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31 dezembro 2010

Amizade

Abrindo o novo ano com um textinho do meu livro "A Caixa de perguntas e outras histórias de aprendiz" (ainda não publicado)...


O amor do amigo


Em volta do fogo de chão e junto dos velhos homens que bebiam mate e contavam casos, o jovem Atahualpa Yupanqui ouviu da boca de um deles uma das mais belas definições do que seja a amizade. “Um amigo é a gente mesmo com outra pele”, disse um dos velhos. O menino, que seria depois um criador de preciosidades poéticas, carregaria para sempre essa frase consigo. E junto dela a imagem dos velhos trabalhadores em círculo.

O amigo, esse ser que multiplica o espelho da minha alma, como disse Vinícius de Moraes que, décadas depois (e sem fogo algum que o calor do Rio de Janeiro) reunia os amigos. Dizem que sua casa vivia repleta e que sem eles o grande poeta não podia suportar a vida. Vinícius abria suas portas a artistas da palavra e da música, e dessa generosidade e das amizades criadas surgiram muitos dos melhores momentos de nossa cultura. A amizade como poderoso motor de criação.

Nossos amigos às vezes desconhecem o quanto os amamos. Mas sentem de alguma maneira nosso carinho e afeto, porque têm aquela sensibilidade, aquela coisa a mais que diferencia o verdadeiro amigo dos demais.

Há amigos com os quais nunca conversamos, nem um “oi”, mas sentimos uma cumplicidade no olhar que não há ciência que consiga explicar. Fica algo no ar e a certeza escondida de que daqui a um tempo (um mês, dois anos...), uma coincidência qualquer nos coloque uma situação comum. Então paramos e nos conhecemos, em palavras.

Algumas pessoas encontramos apenas de tempos em tempos. E vem então aquela impressão de que não estavam longe, de que a saudade foi apenas um engano. Por vezes acreditamos percebê-las à distância e enviamos mensagens imaginárias, para uma dimensão incerta, na esperança que do outro lado da cidade ou do mundo estejam nos ouvindo.

Quando visitamos um amigo que há muito não vimos, ele logo reclama nosso sumiço. Mas sabe que em todo lugar nos dizem isso e que compreendemos pouco, muito pouco, das distâncias e dos dias que vão e vêm assim tão rápido.

Tem a amiga que sonha poder voar como os pássaros, ouvindo lá do alto o eco das vozes vindas com o vento vagabundo e indiferente. Tem o amigo que, brincando com a água viva encontrou-se com a morte. E aqueles outros, invisíveis, que se foram há séculos mas deixaram seus livros (que ainda iluminam). Lembro bem daquele perturbado amigo, que abaixou-se na chuva e fez uso de uma poça d'água para diluir a química ardente que lhe invadiria as veias.

Entro na casa do velho amigo. Ou do novo amigo velho. Sala perfumada de livros, odor inigualável. Onde habitam os grandes iniciados e seus pensamentos vivos. Alguns amigos, como ele, moram onde a arte caminha como trepadeira pelas paredes. E outras, como a velha amiga, vêem em mim realizados os sonhos que sonharam para si. (...)

Todo dia é dia do amigo. Então, já que hoje é dia dele, não será demais deixá-lo com estas palavras, e terminar com a loucura poética e amiga de Nietzsche: “Existe realmente, aqui e além na terra, uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo que dois seres experimentam um pelo outro dá lugar a um novo desejo, a uma nova cobiça, a uma sede superior comum, a de um ideal que os ultrapassa a ambos: mas quem é que conhece esse amor? Quem o viveu? O seu verdadeiro nome é amizade.”


Elenilton Neukamp

06 dezembro 2010

Érico

Este é o Érico.
Ele nasceu no dia 24 de novembro.
É sagitariano.
Os pés ligeiros que cavalgam sobre as certezas móveis da Terra.
O corpo esguio de homem com suas lutas para viver e mudar a vida.
E o arco retesado de sonhos,
lançando as flechas afiadas da utopia.

Teu lugar é de lucidez? De líder? Rebelde, tranquilo, resignado?
Tudo isto só a ti cabe.
Escolhe.
A mim cabe a vigília, o cuidado.
Os braços que te carregarão quando dormires
e que apontarão para ti as estrelas.
Eu irei te ajudar a ver o mar,
quando teu olhar emocionado nele mergulhar.

18 novembro 2010

Érico e a lua

A lua está ficando cheia
e logo você vem

será que também
cheguei numa bela noite
de primavera?

eu e a Míti
saímos a ver
o vento
e a sentir
a lua

nos diz ela
que você vem chegando

e que tua cabeleira
vem ornada de estrelas

teus dons todos
se abrindo
e recebendo o dia


vi o teu ser
e fui ver
o sol

a pele da tua mãe
se morenava
em largos goles
de crepúsculo

te esperamos.

14 novembro 2010

O Amor (parte I)


“Quanto mais o amor me transpassar, quanto mais violentamente
me fizer arder, tanto melhor me vingarei das minhas feridas” (Ovídio)

Os deuses fizeram uma grande festa, onde apenas a deusa Penia (Pobreza), miserável e faminta, não foi convidada. Mas, ao final da festa, Penia aparece, come os restos e dorme com o deus Poros (Riqueza) sem que ele compreenda o que está acontecendo. Da relação dos dois nasceu Eros (Cupido), que como sua mãe está sempre sedento e faminto mas, como seu pai, tem sempre astúcia para se satisfazer e se fazer amado.
O amor, assim, é representado como a ânsia de sair de uma situação de penúria para uma de riqueza, a oscilação entre possuir e não possuir; algo que não se tem e se deseja ter, ou se tem ainda que não se saiba; o que se quer viver e não se vive ou o que se está vivendo sem perceber.
Em outro mito, Eros é filho de Afrodite e Ares. Vive flechando os corações para apaixoná-los, mas acaba ele mesmo se apaixonando por Psiqué (Alma). Sua mãe, com inveja da beleza de Psiqué, afasta-a dele e a submete a duras provas e sofrimentos, dando-lhe como companheiras a Inquietude e a Tristeza. Novamente aparece o amor como união de elementos opostos, ou como nas palavras de Sócrates no Banquete: “É capaz de desabrochar e de viver, morrer e ressuscitar no mesmo dia. Come e bebe, dá e se derrama, sem nunca estar rico ou pobre”.
Para Platão, Eros deve subordinar-se a Logos, ou seja, o amor subordina-se à razão. A razão é mais forte que a paixão e a comanda, ao contrário do que sugere a música de Tom Zé: “Amar, amar/ceder ao coração/a razão...” Já um filósofo como Nietzsche vai num caminho distinto do de Platão. Deixar a razão comandar, diz ele, é uma estupidez, atitude de fracos que temem o poder avassalador de seus próprios instintos, de sua força vital. Para ele, bom é tudo o que fortalece o desejo da vida e a razão não deve intrometer-se e ditar regras. Mas será mesmo assim? Será que é a própria razão um problema? Ou será que devemos guiar-nos por ela e controlar nossas paixões?




(Na foto, o casamento de Fernanda e Jordi. Porto Alegre, outubro de 2010)

Robótica Dolores


Parabéns aos alunos do grupo de Robótica da Escola Dolores, que irão nos representar na etapa nacional da Olimpíada Brasileira de Robótica, em São Paulo. Parabéns à professora Vera Sotério, que coordena, organiza e "puxa" o grupo...
A ida se dá a partir do resultado da participação do grupo no Torneio FLL Regional FEEVALE Smart Move (em Novo Hamburgo, no final de outubro), do qual tive a alegria de acompanhá-los.


(Na foto, prof. Vera sendo entrevistada em evento anterior)

01 outubro 2010

O pesadelo

"O pesadelo" é um curta-metragem produzido por um grupo da turma C12 da escola Dolores Alcaraz Caldas, de Porto Alegre. O grupo foi organizado por mim, mas a escolha do roteiro, enredo, etc. ficou por conta do grupo.


No YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=yOI2ZqU0XtY

23 setembro 2010

Primaveras

“...todo jornal que eu leio/me diz que a gente já era/
que já não é mais primavera/oh, baby, oh, baby/
a gente ainda nem começou...” (Raul Seixas)

No final dos anos oitenta um sopro de primavera parisiense passeou por nossas ruas. Como bom caminhante, dobrei com ele minhas esquinas. E fizemos movimentos. E paramos o trânsito. Piquetes sob a chuva que trancavam as portas da madrugada à força de um abraço apertado. A energia, a mágica e envolvente energia das multidões unidas em um só grito. “Fecha! Fecha! Fecha!”, e as portas baixando. Corre, não respira porque isso daí é gás lacrimogênio! No trabalho os colegas rindo e chamando o rapaz de sonhador. Entra o gerente geral: “O que é isso escrito no seu rádio?” Um adesivo improvisado. Brasil Urgente, Lula presidente. “O senhor pode passar no departamento pessoal”. O senhor de quinze anos é demitido mas não se dobra. Ah, se todos ao menos uma vez na vida pudessem sentir aquela sensação de poder, aquela liberdade, aquele abrir o peito assim no meio da rua... Aos trinta e tantos ele caminha em vastas e amplas calçadas carentes de gentes re-unidas, escandalosas em suas urgências. Mas agora o Brasil deixou de ser urgente. E o gerente geral vai dormir, feliz com o seu presidente.


Construímos sonhos. Levamos nossos mais nobres sentimentos para passear nas praças. Ar livre. Sol para as generosas idéias. Bandeiras vermelhas e música. Muita música, porque um outro mundo não pode se fazer ao som das engrenagens. Nos diálogos diários e no balançar do ônibus uma nova conquista. Mais companheiros na nau colorida das transformações. O país dos jovens. Adolescência crivada de flores, adornada com estrelas. Tudo que foi quimera agora se torna imediato. O dia será hoje. Não há mais séculos a esperar. Somos mais fortes que essa história bruta. Vem, pega minha mão. Se me deres um beijo haverá mais um motivo para minhas lágrimas...
Quando despertamos, algo estranho embaçava nosso olhar. A História era mais forte do que imaginávamos. Os que antes podíamos mirar fundo nos olhos agora já estavam bem longe, pequeninos em frente a tolos aglomerados. E o que se disse não era bem assim. Quem é o inimigo? “O inimigo sou eu? O inimigo é você?” As palavras são trancafiadas em palácios. E sufocam. As palavras morrem porque sugam seu sangue.
“E já não se sabia mais quem era humano e quem era porco”.

Estamos no século vinte e um. Mais ávidos que nunca pela criação de outras primaveras.

20 setembro 2010

No twitter

http://twitter.com/LeleNeukamp

Netos, filhos, esposas... Os parentes de políticos que são candidatos dão um ar ainda mais lamentável à eleição. Trapaça em família.





O mais triste desta eleição é que a política morreu. Não existe discussão, debate, porque os partidos são apenas aglomerados de interesses.





O mais engraçado desta eleição será ver esta nulidade chamada Fogaça voltando para casa. Deixa um rastro de desmantelamento na educação.





Um aspecto positivo da pessoa Marina Silva: é vegetariana. Vegetarianismo é mais coerente com quem defende o meio ambiente.

13 setembro 2010

Fim do caminho para Fogaça


O semblante dele diz tudo. Fim do caminho.
Enquanto esta escola de menos de 400 alunos recebe atenção, dezenas de outras
amargam a falta de professores, a ausência de guardas municipais, nenhum projeto consistente da secretaria municipal de educação etc.

Fogaça deixou a prefeitura numa situação difícil. Na rede municipal a falta de mais de 200 professores, além do sucateamento geral.
Este semblante fechado fala mais que mil discursos.
Fim do caminho para Fogaça.
E o que fica de sua administração? Paradas de ônibus que dão choque, ruas esburacadas, praças atrolhadas de lixo. Ah...e o trânsito sem gerenciamento, caótico!
A cidade está mais feia e menos verde, porque as áreas de vegetação estão sendo rapidamente destruídas.

E os pobres aluninhos ali servindo de figurantes…



(Foto: Nabor Goulart)

03 setembro 2010

Leituras sobre Nietzsche e a Educação


Este é um livro, recém lançado, que traz textos sobre o Nietzsche e as relações da filosofia dele com a educação.
Um dos artigos é meu: "O professor Nietzsche e a educação".
Quem tiver interesse no tema e no livro, mande e-mail para leleneukamp@yahoo.com.br. Tenho alguns exemplares a preço de custo: 12,00 mais o correio...que dá algo como 15 reais.

26 agosto 2010

Adeus Porto Alegre

Porto Alegre agora é Porto Cinza. Porto fumaça. Porto alergias, rinites, tonturas. Adeus qualidade de vida, árvores. Adeus, adeus...





O temível futuro chegou. Queimadas na Amazônia cobrem o céu de Porto Alegre de fumaça. Dia 9 de agosto caiu chuva ácida na cidade.





Situação é crítica. Precisamos, acima de tudo ,consumir menos. Produzir menos lixo. Diminuir este ritmo tolo de "crescimento" para a morte.

22 agosto 2010

Pense antes de votar (3)

video



Terceiro videozinho da série Pense antes de votar.
A ideia é pensarmos sobre temas importantes, temas políticos,
já que os grandes partidos políticos fazem de tudo para
despolitizar a eleição. Parece mais disputa de qual é a melhor propaganda,
quem manipula e ilude mais...
Pensar sobre o país sempre é necessário, e a eleição é um momento privilegiado
para isto.
Então vamos fazer isto sem partido, sem campanha, talvez até (como alguns que me leem) com o coração partido.

21 julho 2010

A ética e o cocô do cachorro




Todos os dias saio com minha cachorrinha. Ela precisa fazer seus passeios diários, e suas necessidades também. Levo sempre no bolso uma sacolinha plástica. É simples. A Míti (este é o nome dela) faz seu cocô e eu junto-o com a própria sacola, que irá para o lixo.
O que deveria ser regra torna-se exceção.
Os adolescentes da rua, quando me veem fazer isso, trocam olhares e risos. É muito engraçado ver um sujeito limpar a sujeira de seu cão.
Os mais velhos, muitas vezes, me param na rua e dão conselhos. Você sabe que conselhos eles me dão? “Pare de fazer isso..ninguém limpa, porque você deveria limpar?”. Os outros não fazerem a coisa certa é então argumento para que eu também não deva fazer.
Outro dia, estava eu juntando o cocozinho da Míti em frente a uma casa, quando o dono saiu rapidamente. Pensei que iria reclamar. Que nada! Tentou me persuadir a não limpar a sujeira já que, segundo ele, já havia muito cocô espalhado pela calçada e não haveria por que eu fazer isso.
Estranho mundo este em que vivemos, onde as pessoas tentam lhe convencer a não ser educado e a não respeitá-las.
Hoje mesmo, num pequeno espaço de grama ao lado de uma casa, fui novamente surpreendido. A Míti fazendo aqueles movimentos todos de preparação, e eu já com a sacolinha na mão. De repente ouço um grito: “Não! Não precisa juntar não!”. E eu tentando me explicar: “Ao menos um juntando já faz uma diferença”. O senhor que me lançou a palavra seguiu: “Pois é, se todo mundo tivesse a educação que vocês têm o Brasil seria outro!”.
Sim. Aí está a questão. Vacilamos no pequeno gesto. E o que chamamos de ética acontece nas pequenas coisas do dia a dia. Ninguém limpa, ninguém pensa no outro que pode passar e sujar os sapatos, nada acontece – e a merda (literal e simbólica) se espalha pelo país.
Meus vizinhos de classe média julgam-se detentores da verdade quando criticam os políticos, por exemplo. Mas levam seus enormes cães de raça para fazer sujeira em frente à casa dos outros. Certamente não é apenas neste ato que contradizem a tal “ética” que cobram dos outros.
Logo teremos a eleição. Como votarão as pessoas? Certamente pensando na generalização do erro, do desvio. Por que escolher um bom representante se a maioria deles não presta? Mais fácil seguir as pesquisas que nos empurram, e fingir que o mais lembrado é o melhor.
A aceitação de que agir pensando no coletivo é equivocado não representa uma “inversão de valores”, como muitos dizem. Os valores é que são outros, infelizmente.
Assim, tudo passa a valer. Inclusive mandar matar a amante, picoteá-la e jogar o cadáver aos cães (isto apenas para citar o exemplo mais absurdo).
Como disse o Saramago em seus últimos escritos, precisamos mais do que nunca de filosofia no mundo atual. Filosofemos então.


