessoas que me param e perguntam coisas do tipo: "Tu é professor de filosofia, né? Então me diz o que é que tu pensa sobre Deus? Deus existe ou não?". Coisinhas básicas assim. 
Também empresto e dou livros. Dizem que há dois tipos de idiota, aquele que empresta livros e aquele que os devolve. Se isto é verdade, então geralmente as pessoas que me pedem livros não são nada idiotas. Mas tudo bem, o importante é que os livros circulem por aí, já que seu destino é serem lidos.
Ele veio me perguntar o que achei do Papa.
E me surpreendeu. Meu vizinho de rua, tem uma formação de fazer inveja. Leu Goethe, Nietzsche, Santo Agostinho, Kafka. Citou de memória um fragmento zen budista, leu a Bíblia e tem dela interpretações altamente criativas e interessantes... Também logo me identificou com o existencialismo, o que demonstra o quanto é perspicaz e atento.
Me disse que esteve muitos anos com os jesuítas, mas foi expulso porque "era muito louco e bebia todas".
Impressionou-lhe a simplicidade do homem culto (o Papa) falando nos mais pobres. Lhe disse que gostei de um fragmento que ouvi de uma televisão ligada: "não trago ouro nem prata...mas a disposição para o diálogo".
Sim, é verdade, "gente é outra alegria".










25 julho 2013

O Papa pop

Nas férias assisto TV. É uma boa maneira de não fazer nada da vida. Nem é preciso pensar, eles fazem isso pela gente.
Vejo um papa (pop) e inteligente saudado por milhares na rua, exaltado por uma Globo entusiasta. E outros tantos na frente do palácio real na Inglaterra, aquele mesmo palácio cercado por grades de ouro (ouro retirado do Brasil).
Carnaval aqui e lá.
O Brasil conquistou o mundo. A carnavalização da vida se espalhou. E isto é só constatação, não vai aí nenhuma crítica.
Melhor o carnaval para o Papa do que gente na rua exigindo "cura gay" ou a proibição do divórcio.
Mas é sempre bom lembrar: o Estado deve ser LAICO.


09 julho 2013

Greve geral, "só que não"

Vou participar deste movimento de quinta por respeito à decisão da maioria.
Mas não aposto nenhuma ficha nele. Me cheira a protesto "chapa branca", porque nem o nome de greve querem colocar. Medo de que, medo de quem?
Os sindicatos, em geral, se tornaram correias de transmissão do governo. Cargos e grandes programas gerenciados pelas burocracias sindicais.
Ao contrário do que agora querem nos fazer crer, antes é que éramos anônimos nas passeatas. Uma massa anônima atrás de um caminhão de som e de uma bandeira.
Me senti bem mais animado nas passeatas do mês de junho. Me animam as várias propostas e reivindicações, a diversidade, nem de longe me lembram fascismo (como a militância oficial propagou). Fascismo é a fé cega, o silêncio servil, a certeza bem paga.
Há muita gente com medo de povo no Brasil. Na direita e na esquerda o medo da democracia é grande. Para algumas pessoas, "democracia" é quando todos concordam com o que eu penso. O inverso é mais verdadeiro.
Muito preconceito contra os jovens, isto sim está bem espalhado por estas terras. Até mesmo vindo de sujeitos nem tão velhos assim (ao menos em relação ao tempo de vida). As pessoas fazem 40, se sentem com 120 e pregam uma moral de 200 anos.

Participei das greves gerais dos anos oitenta. Recebi desconto no salário. Humilhações. Numa das vezes fui o único a parar. Em outra fui parar no Juizado de Menores. O PT era um partido de esquerda e a CUT era contra os governos e patrões.
Eram outros tempos, melhores em alguns sentidos e piores em outros. Era bom ter um partido de esquerda forte, sindicatos que realmente representavam. Mas não vamos ficar chorando sobre o leite derramado. É hora de construir outras formas de organização. Que formas são estas? Também não sei. Sou filósofo e não profeta. Sejamos criativos. Nada de ficar só reclamando da vida. Criação, gentes. Invenção.

Perguntar não ofende: o Tarso Genro vai colocar a polícia de choque na rua quinta? Já acabaram as bombas de gás lacrimogênio vencidas? Se acabaram, alguém já providenciou a compra das novas?


Elenilton Neukamp