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17 março 2011

O blog milionário de Maria Bethânia

Ao contrário do que o Jorge Furtado está dizendo, o dinheiro que a Maria Bethânia está buscando (1 milhão e 300 mil!!) é dinheiro público sim. Indireto, mas público.
As empresas patrocinam o blog dela, e depois esse dinheiro é integralmente descontado do imposto de renda delas. Ou seja, renúncia fiscal por parte do Estado.

Ela quer mais de um milhão de reais para criar um blog. Um blog que terá um vídeo diário dela declamando uma poesia. Que maravilha. Para isso, ela irá receber 5o mil reais mensais! Sim, 50 mil reais por mês durante um ano inteiro para declamar poesias. Isto apenas para ela.
Se este dinheiro viesse de patrocinadores que não irão descontar no imposto de renda depois, ótimo. Eu seria certamente um dos apreciadores do blog da Bethânia. Mas com dinheiro público não. Aí vira sacanagem, privilégio.

Pessoas como eu, que lecionam em escolas públicas, sabem muito bem o quanto faltam investimentos em cultura nas periferias do Brasil. Nem estou falando em salário de professor, nem em material pras escolas. Falo em espaços culturais nos bairros pobres. Cinemas. Teatros. Centros de Cultura. E mais: apoio aos artistas de circo, aos teatros mambembe que ainda insistem em viajar pelos interiores do Brasil. Aqui no sul temos o lendário Teatro do Teleco. Eles tem apoio estatal? Patrocínio? Que nada! A lona é toda furada, as cadeiras em cacos.
Enquanto isso, a quase septagenária (e rica) cantora recebe milhões. É correto? Para quê? Estão faltando tapetes em sua mansão à beira mar?

Pergunto: é justo?

Um blog você cria gratuitamente em menos de 10 minutos.
Você ama (como eu) poesia e quer divulgá-la na Internet? Ora, até uma filmagem com câmera digital fica com uma boa resolução em um blog. Basta ter uma camerazinha mais ou menos.
Não precisa de cineasta da Globo Filmes nem de orçamento milionário.

Sendo menos formal e mais direto: o que estamos observando é a velha jogada dos privilegiados do Brasil, mamar nas tetas do Estado.
E não interessa se ela é uma grande intérprete ou não. Malandragem é malandragem em qualquer esfera.
Ser um bom artista não melhora necessariamente o caráter de ninguém. Aliás, acusações contra Bethânia e os "doces bárbaros" vêm de longe. O jornalista André Forastieri afirma existir o que ele chama de "Máfia do Dendê", capitaneada por ela, Gil e Caetano, que controlaria boa parte do que é produzido e veiculado no Brasil.

Em outros tempos, o também baiano Raul Seixas acusava este mesmo grupo de controlar os locais de apresentação em Salvador, num suposto esquema. Ao falar de Gilberto Gil, por exemplo, Raul era taxativo. Quando o ex-ministro da Cultura resolveu entrar na vida pública, Raul não perdoou: "O Gil sempre foi um prostituto".

É claro que não estamos falando - eu e todas as outras pessoas que se indignaram diante deste caso - da competência artística de Maria Bethânia. Sua obra é recheada de pérolas da MPB, ela e os outros acima citados são mestres da música brasileira. Por isso, a reação de alguns fãs da cantora soa como algo infantil. Afirmam eles que as críticas vêm de pessoas ressentidas e invejosas. Isto é uma tolice, e nem serve como argumento. Chegamos a um ponto tal de alienação, que o fato da pessoa ser famosa e "aparecer" lhe torna imune à críticas, pelo menos aos olhos de muitos.

Com um milhão e trezentos mil reais poderíamos lançar centenas de poetas, publicar milhares ou milhões de livros. Isto sim seria incentivar a poesia!
Quanta gente boa com seus livrinhos guardados na gaveta, sem um puto tostão para publicar...

Mas estão lá em volta dos organismos públicos os velhos privilegiados de sempre, a mesma casta que se supõe dona da cultura do país. Os verdadeiros malandros, no pior sentido que possa ser dado a esta expressão.

A Bethânia é agora o alvo, porque ficou na berlinda. Mas todos sabemos que não é só ela.
Também receberam incentivos milionários outros tantos que não precisariam.
Na administração do baiano Gil no Ministério da Cultura, Ivete Sangalo recebeu mais de um milhão para gravar um DVD. Assim como Cláudia Leite e a própria Bethânia. Coincidência?

Atualmente, Marisa Monte irá receber em incentivos quase 5 milhões de reais para fazer 4 shows acompanhada de uma orquestra. Os shows depois serão transformados em um DVD.
Pergunto: ela precisa?
E novamente: é justo?

O Brasil precisa pensar sobre tudo isso.
E abandonar a ideia de que incentivar a cultura é dar dinheiro a quem já tem muito, concentrando cada vez mais os recursos e os esforços sobre alguns poucos privilegiados.

8 comentários:

  1. já vi propaganda de blogueiros vendendo seus respectivos blogs pela metade do valor. eu faço por uma quarta parte o meu, de boa, hehe.

    mas brincadeiras à parte, a questão é se projetos no mesmo molde seriam aceitos se não fosse pra quem foi. a ideia de patrocinar cultura via internet é ótima, mas creio que o que vc apontou é pertinente para discussão: quanto um tipo de "cultura" vale mais do que outros? bom, teremos bethânia grátis e o ano todo, com o nosso dinheiro, portanto gostaria de aproveitar a deixa e pedir possibilidade igual ao bb king, ou ao grupo de circo instrumental da paróquia do além judas, ou ao nosso grupo de dança da escola.