(Foto: Míti no Farol, janeiro de 2010)

14 julho 2010

Albertos

Dois Albertos

Meu pai me apresentou os pássaros.
Meu tio me ensinou a ler os seus voos.
Alberto é um nome que faz parte da minha carne.
Sete letrinhas.
O dionisíaco de um com seu violão, a cachaça e as canções
inventadas para fazer sorrir.
O apolíneo do outro, iluminando com a lanterna pinheiros misteriosos
e saciando minha curiosidade com suas palavras e livros.
Um é loucura, delírio, desejo escorpiano de vida e paixão.
Outro é sensatez, tranquilidade, celibato e meditação sobre a técnica.
Entre um e outro, eu.
Em minha sensatez toda insensata desaprendi a tocar o violão.
Em minha insensatez quase sensata ainda nem escrevi o livro, não inscrevi parte de mim nas veias da terra.
Místico sem fé.
Vagando entre momentos solitários e lençóis coloridos.
Comigo a língua portuguesa quer ir pro brejo.
Os dois Albertos. Alentos.
Entre um e outro
Eu.

01 julho 2010

Pequenos livros e grandes pessoas


Lançamento do minilivro "Anko e Ruth: à sombra das nogueiras" de Elenilton Neukamp
Dia 6 de julho, às 19:30h - em comemoração aos 8 anos da Editora Nova Harmonia
no Villa D'Assisi em São Leopoldo
Av. João Corrêa, 896 2º andar (esquina com Marquês do Herval)
Fone: (051) 3037 3370
Vem conhecer o livrinho e provar um delicioso licor de nozes.
Vamos nos encontrar lá pra conversar sobre o minilivro, os livros, o Saramago...
Estará conosco o Antonio Sidekum, um grande filósofo e amigo.

22 junho 2010

a foto


Foto de Carolyn Kaster

A mosca


A mosca pousou na face do rei.
Ela queria provocar, denegrir, incomodar?
A mosca sentou sua bunda suja na cara do presidente.
Era rebelde, renitente, debochada?
O que queria nos dizer a mosca ao pousar no rosto de Obama?
Que ele precisa acordar
ou que ele já está apodrecendo?

18 junho 2010

Jesus de Saramago


Algumas palavras, a partir d'"O Evangelho segundo Jesus Cristo", escritas há tempos. Em homenagem a Jose Saramago e sua incansável ousadia em dizer não.



JESUS DE SARAMAGO

Jesus de Nazaré, desde teu silêncio de milênios, fala-me do teu suplício. Sei que é bem verdade que o Diabo bem melhor teria pensado teu futuro. Mas foi um deus perverso e frio que assim o quis. Que tu morresses com os braços esticados e as promessas perdidas. O som das vaias e os gritos da multidão. O sangue gotejando um novo tempo e o vinagre lambendo teus lábios. Ou será tudo uma grande invenção? Jesus de Saramago, envolto em medalhas e cicatrizes. Vultos e gritos desesperados de dor. Vinde a mim as criancinhas para dizer-lhes que tudo não passa de uma mentira. Jesus Nazareno, figura do deserto. Carpinteiro. Vagabundo. Louco. Messias. Quem tu és? Por que não respondes quando te pergunto? Por que nunca secam as manchas de sangue no teu corpo de cera? A dor que tu sentistes não salvou a ninguém. O símbolo da tua morte passeia por vis pescoços. Penduricalho de ouro ou lata. Fascínoras e infames enriquecem gritando aos ares o teu nome. E no dia que escolheram para teu aniversário passeiam com sua hipocrisia. Jesus da Galiléia, pescador, que nunca escreveu nem criou para si religião. Que não concebeu gravatas nem Vaticanos. Abandonado por todos os deuses, assustado, crucificado. Em teu nome milhões foram mortos. Uns muitos queimados. Outros tantos enforcados. Há ainda os que sofreram nas torturas antes da hora final. E aqueles trespassados pelas lanças e projéteis cristãos. Os reprimidos pelas morais frouxas e inumanas que inventaram em teu nome. As que nasceram, cresceram e morreram cabisbaixas porque diziam que tu assim querias. Os que mandaram matar e depois lideraram a marcha fúnebre aos prantos. Os esbofeteados. Marcados a ferro. Gozando sadicamente a cada chicotada. Mas há também os que estendem a mão. Jesus de Belém, que acaso possas ter pensado qualquer uma dessas grandes e pequenas loucuras. Tudo o que ouvi de ti me veio de alheias bocas, que ouviram de outras e outras e outras. E, por fim, de outras que por este planeta podem nem ter passado. Jesus pintado pelas tintas literárias de José Saramago. Para quem inventaram uma canção chata e monótona que é repetida todos os anos. Por quem discutem, rezam, choram, sonham e matam com toda paixão. Homem rebelde. Maluco. Pacifista. Ser humano indesejado pelos poderosos de ontem. Usado pelos de hoje. Salvador dos dominados. Salvador do dominador. Que segredos poderíamos desvendar sobre tua vida singular se nos fosse possível abrir caminho por entre dois mil anos de criações?

10 junho 2010

A flor da palavra


A flor da palavra necessita ventos límpidos e água branda. Boa terra para desenvolver sua tranquilidade mineral. A flor da palavra estava viva em broto na boca do homem. A flor da palavra despertou os pássaros na pétala da língua da mulher. E subiu nas árvores, e tornou-se fruto e montanha e água e horizonte no dizer das gentes. A flor da palavra se alastrou por todos os lados. Multiplicou e virou planta animal pedra máquina e gente no amarelo dos campos férteis e na erva daninha das cercas. E num terceiro ou último dia subiu aos céus e virou cogumelo de fumaça e desceu à terra e envenenou o alimento do homem e voltou à superfície e moldou mutantes horrendos no ventre da mulher. A flor da palavra desapareceu. E passaram-se muitos e muitos tempos em que de novo foi o silêncio o primeiro a existir. Até que vieram outros ventos fogo água terra barro e um bicho estranho sem saber vomitou no mundo a semente. A flor da palavra rebentou e a Natureza voltou a saber de si.


('A flor da palavra' é um livrinho de poemas em construção)

25 maio 2010

Solidão



Na ilusão de esconder-se da solidão
os homens criaram máquinas
de fazer barulho.
E puseram-se a bater seus enormes tambores.
E amplificaram alto-falantes,
caixas sonoras, bumbos
e bombas.
Tontos, todos eles.
E eu.
A solidão é surda e muda.


Mas sempre há um ser alado
esperando para nos aquecer
nas suas asas amigas.

21 maio 2010

O chimarrão




No início o chimarrão era uma bebida ritual. Invenção dos indígenas daqui. Bebida que energizava e animava. Pura curtição. A tribo toda se alegrava. A Nação em festa pedia bis.
Depois vieram os jesuítas. Consideraram o mate uma droga, um perigo. A erva-mate foi proibida. Não se podia mais beber, assim como não se pode fumar uma outra ervinha que anda fazendo cheiro por aí. Até o Roberto - antes de ser rei - sabia que era "proibido fumar".
Os paulistas viajaram pro sul, conheceram a erva (a de beber) e pediram mais. Os jesuítas liberaram, plantaram e até passaram a vender em grande quantidade. Bom negócio. Nem cana mais dava. Sem quantidades mínimas, à vontade.
Hoje todo mundo bebe seu chimarrão, na boa, e nem precisa dizer "legalize já". Ele ficou tão pop que agora anda na boca de qualquer um.
Nas esquinas se formam grupinhos, em círculos, e vão usando sua erva ritual. Se diz até que o negócio pode ser medicinal.
Lembram da música clássica do Nei Lisboa?
"Entrei numa roda e me deram uma coisa pra provar/uma erva galhuda, esverdeada, e gostosa de chupar/e dá barato sim../vai bem com tudo e é bom pros rins..."