    Senão for assim, ou ao menos se não se fizerem claros os parâmetros utilizados para conceder a possibilidade de renúncia fiscal, deixe que este dinheiro venha aos cofres públicos e seja aplicado em algo mais palpável.

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  2. Talvez o nosso "anônimo" tenha argumentos bem interessantes para defender essa baixaria de desvio de dinheiro público para artistas famosos.
    O problema é que ele é tão sábio que não precisa argumentar com estes seres ignorantes, medíocres e miseráveis como nós...

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  3. cara, nem considero mais comentários anônimos... aliás, bani do meu blog. qualificar a discussão sabe? é praxe aqueles que tem pouco a acrescer se esconder no anonimato, sempre foi assim.

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  4. É verdade.
    O fascismo é um bom exemplo. O sujeito some no meio da turba, fica violento, bandido mesmo.
    Na multidão é um anônimo, tudo pode.
    Também vou fechar o caminho pra esses anônimos sem argumentos...

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  5. Do Juremir, no blog do Correio do Povo.



    Velhos baianos e novos ACMs

    Brasileiro é brasileiro.
    Todo brasileiro é um rei. Sabem, não é?
    Todo brasileiro quer mamar: deitado, sentado, de ladinho, de costas, de barrigona para cima.
    Maria Bethânia é brasileira.
    Logo, Bethânia quer leitinho.
    Quer tetinha, quer sugar o dinheirinho do povão. E o povão somos nós.
    Blog de poesia devia ser proibido.
    A poesa de Baudelaire, o melhor de todos, está na rede. De graça.
    Como gastar um milhão e trezentos reais num blog de poesia?
    Só pagando os leitores.
    Talvez seja o único jeito de fazer alguém ler poesia atual.
    Os novos baianos são agora velhos ACMs: querem teta.
    E Bethânia deveria ter saido no carnaval cantando a velha marchinha: "Mamãe eu quero..."
    Bacana é ler os defensores da Maria Mamadora Bethânia:
    Onde já se viu falar mal da rainha Bethânia?
    O governo deveria patrocinar o seu blog!
    E vamos lá: dá a chupeta, dá a chupeta...
    Bethânia já foi a nossa vaca sagrada.
    Agora quer ser a nossa bezerra profana.
    Mamãe eu quero...

    Postado por Juremir Machado da Silva - 19/03/2011

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  6. Deixei passar mais de uma semana, salvo no meu blog, para falar do caso da Maria Bethânia. Com o passar dos anos, vamos ficando mais cautelosos. A pressa é inimiga da reflexão. Costumamos ser muito duros com o Brasil. Temos um certo orgulho masoquista de pensar que o pior só acontece aqui. Achamos que o Brasil é o país da impunidade enquanto nossas cadeias estão abarrotadas. Claro, de pobres. Até há pouco, os conservadores iam aos microfones dizer que tínhamos a maior carga tributária do mundo, o que sempre foi falso. Hoje, são obrigados a falar que é a maior se pensarmos na relação custo-benefício. Também isso é discutível. E o blog da Bethânia? Ninguém precisa de dinheiro para fazer um blog.

    O legal da Internet é exatamente isso: cada um é dono de um meio de comunicação sem precisar gastar muito. Ou até nada. Se Bethânia quer fazer um blog, não precisa de incentivo. Se quer ganhar dinheiro com um blog, aí são outros 500. Neste caso, poderia buscar um patrocinador disposto a bancar com o seu dinheiro, não com o nosso, os seus ganhos. Aqueles que foram novos baianos viraram velhos brasileiros e passaram a ter vontade de mamar. Não faz muito, condenava-se o assistencialismo, mas não as leis de incentivo cultural. Por que mesmo o Estado deve abrir mão dos seus impostos para que artistas realizem suas obras? Por que mesmo uma obra artística deve ter prioridade em relação a problemas como falta de hospitais? Essa pergunta é populista? Leis de incentivo existem em todos os países desenvolvidos.

    Faz sentido uma lei de incentivo para artistas consagrados como Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano Veloso? Por que o Estado deveria transferir o dinheiro dos nossos impostos para as contas de cantores bem-sucedidos que cobram ingressos caros para shows que lotam? Há uma pergunta mais importante: por que artistas admirados e ricos pagam o mico de buscar apoio em leis de incentivo que deveriam favorecer autores e obras sem recursos e necessitando de uma alavanca? É aí que um certo Brasil entra em cena. Perde-se a generosidade e a noção da própria grandeza. Gilberto Gil saiu do Ministério da Cultura e pediu apoio para um projeto seu. Obviamente que é mais fácil ter êxito quando se é influente e conhecido. Obviamente que uma empresa preferirá associar seu nome a uma marca forte deixando de repassar dinheiro para o governo. É marketing com dinheiro do contribuinte. O Brasil da teta é esse aí.

    A Internet, contudo, é um ótimo terreno para empreendedores e para pessoas com alto capital simbólico. Pensemos num caso aleatório. Um jogador famoso, por exemplo, Ronaldo Fenômeno, faz um site fechado. Quem quiser ter acesso ao seu conteúdo tem de pagar R$ 10 por mês. Para apimentar, ele conta em doses homeopáticas segredos da sua carreira: o que houve realmente na final da Copa do Mundo da França, as razões da sua separação de Daniela Cicarelli, etc. Pequenas confissões. Um milhão de interessados entram no jogo e pagam para ver. Em um mês, ele ganha R$ 10 milhões. Paga os impostos, bota 30% no bolso e doa o resto para obras sociais. Em vez de sugar a sociedade, ajuda-a. Chovem patrocinadores e novos ganhos.

    Juremir Machado da Silva

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