Pois é. Nem só de mate amargo vive o homem. Mas é barato sim.

(Foto de Antônio Sobral/Correio do Povo, 21/05/2010)

17 maio 2010

Os livros


Em outros tempos os livros funcionavam como cartas, endereçados que eram a amigos imaginários. Hoje eles continuam sendo cartas, mas talvez tenham perdido muito do seu poder simbólico. Paradoxalmente, há muitos milhões de pessoas lendo no mundo atual mas o poder dos livros torna-se cada vez mais limitado. Mais leitores, menos leitura encarnada. A literatura continua, os livros continuarão enquanto seguir o bicho humano sobre o planeta. Porém são sempre mais pequenos os grupos onde o ler transforma a vida. O verbo não se faz mais carne.

14 maio 2010

Santa ingenuidade

A Celulose Riograndense doou hoje milhares de cadernos para as escolas de Porto Alegre. Teve até o prefeito lá. E danças em uma escola. Aparentemente isto é algo muito bom.

O que parece boa ação, no fundo é somente propaganda. Esta empresa é uma das maiores poluidoras do rio Guaíba. O nome do lixo tóxico (resultado da produção de papel): dioxinas.
Então os maiores poluidores entram nas escolas, com o apoio dos governos, fazendo ares de bons moços. E falam em preservação ambiental!
Triste ver como os professores ingenuamente entram nessas. E armam até palquinhos nas escolas para empresários e políticos "espertos". E ficam os alunos fazendo papel de figurantes, dançando em frente a tipos como o Fortunati.
Minha escola (a maior de Porto Alegre) está um abandono só. A prefeitura só investe em duas ou três, que irão aparecer nos comerciais de TV. Nas demais, faltam professores, estrutura, atendimentos na rede de saúde.

10 maio 2010

Que castigo?

Que castigo merecem os oficiais da Polícia gaúcha (Brigada Militar) que desviaram 5 mil telhas que seriam destinadas aos flagelados?

a) cadeia, prisão, xadrez (destinada a este e outros tipos de bandidos)

b) trabalhos forçados

c) carregar durante anos, pendurado no pescoço, algum enorme objeto que lembre o quanto são estúpidos, desumanos, horrendos (como na Idade Média)

d) um mês, um ano, qualquer tempo vivendo sem um teto (sem telha alguma sobre a cabeça)

e) que suas casas sejam marcadas, para que não deixem crianças pequenas por ali passarem (evitando assim qualquer tipo de contaminação)

Se você tem outras ideias, não deixe de se manifestar. Aceitamos sugestões.

06 maio 2010

Um beijo


"Os olhos dela eram rios de doçura onde ele poderia atirar-se sem nenhum medo, navegá-los como um marinheiro que se entrega ao mar, entregar-se àquelas correntezas de alegria. Poderia dizer-lhe, como no Cântico dos Cânticos, que desejava beijar os beijos de sua boca."

Trecho do meu livrinho "Anko e Ruth: à sombra das nogueiras".

30 abril 2010

alegria barriguda


Mulher grávida

Quanto sonho pode caber
na barriga da mulher?
Quanto prazer engendrando outro ser?
Que sensação, que delicadeza de formas
recriando o humano?
Na solidão da noite ela vira-se, toca,
acaricia e derrama o leite do seu olhar.
É um deslumbramento só, um deixar-se levar,
uma vontade de sair caminhando
e levar ao mundo todo a boa notícia.
Namorando no espelho uma alegria barriguda.

26 abril 2010

http://novaharmoniaeditora.blogspot.com/

Estou construindo um blog da editora Nova Harmonia, que editou meus livros e tem
vários títulos de qualidade em Filosofia e áreas afins.
Vou tentar fazer girar esse acervo.
Se você está pesquisando ou se simplesmente busca um bom livro,
dá uma olhada lá...

16 abril 2010

Cinema, democracia e escola


Há uma semana participei de um curso com a cineasta paulista Moira Toledo, na sala de cinema PF Gastal da Usina do Gasômetro (em Porto Alegre). O grande número de professores presentes me faz pensar que nem todos estão resignados com nosso marasmo cultural. E uma paulista falante, munida de armas perigosas - microfone e câmera - veio nos sacudir com sua lucidez e percepção; despertando em muitos a "curiosidade epistemológica" de que falava o mestre Paulo Freire.
A luta de Moira, em nível nacional, é pela democratização da produção do audiovisual e do acesso a ela. Venho insistindo nisto há muito tempo, e é o que promovo em minhas aulas de Filosofia. Moira anda pelo país incentivando o "cinema de quebrada", que eu classificaria como um movimento de contracultura.
É um absurdo vivermos em um país com tamanha riqueza e diversidade cultural, e não termos acesso ao resultado prático dela. Isto vale para a música, o cinema, a televisão. Você sabe o nome dos atores que ganharam o Oscar, mas não conhece seu vizinho que gravou um CD ou escreveu um livro. Algo parece estranho nisso.
Este é um tema crucial para a educação: a democratização da mídia, em sentido amplo. Não se pode pensar a construção de uma nação com uma população sendo educada prioritariamente pela televisão (que está nas mãos de meia dúzia de corporações). O tema soa antiquado, mas não menos verdadeiro. A mesma percepção vale para o magistério, na sua responsabilidade de educar. Ou alguém aposta em uma formação realizada por educadores que se reduziram à lamentável condição de comentadores de "realytes shows"?
Dividir com os alunos a produção de filmes pode ser uma experiência profundamente enriquecedora, para todos. Experimentar com eles outros olhares, e proporcionar o acesso à produção cultural nacional faz parte de nossa tarefa tanto quanto a 'transmissão' do saber específico de cada um.
Moira, com seu conhecimento técnico, defende que o contato com o fazer cinema proporciona um outro olhar sobre qualquer produção. Aí incluídos a TV e seus subprodutos.
Mas é na relação entre os envolvidos que se dá a grande transformação. Um grupo que produz um audiovisual aprende a se relacionar, a discutir, a ouvir a posição do outro. Aprende. E o que podemos querer mais, em nossas escolas, senão aprender e ensinar?
Nossa...já estou ficando com medo! Alunos fazendo e aprendendo a ver cinema. Escolas ensinando gente a ser gente. Democratização da informação. Isto já está virando conversa de subversivo.


Abaixo reproduzo o texto "Cinema e educação", que faz parte do meu livro "A caixa de perguntas e outras histórias de aprendiz" (ainda não publicado).

CINEMA E ESCOLA

Num mundo construído pela e na imagem, seria um absurdo a escola se fechar para as possibilidades da arte cinematográfica. Cinema e educação devem ser irmãos inseparáveis. O espaço do cinema e da “sala de vídeo” ou de audiovisual das escolas é um local privilegiado para o aprendizado, para a socialização de saberes. Assistir um filme com os alunos é tão importante quanto ler um livro, um texto, ou fazer uma prova. Chega a ser mesmo impressionante que muitos professores utilizem os filmes como algo secundário e muitas vezes sem a mínima seriedade.
Certa vez fui chamado de “elitista” em uma reunião de escola, por defender que não fossem exibidos apenas filmes de uma certa apresentadora de TV para as crianças. Este tipo de filmes elas já veem em suas casas, não há porque a escola reforçar a sua importância. Me acusaram de rejeitar os “saberes populares”. Retruquei dizendo que estavam subestimando a inteligência das crianças e limitando o acesso delas à cultura. A escola deve favorecer o acesso a outras linguagens, outras formas de expressão que não aquelas consagradas pela grande mídia.
Em meu trabalho de professor, sempre utilizei filmes. Jamais como forma apenas de distração dos alunos ou como algo complementar à sala de aula. Sonho com o dia em que lutaremos pelo acesso ao cinema com a mesma força que lutamos por outras boas causas. Lutar pelo acesso ao cinema é lutar pela elevação geral da nossa cultura. Esta batalha poderia estar ligada à produção nacional de cinema. Os países desenvolvidos há muito já se deram conta disso, e os americanos são mestres em utilizar a tela grande como meio de propaganda.
Para citar um pequeno exemplo, há muitos anos exibo para os alunos (adolescentes) o curta-metragem O dia em que Dorival encarou a guarda, de 1986. Ele é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre, que é especializada na produção de curtas de boa qualidade. Conta a história de um preso que quer simplesmente tomar um banho, pois já é proibido de fazê-lo há 10 dias. Os diálogos são impressionantes e a montagem do filme é perfeita. Os alunos adoram! Em menos de 15 minutos há diversão, riso, aprendizado. Em Filosofia discuto a questão da liberdade.
Para cada filme o professor escolhe um tema específico ou vários temas para serem explorados. Barbosa pode discutir memória, história do Brasil, a existência ou não do destino. Ilha das Flores é um clássico, creio que o curta-metragem mais assistido em todo o Brasil.
O momento de assistir um filme também é um momento de aprendizado. Muitas vezes tive que parar a exibição, reclamar ou xingar algum aluno. Em alguns casos (poucos, é verdade) cheguei ao extremo de retirar da sala pessoas que não conseguiam assistir minimamente tranquilas. Também se aprende a ser expectador.
Com a ampliação do acesso à Internet nas escolas em todo país, o acesso aos filmes tornou-se mais fácil. Durante anos, corri para todos os lados atrás de fitas VHS e depois DVDs. Antes, na adolescência, mal tínhamos acesso a aparelhos de vídeo cassete. Então carregávamos um vídeo cassete (pesado) pela cidade para passar “vídeos” nas escolas sobre a destruição do meio ambiente.
Agora há projetos específicos como o “Curta na Escola”, que disponibiliza centenas de filmes gratuitamente na rede. Começamos a deixar de ser reféns dos filmes comerciais, o que não quer dizer que alguns deles não possam ter alguma utilidade.
Uma discussão importante a ser feita: a democratização do acesso à produção brasileira. Não parece estranho que os brasileiros não tomem conhecimento dos filmes que são feitos em seu próprio país? O mesmo vale para a música e o teatro. E a escola não pode se furtar a esta discussão. Na escola acontece a formação do público, seja que tipo de público for.
Compreender a educação como limitada à escola é limitar tanto a escola quanto a educação das pessoas. Para usar uma imagem, podemos dizer que a formação acontece em rede, numa teia. Tudo o que cai ou que é agarrado na teia torna-se parte dela. Uma música, um bicho ou um conceito em forma de pedra. “Caiu na rede é peixe”, diz o ditado popular. Assim acontece com a gente. A experiência mais ridícula, o inseto menos interessante...tudo faz parte da nossa formação. Às vezes uma palavra rude ou um breve olhar nos sensibilizam mais do que um grande acontecimento. Na rede intrincada da nossa memória as coisas não estão separadas, fechadas. Por isso a técnica e o pensamento técnico não podem dar conta de toda vida. São formas de pensamento úteis, mas muito pobres para dar conta da existência toda. Isto que os grandes poetas já compreenderam há milênios.

14 abril 2010

Um coração e um sonho

Hoje ouvi um coração batendo. Meu filho ou minha filha repousa sem medo nem pensamento no útero da amada. Do tamanho de um grão. E ele ou ela é todo coração.
Um embrião.
Sensação estranha pensar-se pai.
Nunca havia parado para pensar que antes de tudo somos um coração. E que a partir dele é que tudo o mais que chamamos "eu" se cria.

Hoje ouvi teu coração batendo. Se há um lugar que possa ser chamado de sagrado, esse é o som que nele ressoa. Teu coração te inicia nas minhas sendas de pai.


Um sonho
Hoje, num sono profundo no meio da tarde (motivado por uma gravidez que eu divido), sonhei que revirava um lixo. E o que encontrava? Enormes pacotes abertos de doces, chocolates, intactos. Eu que nem sou ligado nisto, acordei com a boca doce.
Como é isso de revirar no lixo e encontrar tanta doçura?
Psicanalistas me ajudem...

10 abril 2010

CAZUZA

Escrevendo para a Adriana Deffenti, que vai fazer um show em homenagem ao Cazuza dia 25 em Porto Alegre, lembrei de um textinho que coloquei no meu livro "A caixa de perguntas" (ainda em busca de editora)...
Aí vai.


Cazuza

No sacolejar sonolento do trem após um dia pesado de trabalho ponho os olhos no livro de minha amiga. Ela o abre num gesto quase ritual de respeito. É o “songbook” de Cazuza. A primeira frase de cada canção me carrega para dentro da música inteira, e me impressiono por saber na ponta da língua suas letras. Nunca havia parado para pensar na influência que o garoto rico, educado pelo sol e pelas areias de Ipanema, teve sobre minha formação de menino pobre habitado por piolhos e incomodado pelos bichos de pé.
Cazuza me parecia apenas mais um naquela cena toda do rock dos anos oitenta. Gostava de sua irreverência e do jeito de menino que recém aprontou alguma. Cantava alegre as músicas de sua banda, que tocavam no rádio. Porém, numa certa noite de domingo de minha adolescência, esse rapaz disse coisas que mexeram com minha forma de perceber o mundo. O ano era 1988.
Ao vivo e em rede nacional, vi e ouvi alguém falar com uma abertura e liberdade como não havia ainda percebido. O programa se chamava “Cara a Cara” e era apresentado por Marília Gabriela. Olhando docemente nos olhos da entrevistadora e com uma certa clarividência, Cazuza deixou-se descobrir e falou claramente sobre as drogas, o sexo, a juventude, a política.
Naqueles tempos já se falava muito em AIDS, e o vírus assustava. A direita religiosa falava em castigo divino. Cazuza era portador, o que significava quase uma sentença de morte. Entretanto, não estava preparado ainda para revelar publicamente. Muitos anos depois, ouvi da boca da própria Marília que durante um dos intervalos daquele programa ela havia tentando convencê-lo a falar a verdade, pois isso lhe faria bem. Ele respondeu “não” à pergunta, embora já estivesse no disco a frase reveladora: “O meu prazer agora é risco de vida”.
Cazuza deparou-se com sua finitude e isto amadureceu o homem e o artista. Nada mais de letras inocentes sobre casos fugazes. A voz cada vez mais rouca e fugidia tocava nas questões básicas da existência, com uma profundidade poucas vezes vista na música popular brasileira. Um mês antes de desaparecer e com uma palavra apenas, Raul Seixas definiu-o muito bem: “visceral”.
A revelação de que tinha a doença abriu as portas para a discussão pública sobre ela. Outros artistas antes dele haviam morrido em silêncio e abandonados por todos. Cazuza, ao contrário, levou multidões a seus shows. Multidões que choravam e pensavam estar assistindo a uma espécie de lenda viva. Mas não era uma lenda que estava ali, era um homem, um artista sensível que soube captar o “espírito” de seu tempo e de certa forma antecipá-lo.
O que dizer de uma canção como “Ideologia”, por exemplo? Quando escreveu a letra, ele sequer sabia o significado da palavra. O Muro de Berlim ainda não havia caído, mas aparece na TV um irreverente e crítico Cazuza jogando no mesmo saco os símbolos do cristianismo, do comunismo, nazismo, etc. Estávamos no início da ascenção da esquerda no Brasil (que Cazuza também apoiava), e no entanto ele pedia uma ideologia para viver. Parecia um desencanto anunciado, um prenúncio da decadência dos anos noventa, em que a indústria de cultura produziria o que gerações futuras – se tiverem dois neurônios para se encontrar – sequer chamarão de música. Em outras letras há uma sensibilidade criativa, como na tirada tipicamente nietzscheana “mentiras sinceras me interessam”.
O disco “Burguesia” é seu último trabalho em vida. Lembro que a primeira vez que ouvi a música tema do trabalho, chorei copiosamente. Mais uma vez ele estava dizendo aquilo que boa parte da minha geração estava pensando e querendo. Cazuza, o menino rico e mimado, se voltava radicalmente contra sua classe social, assim como em outro contexto havia feito Sartre. “Porcos num chiqueiro são mais dignos que um burguês”, ele diz enraivecido. É a denúncia mais ácida e explícita contra a elite brasileira.
No clipe da música ele aparece com os pais em um iate, enquanto crianças pedem esmolas. “Sou rico mas não sou mesquinho/eu também cheiro mal”, Cazuza vai dizendo, enquanto explica que nem todos querem abandonar o país com uma pasta cheia de dólares. Há também nesta elite econômica aqueles que pensam em construir um país.
Este disco encerra com uma belíssima canção chamada “Quando eu estiver cantando”, onde ele fala que a música é aquilo que o mantém vivo. E assim foi. Cazuza viveu enquanto pôde cantar. Esta canção vislumbra a morte iminente, e é ao mesmo tempo um poema triste e apaixonado pela vida.
Posso ser um exagerado, jogado aos seus pés, mas tenho a intuição de que permanecendo vivo Cazuza se transformaria em um outro Vinicius. Um destes grandes poetas populares que encantam a todos e a tudo em que tocam. E compõem poemas e escrevem canções que depois viram a alma de um lugar; aquelas coisas lindas que se transformam no que há de mais belo no senso comum de um povo.

08 abril 2010

Sobre o Santo Daime

Creio que a primeira vez que ouvi algo sobre o hayauasca foi na viagem a Machu Picchu, no Peru. É claro que fiquei curioso para conhecer aquilo que os incas já reverenciavam há muitos séculos. O hauasca tem esse nome e alguns outros próximos. É um chá, uma bebida considerada sagrada pelos incas.
No Peru fala-se que a cidadela de Machu Picchu teria sido um dos últimos refúgios dos sacerdotes mais elevados e das Virgens do Sol. Ali morreram muitos e dali partiram em direção à Amazônia profunda. Em algum lugar remoto da mata densa houve um encontro. Um inca ou um grupo topou com os povos amazônicos; talvez várias nações.
Num destes verdadeiros milagres do sincretismo religioso brasileiro, um caboclo iluminado cria uma religião. Ele bebe a bebida sagrada e Nossa Senhora lhe aparece, pedindo para que construa a igreja do Santo Daime. Arrisco dizer – sem nenhuma autoridade no assunto – que o Santo Daime é a mais brasileira das religiões. Estrelas de Davi iluminam tranquilas um céu de divindades da Umbanda. Jesus vem falar com sua voz pausada aos pretos velhos. Tudo é mistura, diálogo, aceitação.
Já fui um singelo participante de alguns rituais por aí. Participei como “o estrangeiro” em longos cultos evangélicos na madrugada do Chile. Dancei com os Hare Krishna e comi seus pratos doces. Fui educado e deseducado pelo cristianismo católico. Me deleitei com danças árabes de culto, e com uma sacerdotisa se transformando em todos os animas na sua dança de origem indiana.
Sempre entrei de passo leve nos locais de qualquer culto. Embora em geral me reconheçam como um ateu sincero, quase sempre fui recebido de braços abertos pelas pessoas religiosas. De algumas delas me tornei mesmo interlocutor, o que me dá uma grande alegria. É um preconceito perigoso julgar que todo religioso é um pedófilo em potencial, ou um moralista conservador que prega castidade e pratica as maiores perversidades. Há de tudo do bem e do mal “demasiadamente humano” em todo lugar – das igrejas aos jardins de infância.
Participei de alguns rituais do Daime também. Para um certo desagrado meu de jovem urbano e meio anárquico, os rituais eram todos “excessivamente” regrados e organizados. Eu esperava um efeito muito parecido com um passeio pela sonoridade dos Mutantes ou da psicodelia rockeira dos setenta. Que nada.
Em primeiro lugar, você não bebe o Daime se não houver participado de uma celebração antes [me perdoem a palavra celebração, se ela estiver mal empregada]. Alguém que estivesse ali apenas para tirar onda, já desistiria nesse primeiro contato.
Só conheci o chá, o elemental, na segunda ida minha a uma comunidade daimista. O gosto me pareceu terrível, não me agradou de jeito nenhum. Meu estômago chegou a tremer. O veículo lhe leva para onde você guia. Como descrente, não tive as “mirações” que teria uma pessoa que crê. Mas foi no Daime que escutei, emocionado, uma leitura que só depois entenderia como sendo a iniciação dos cristãos: o sermão da montanha. Em uma igreja provavelmente eu jamais seria tocado por aquele texto, aquela conversa séria entre homens simples reunidos em uma montanha.
Quando ouço ou leio alguém que fala negativamente do Santo Daime, lembro das minhas experiências, as (poucas) vezes que o ingeri. O que me “desagradou” no Daime foi exatamente o que seus detratores não percebem: trata-se de uma religião, e uma religião extremamente séria e organizada. Você sempre é chamado de volta ao ritual. Não há nenhum sentido em ligar o chá com a loucura ou com a violência, como tenta fazer uma certa direita frígida.
Ainda bem que ao hauasca não é dado o mesmo tratamento que a outros elementais. Agora o ataque é contra o Daime, mas o alvo é a discussão maior sobre uma nova política sobre drogas.
Sempre que se fala no Brasil em mudar as leis sobre drogas, surge a mesma reação. Um certo discurso moralista se faz de bonzinho e é contra qualquer mudança. Então o tempo passa e tudo permanece como está. Polícia subindo morro atirando, repressão, violência, tráfico. A quem interessa não mudar as leis no Brasil?
Vamos falar sério sobre drogas? Eu sugiro discutir as propagandas de cerveja. Segundo a Organização Mundial de Saúde, algo como 10% da população brasileira é em alguma medida dependente do álcool. Esta é a nossa tragédia nacional. Aí está a porta de entrada para qualquer outra droga, para as mortes no trânsito, para a violência contra as crianças e contra as mulheres.
Eu quero ver a Globo, a revista Veja, Isto É etc... se negando a veicular propaganda de bebidas alcoólicas. Quando fizerem isso, vamos começar a discutir seriamente o tema drogas no Brasil. Mas não precisamos esperar por eles. Já passou da hora de mudar a legislação.
Enquanto isto não acontece, segundo o cronista Bezerra da Silva, a culpa continua sendo do vizinho que atirou a semente no quintal...

23 março 2010

A saudade é uma cadeira vazia

Me diz meu amigo que a saudade é uma cadeira vazia. Você olha e ela está ali, ao lado, como a lhe dizer de algo ou de alguém. Saudade é uma palavra estranha de tão bonita. Ela fala de tantas coisas, de tantos sentimentos, que se perguntar o que significa a pessoa fica gaguejando e não consegue dizer. Saudade é uma palavra que não cabe. Então se diz que não há lugar pra tanta.
A saudade é tão brasileira que não tem tradução. Quer dizer, não tinha. Os ingleses andaram inventando de colocar ela em seus dicionários. Mas continuam sem ter o prazer e aquele gostinho da coisa dita e repetida em alto e bom som. Uns chamam a saudade de parafuso enferrujado, que quanto mais enrosca menos vai. Outros colocam-na no terreno impróprio e improvável do vazio. Eu prefiro representá-la como meu amigo: numa cadeira vazia, ali ao lado. Esperando aquela coisa, sensação, momento ou pessoa que talvez nunca virá sentar.
Nos porões dos navios negreiros a saudade vinha tremendo de frio e de medo. Amontoados como coisas, homens e mulheres procuravam no úmido e no escuro imagens luminosas das terras de onde acabavam de ser roubados. Em alguns lugares, os governantes que os vendiam faziam com que passassem em torno de troncos na beira do mar. Acreditavam que ao passar eles perdiam a memória. Assim, os inescrupulosos negociantes de gente pensavam aliviar a sua culpa.
Mas a memória da gente não pode ser facilmente apagada. E entre mortos e desesperados, dos navios tumbeiros para as praias brasileiras vieram ritos e cores. Jeitos e sonhos que mudaram este outro lado do mundo, com uma saudade maior que a distância entre este assustador pedaço de mundo e a mãe África do qual foram separados. Dos que sobreviviam a estas viagens diabólicas, muitos morriam de tristeza. “Banzo” era o nome que se dava a esta morte de tanta saudade de casa.
Já os portugueses, que ganharam a fama pela palavra, vieram cantá-la em seus violões e cantos melancólicos. Sob a janela real ou imaginária da amada, ou debaixo das copas de enormes árvores reuniam-se para tocar e cantar. Também eles falavam em sua terra distante, e nos perigos do grande monstro marinho. Mas, com certeza, é bem mais fácil sentir saudade quando a gente não é escravo.
Saudade vai, saudade vem. Quero dizer...tempo vai, tempo vem, e começamos a cantar este nosso sentimento. A saudade praticamente tomou conta da música brasileira. De início meio escondida, porque gostava mesmo era do violão. E o violão, como vocês sabem, era discriminado e quase proibido. Quando ele desceu do morro e saiu das sombras foi um assombro só. Invadiu os salões, não teve vergonha nas ruas. Era melancolia e tristeza misturadas com a alegria de ter vivido aquilo que se cantava. Nunca mais a música foi a mesma.
Saudade que se bebe em longos goles para amaciar a garganta e soltar a voz. Saudade de criança, onde toda uma vida cabe num dia que nunca acaba. Saudade que levanta antes do sol pra preparar o café da solidão. Saudade queimada nas pontas dos dedos. Saudade de um certo gosto, de um cheiro especial que só se sente num certo lugar ou ao lado de uma certa pessoa querida.
Como é difícil dizer o que é a saudade, esse sentimento de que sempre está faltando alguma coisa. Essa estrada longa e envolta em bruma, que começa e termina não se sabe bem onde dentro de nós. Meu amigo, acostumado à vastidão dos campos e dos ventos que neles galopam soltos, diz que a saudade é uma cadeira vazia que range. Talvez sejam os sons dos fantasmas que nos povoam, que nela sentam e ficam rindo.
De tanto falar em saudade me veio a lembrança de uma gargalhada que anunciava a madrugada. E certos cabelos longos, que de tão belos podem ser adorados como objeto de devoção. Mas vamos parando por aqui. Que cada leitor ou leitora agora tome um tempinho, e abra sua caixa de saudades. E deixe que elas venham, e deixe que elas falem.

22 março 2010

Anko e Ruth - À sombra das nogueiras

Para digerir a felicidade natural, como a artificial, é preciso, antes de tudo, ter a coragem de engoli-la.

Baudelaire


Anko subiu centenas de degraus para chegar até o alto do burgo (die Festung) de Salzburg. Na Idade Média, Salzburg foi considerada um Estado próprio, com seus becos estreitos, suas casas coloridas, seus castelos, palácios episcopais e catacumbas. Por isso a cidade foi reconhecida como uma das mais belas do mundo.

A vista, desde o castelo, sempre lhe parecera magnífica. Os efeitos da luz fugidia do sol sobre a neve de múltiplos tons de branco lhe fazia muito bem. Na igreja, as oito janelas explodindo a luz sobre o altar. Tudo era poesia no olhar do menino.

A neve descendo as cordilheiras, o degelo iluminado pela luz da manhã, os primeiros pássaros anunciando a primavera. Era já o mês de maio, anunciado pelo doce encanto daquele dia de abril.

Ruth fora visitar o túmulo da avó. Porém, parou seu olhar na estátua de um anjo que segurava uma flor. Próxima ao peito a flor estática e o olhar jogado no horizonte. Foi naquele momento preciso que ela e Anko se viram pela primeira vez. Entre a catedral e o cemitério. Sob a imagem divina e o olhar angelical. Ele sai da catedral. Ela do cemitério. O que os une é a contemplação do transcendente. Trocaram sorrisos infantis e rápidas palavras de encantamento que iriam ligá-los para todo o sempre.

...

Anko caminha sob as copas das nogueiras, pisa em seus duros frutos, recolhe-os calmamente do chão. As árvores centenárias se envergam ante o poder do tempo. Sob elas Anko pode elevar seus pensamentos a píncaros jamais pensados por boa parte de seus companheiros de mosteiro. Se a eles é dada a obrigação de permanecer longe do século, Anko se propõe contemplá-lo e vivê-lo a seu modo. Admirador secreto de Epicuro, é neste filósofo que ele busca sua inspiração para venerar a existência.

Formula a seguinte interrogação a respeito de cada desejo; que me sucederá se se cumpre o que quer o meu desejo? Que me acontecerá se não se cumpre?”. Anko meditava sobre este preceito de Epicuro. E se o desejo que lhe inflamava o peito um dia se tornasse enfim realidade? O jovem monge por alguns instantes sentia um frêmito de medo que lhe movia a espinha e lhe fazia tremer as mãos.

Dos sete dons do Espírito Santo, a sabedoria lhe era mais cara. Naquele momento, seu pensamento era quase sacrílego. Queria o dom da onipresença por um breve instante. Apenas para vê-la.

Afastou aquela ideia tola. E num relance voltou a cabeça até o que sentia sob os pés. Eram nozes, muitas delas.

As nogueiras são árvores gigantescas que se derramam pelo vale, gigantes generosos e sem pressa. Crescem solitárias ou em grupos à beira dos canais. Algumas possuem copas de mais de 15 metros de diâmetro e outros tantos de altura. Sob a sombra o sussurro do farfalhar das folhas e o canto vibrante das cigarras. No chão, um tapete verde de ervas nativas onde as pessoas podem sentar-se.

Algumas são muito velhas, com teias complicadas de raízes, crateras abertas no tronco seco. Morrem e ressuscitam; encontram-se restos de troncos meio caídos, ainda presos à terra, de que já não se espera nada e que no entanto lançam galhos novos, com folhas de um verde claro quase transparente ao sol.

Por vezes uma fila de nogueiras esconde uma aldeia inteira. Desenham uma linha ao longo dos caminhos, como uma pálpebra fechada. Pode-se ir para debaixo delas como quem entra num jardim ou numa casa grande e fresca. As crianças brincam lá embaixo, correm à sombra, molham os pés na água dos canais.

Era época de colheita. De todos os lados vinham aos ouvidos de Anko os ruídos característicos dos homens tentando derrubar as nozes, com varas compridas e finas batendo nos ramos. Equilibravam-se nas árvores como na própria vida, avançando pelo tronco, com as varas na mão, e depois por galhos cada vez mais finos, até quase chegarem às pontas. Há muito de aventura naquele colher de nozes, pois naquele jogo de equilíbrio e peso muitos já haviam perdido a vida. Outros andavam puxando a perna ou um braço caído pelas constantes quebraduras.

No chão, grupos de homens ou mulheres apanham as nozes. Os apanhadores avançam em blocos compactos, com baldes, segundo um percurso cuja principal lógica é não estar onde elas caem. Cada um tem direito, no final, a uma boa porção de nozes. Os miseráveis, que não têm muito mais do que sacos vazios para carregar sua fome, não são esquecidos na colheita de nozes. Uma tradição antiga, na aldeia próxima ao mosteiro, era que cada grupo de catadores dava um punhado de nozes para as crianças pobres que vinham pedir. Também não havia cercas ou muros dividindo as plantações, para facilitar a passagem livre dos famintos que ali aplacavam sua fome imensa.

Se Anko assim quisesse, poderia até mesmo atravessar o vale apenas sob a sombra das nogueiras. Sempre amou-as como uma das mais belas representações da grandeza e beleza da Criação. Foi sob estas majestosas árvores e encantado por elas, que ele teve a ideia. Ao pensar sobre sua melhora de humor ao passar pelas nogueiras e em tudo que diz respeito à colheita das nozes, Anko resolveu inventar algo. (...)


Este "algo" é o licor de nozes. O mesmo licor que vai dar sequência à história e que vai acompanhar o mini-livro "Anko e Ruth - À sombra das nogueiras", a ser lançado no dia 28 de março em Nova Petrópolis. A editora é a Nova Harmonia, a mesma que lançou meu livro sobre o Nietzsche..

Pela Livraria Cultura só estará à venda o livrinho, mas quem o adquirir por aqui leva também uma garrafinha do licor (que é delicioso!).

É verdade que Nietzsche matou Deus?

É verdade que Nietzsche matou Deus?

Deus é o silêncio do universo, e o ser humano,
o grito que dá sentido a esse silêncio.
José Saramago

“Deus está morto”. Esta é uma frase famosa do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (diz-se “Níti”). Lendo-a assim, tirada do contexto em que foi pensada e escrita, ela parece – ao menos para as pessoas que creem – um tanto absurda. Mas esta afirmação vai muito além da simples frase feita. E dá muito o que pensar a crentes e ateus do mundo todo.
Dizer que Deus está morto é o mesmo que dizer que um certo mundo desapareceu. Nietzsche (1844-1900) viveu no século dezenove, que se dizia uma época cheia de descobertas e conhecimentos novos.
Para ele, havia um ar pesado em sua época. Todo aquele discurso que falava em progresso escondia em si algo putrefato e prestes a explodir. A morte de Deus é uma forma simbólica de dizer da morte do Ocidente, dos valores que construíram toda uma civilização. Nietzsche foi fundo nas suas críticas, afirmando que valores como a igualdade não passavam de grandes disfarces que escondiam a consciência de culpa dos mais fortes e o desejo de vingança dos oprimidos.
O cristianismo, para Nietzsche, havia corrompido boa parte da humanidade pregando um mundo ilusório fora daqui. Enquanto esperavam recompensa divina os homens se esqueciam de viver. E o que é ainda pior: maltratavam-se, se automutilavam, esqueciam que tinham um corpo. Tudo em nome de um outro mundo, um além ilusório criado pelas religiões e seus poderosos sacerdotes.
A tradição da filosofia até então sempre colocava Platão como um de seus maiores mestres. Muitos até diziam que depois da grandeza dele tudo parecia pequeno. Nietzsche nunca negou a importância do filósofo grego, mas passou toda a vida a atacar o seu pensamento.
A filosofia de Platão teria nos colocado num falso dilema, ao separar a realidade em dois: o mundo sensível e o mundo das ideias. Depois teria vindo o cristianismo, e se aproveitando disto teria dito que o mundo das ideias era o reino dos céus. Assim, os homens passaram a negar a vida e a maldizer o mundo em que viviam. Sentimentos tão humanos como o ódio, a vingança e o desejo, haviam sido reprimidos em nome de um mundo perfeito que não existia. Esses impulsos contidos voltavam em forma de doenças e ressentimento, envenenando os homens e suas relações.
A tradição filosófica sempre foi a da busca da verdade. Daí vem o próprio nome “filosofia” (philos+sophia), que no grego seria algo como amante ou amigo da sabedoria. O filósofo é aquele que sempre está em busca da verdade, da sabedoria, mesmo sabendo que nunca a possuirá plenamente. A verdade é a sua busca. Nietzsche foi ao fundo disto, radicalizou esta busca e colocou em dúvida a própria noção de verdade.
Ao investigar a origem do conceito do que chamamos verdade, encontrou a mentira. A verdade seria apenas uma criação humana como qualquer outra.
Vejam que não estamos falando de qualquer pensamento. Não é ao acaso que ele repetia que não queria seguidores ou discípulos. Ele dizia que filosofava a marteladas. Sua filosofia é extremamente provocativa, gerando reações que vão da adesão apaixonada ao desprezo. Há alguns estudiosos da filosofia que sequer admitem a ideia de que ele foi um filósofo, classificando-o como um escritor desvairado e inconsequente. Penso que são duas maneiras equivocadas de ler um pensador, ou negando totalmente o que ele pensou ou repetindo seu pensamento como se fosse algo divino.
Mesmo aqueles que nós costumamos chamar de “gênios” foram pessoas como nós, e foram educados e formados dentro de um determinado tempo. Ainda que tenham descoberto ou dito coisas extremamente avançadas para sua época, nunca podemos esquecer que eles são filhos dela. Nietzsche não foi diferente, e apesar de ser considerado por muita gente como uma espécie de “profeta” escreveu e pensou a partir do século dezenove (XIX) e contra ele.
Nietzsche estudou muito, e ainda jovem escreveu textos e livros que continuam impressionantes pela sua atualidade. Sua obra é grande, tanto pela quantidade quanto pela variedade e profundidade com que abordou os mais variados temas. Nos primeiros escritos ele segue uma certa organização acadêmica, que podemos encontrar até hoje na maior parte das produções em filosofia. Porém, posteriormente ele passou a escrever através de aforismos, fragmentos. Então, às vezes em um pequeno parágrafo encontramos uma condensação de informações e conceitos impressionante. Ele brincava com isto, dizendo que o efeito pretendido era parecido com um banho de água gelada: você entra rapidamente, toma uma ducha e sai renovado. É um susto que faz acordar!
Também por isto seus escritos são perigosos. Para usar uma imagem tirada dele, poderia dizer que quem sofre de vertigens não pode subir rapidamente até o pico de uma montanha. É necessário subir com cuidado, e lembrar que o ar gelado que faz lá no alto pede uma boa saúde. É preciso lê-lo sem pressa, digerindo cada palavra. Isto seria um bom conselho para qualquer leitura. Ler devagar. Mas em filosofia e ainda mais se tratando dele, nunca é demais lembrar.
A quem nunca leu nada de Nietzsche e quer conhecê-lo, eu sugiro um primeiro contato por via indireta. Há um pequeno livro, escrito pelo professor Oswaldo Giacoia Júnior, que é muito bom e extremamente elucidativo. O professor Giacoia é um dos maiores conhecedores de Nietzsche no Brasil. O livro chama-se Nietzsche, e eu o coloco ao final do texto.
Eu próprio estudei algumas coisas de sua obra, especialmente a sua relação com a educação, e publiquei o resultado em um livro chamado Nietzsche, o professor. Ele foi professor durante dez anos, escreveu sobre educação, e o tempo todo pensava em ser compreendido. Chegou a tirar do próprio bolso para publicar seus livros.
Nietzsche é famoso por suas frases de efeito, e muitas pessoas ficam paralisadas nelas. Mas é preciso ir muito além, se realmente queremos entender o pensamento de um filósofo. Mesmo assim, vou deixá-los aqui com uma citação famosíssima dele, que trata de um de seus conceitos mais importantes que é o do eterno retorno. Esta passagem se encontra no livro Gaia ciência, e me parece uma das mais belas exaltações à vida que aparecem na filosofia.

E se, um dia ou uma noite, um demônio viesse se introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, muito pelo contrário! A menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande e de indizivelmente pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão... esta aranha também voltará a aparecer, este luar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!” Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldiçoando este demônio? A menos que já tenhas vivido um instante prodigioso em que lhe responderias: “Tu és um deus, nunca ouvi palavras tão divinas!”
Se este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse, havias de te perguntar a propósito de tudo: “Quero isto? E quero outra vez? Uma vez? Sempre? Até o infinito?” E esta questão pesaria sobre ti como peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além dessa suprema confirmação!

A resposta de Nietzsche para a pergunta do “demônio” é um grande sim! Um grande sim à vida, com tudo que nela há de trágico e maravilhoso, belo e cruel...



Para pensar mais:

GIACOIA JR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
NEUKAMP, Elenilton. Nietzsche, o professor. São Leopoldo: Nova Harmonia/Oikos: 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.